05 julho, 2012

Encontros Anónimos (5ª parte)

Existe um certo charme associado à sedução de uma mulher que já espera ser seduzida e, por isso, alinha num jogo que, sabe, vai perder propositadamente gozando assim da vantagem de quem está no controle. Claro está, é frustrante seduzir uma mulher que não está aberta à sedução.
As mulheres de meia idade são particularmente especialistas na arte de serem seduzidas e, aquelas realmente entendidas no jogo, fazem-no de um modo que o adversário pensa que está a ganhar até aos últimos minutos do encontro. É um desafio de rivais de longa data que, sejamos francos, na sua fase final, é o desporto com mais contacto físico que existe mas, que ambas as partes acordam terminar de forma teoricamente amigável sem que os limites da dor suportável sejam violados. Existe uma cumplicidade implícita que, em certos momentos, mais parece uma rendição mútua, e consequente união de esforços, para que a individualidade egoísta seja satisfeita. Não existem regras tacitamente definidas no início, o que se traduz numa jogatina imprevista cujo curso é definido a cada minuto de avanço no campo de jogo. As regras são escritas sensorialmente e o entendimento comum acaba sempre por ter o mesmo fim, mesmo que, pelo meio, existam divergências na linguagem usada. É bem capaz de ser o único desafio à semiótica de que me apercebo. Tal como a matemática, é uma linguagem universal que todos a conhecemos à nascença e dispensa aprendizagem cultural, talvez algum treino. Obviamente, a cultura desempenha um papel fundamental neste duelo mas, a facilidade com que diferentes culturas entram em acordo para o bem comum, desafia qualquer lei das relações internacionais e o entendimento da ONU sobre as políticas externas de países em desacordo.
Seria interessante ver como o jogo da sedução, se aplicado à macro-escala geográfica, poderia resolver conflitos internacionais, talvez de uma forma bem mais pacífica do que os especialistas em relações internacionais conseguem, através de jogos de palavras e trunfos medianamente interessantes apesar de usarem as mesmas mesas de reunião que depois servem de suporte ao jogo da sedução em contextos completamente diferentes.
Na micro-escala do quarto de Laura, a única mesa que existe está repleta de vidros coloridos, aleatoriamente dispostos de uma forma que denota uma limitada preocupação em parecer aleatória, dir-se-ia uma pequena batalha de formas, cada uma lutando para parecer mais sensual que a outra, escondendo no seu interior o maior trunfo de todos, capaz de mudar mentes e dar-lhes outros desejos que não os puramente sociais. Existe ainda um espelho que, convenientemente, reflecte a cama larga, de altura certa, que divide com o seu marido, sempre que este não viaja, limitando assim os desejos duma mulher que guarda metodicamente fantasias satisfeitas a cada quinze dias por adversários criteriosamente escolhidos pelo seu aspecto rude, mas vigoroso, capazes de suportar a explosão de calor que emana da válvula de uma panela de pressão a cada vinte segundos, apenas para ser absorvida pelo exaustor, sujo de gordura mas incansável, no seu ritmo e gemido constantes.

Enquanto Aníbal, de tronco nu, sentado na cama, admirava os frascos aleatoriamente dispostos, tentando sentir odores associados às várias cores, Laura preparava-se na casa de banho num ritual que antevia uma tarde de descompressão.
Laura, directora de uma revista de moda, mulher de pele clara mas bem tratada de modo a evitar a visualização de quaisquer defeitos, casada há mais de vinte anos, tinha dois filhos. A promessa de conhecer outro país tinha levado o marido e os filhos para longe naqueles dias e Laura ficou em casa mais uma vez, para grande satisfação pessoal desta e completo desconhecimento daquele.
O quarto, estrategicamente posicionado no lado sul da casa, era assim iluminado mais tempo pelo sol que entrava pelas largas portas de correr, feitas em vidro duplo de qualidade, que separavam o interior do quarto de uma varanda, tamanho médio, onde se encontrava uma mesa redonda e três cadeiras. Esta ímpar composição, denotando uma certa incapacidade de lidar com números pares ou cenas compostas, parecia arranjada demais para ser usada com qualquer fim que não fosse o puramente decorativo. Não existiria muita afinidade no casal que lhes permitisse desfrutar de uma tarde solarenga naquela mesa. Por outro lado poderia ser apenas uma falta de gosto em apanhar sol e conversar com alguém que já não articulava qualquer tipo de assunto nem estimulava a intelectualidade do outro.

Toxicodependentes com propensão a cometer crimes para sustentar o seu vício não são, geralmente, pessoas violentas. O crime violento exige, de quem o exerce, um estado de espírito que eles preferem não sentir nos momentos em que desfrutam daquilo que os seus saques permitem comprar.
Geralmente transformam-se em pequenos ladrões de casas, envergonhados, e preferem assaltá-las quando estão vazias, evitando assim a adrenalina[1] que retiraria parte do prazer associado ao consumo ilegal de substâncias controladas[2].
Amaro, é um jovem de vinte e nove anos, toxicodependente, que passou metade da sua vida em centros de detenção e, mais recentemente, no centro prisional da área da sua residência, o que permitia a visita regular da sua mãe que se desfazia em lágrimas, a cada retorno a casa, pensando onde teria errado na educação do filho.
Foi apenas o acaso, e talvez o facto de não se encontrar qualquer carro estacionado à porta, que seleccionou a casa de Laura como alvo preferencial para o saque de hoje que Amaro iria levar a cabo com mais dois conhecidos amigos do alheio, frequentadores do mesmo centro prisional em que Amaro era cliente assíduo e, com o qual, dividiam o quarto com vista privilegiada para o pátio.
Olhando para a casa, cercada por muros altos, Amaro imaginava a melhor maneira de entrar no seu interior.

A imaginação de Caroço já teria associado e dissociado, por várias vezes, um aroma a cada frasco pensando ser o mais correcto tendo em conta a cor no seu interior. Finalmente a porta da casa de banho abria-se e ele pensou como, neste caso, não lhe custaria nada passar umas horas divertidas. Laura saía pela porta duma forma bastante sensual, perfeitamente equilibrada em cima de saltos altos, compensados, erguendo uns fios que mal cobriam o corpo bem trabalhado no ginásio que frequentava com as mesmas amigas com quem partilhava as histórias de infidelidade. A panela de pressão estava a encher e preparava-se para despressurizar a qualquer momento. Atirou-se a Aníbal, deitando-o de costas na cama e beijando-o desenfreadamente, entre gemidos ainda um pouco forçados mas que, sabia, iriam passar a muito reais em breve, ao mesmo tempo que este agarrava a sua cintura e sentia aquela pele suave contra o seu corpo bronzeado e definido pelos anos de noitadas e magreza do álcool.
É no momento que os dois se encontram em pleno acto sexual, fazendo uso de alguns brinquedos cuja forma e função se adequam e complementam perfeitamente, que Amaro e companheiros entram no andar de baixo vasculhando toda a casa em procura de valores que possam comprar a felicidade nocturna que se avizinha. Começam pela sala, passando rapidamente para as outras divisões do andar térreo quando, subitamente, ouvem uns gemidos, bastante explícitos sobre o que se passava no andar de cima.
Caroço, não que fosse necessário, envergava um dispositivo que permitia duplicar a sua masculinidade e Laura, debruçada de quatro, despressurizava o que lhe era permitido em tais condições quando Amaro e os seus dois companheiros entram pelo quarto tentando não importunar o casal que apenas se apercebe da visita quando Caroço recebe uma paulada perfeitamente aplicada na cabeça e cai nas costas de Laura que, naquele momento, despressuriza qualquer pressão que ainda pudesse conter no seu interior.

É no meio dos gritos histéricos de Laura que é arrancado, a Caroço, uma das duas masculinidades (felizmente aquela que é mais fácil de desprender) cheirosa a sexo fresco, que rapidamente enche a boca de Laura, quase até à epiglote, e é presa com fita adesiva castanha, de qualidade, e evita mais gritos, desnecessários, quando o objectivo é apenas roubar sem violência mas usufruindo de alguma tranquilidade.
Laura continua histérica e a esbracejar na direcção da casa de banho enquanto tenta desesperadamente dizer-lhes que não precisam fazer-lhe mal e que os valores estão num cofre que se encontra escondido no interior do armário, ao lado do lavatório, mas a única coisa que Amaro ouve é 'humm hum hummm humm hum hum'.
Enquanto Laura esbraceja, um dos companheiros tenta mantê-la imóvel enquanto os outros reviram o quarto à procura de jóias e/ou outros valores.
Laura imagina o que lhe farão tais delinquentes e na situação em que foi apanhada com Caroço que, inconsciente, continua deitado na cama do casal sem qualquer tipo de reacção previsível nas próximas vinte e quatro horas.
Perante a persistência dos 'humms hums hummms humms hums hums' e do constante esbracejar, os três companheiros conferenciam o que farão com Laura, evitando a sua interferência em tão cuidado assalto. Um deles repara na varanda e nas cadeiras que nela se encontram e os olhos de Laura transformam-se rapidamente numa espécie de olhos Garfield[3] (sem sono), saindo das órbitas, observando em terror o mesmo espaço solarengo, concebendo na sua mente a imagem do fim, se ali for deixada ao sol, com uma das masculinidades de Caroço enfiada pela boca, quase até à epiglote, sendo que a sua condição alérgica a levará a uma morte lenta e penosa. Quanto mais esbraceja e emite 'humms hummms hums hums' tentando dizer-lhes que é alérgica à exposição solar em excesso, mais os três ladrões se apressam a transportá-la e amarrá-la pelos braços e tornozelos a uma das cadeiras na varanda fechando a porta de vidro em seguida.
Laura é deixada na varanda, completamente nua e indefesa, amarrada pelos braços e pés ainda dentro dos saltos altos compensados, a uma das cadeiras que lhe permite, através da visão periférica, visualizar o que se passa no interior do quarto, enquanto o sol começa lentamente a tostar a sua pele suave e clara, bem tratada, livre de quaisquer defeitos que possam denunciar a sua idade.


[1] Adrenalina, ou epinefrina, é uma hormona neurotransmissora, derivada da modificação de um aminoácido aromático (Tirosina), segregada pelas glândulas supra-renais. Em momentos de "stress", as glândulas segregam quantidades abundantes desta hormona que prepara o organismo para grandes esforços físicos, estimula o coração, eleva a tensão arterial, relaxa certos músculos e contrai outros. Não serve, portanto, para nada excepto cortar o efeito das drogas que arduamente foram adquiridas à custa do sofrimento alheio.

[2] Coisas várias que, temporariamente, fazem-nos sentir bem.

[3] Gato com olhos esbugalhados[4].

[4] Globos oculares fora da órbita como se fossem saltar da cara.


(continua...)

1 comentário:

  1. huumm huumm, huummm hum huummm...[1]
    [1] muito bom, mesmo muito bom... ;)

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