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15 julho, 2012

Encontros Anónimos (6ª parte)

Nua e sozinha na varanda, sob a luz escaldante do sol, onde os seus 'humms hums' não desconcentrarão o trabalho em progresso, Laura observa Amaro e os companheiros enquanto estes reviram o quarto.
Caroço dorme o sono mais profundo que alguma vez dormiu na vida, sem perspectivas de acordar. Laura percebe que não adianta continuar a tentar falar com os ladrões e a gastar energia essencial para manter-se viva o mais possível e, assim, ter uma hipótese de ser salva por alguém que, miraculosamente, apareça em sua casa. O seu marido poderia decidir voltar mais cedo, o que não seria uma situação agradável mas, entre a morte lenta e dolorosa da exposição ao sol e consequente e gradual asfixia, limitando a entrada de ar para os pulmões já de si dificultada pelo dispositivo que albergava na boca, e a vergonha de ser encontrada pela família, naquele estado, com um homem de aspecto rude na sua cama, a dormir tranquilamente, e o consequente divórcio, preferiria a vergonha e o divórcio. Tudo é melhor que a morte, especialmente quando esta chega já anunciada e lentamente vai tratando do processo de transporte para local desconhecido. Laura não queria morrer. Tinha assuntos inacabados que, de um momento para o outro, iam chegando à sua mente como fotografias que passam rápido demais numa apresentação projectada na parede branca da sala de reuniões. O desespero tomou conta da sua existência, impotente para se libertar das amarras que a faziam assumir uma forma rígida, qual peça de Tetris em 'S' perfeitamente encaixada noutra peça por baixo dela. Mas não faria linha e a peça debaixo dela não desapareceria num piscar de olhos estrelado juntamente com a soma de um bónus.
Sentia uma pinga de suor que se formara no couro cabeludo, junto às raízes do cabelo quente, a entrar na área da testa e ligeiramente escorrer na direcção do olho direito curvando e contra-curvando, em clara obediência às linhas de rosto, que a atiravam para o canto mais perto do cimo do nariz, onde entraria sem problemas na cavidade ocular. Um ardor que, sabia, salgado mas não poderia provar. Pelo menos, esta gota.

Teria de manter-se calma e respirar lenta e profundamente de modo a oxigenar o cérebro em intervalos regulares[1] que lhe permitissem não sentir falta de oxigénio e sofrer um desmaio que seria bem mais dramático naquela situação delicada.
A pele mais directamente exposta ao sol adquiria, ao estilo de Seurat, um pontilhado vermelho ao mesmo tempo que começava a sentir um pouco de dificuldade em respirar. O objecto fálico na sua boca, quase até à epiglote, deixava um angustiante espaço, reduzido demais, para que o ar passasse fluidamente para os pulmões mas o dispositivo de mudez forçada não permitia a visualização da expressão assustada, qual Grito de Munch, que provavelmente teria naquela hora.
Laura sempre pensou que o seu fim seria mais tarde, honroso, em família, longínquo da devassa praticada a intervalos quinzenais, regulares, e a notícia da sua morte seria capa da mesma revista onde trabalhava arduamente com um cabeçalho digno de registo. Neste momento já se contentava com um cabeçalho vergonhoso que pudesse apreciar, viva, em qualquer outro país.
Subitamente é invadida por um sentimento de remorsos. O marido ter-lhe-ia feito o convite para o acompanhar na viagem mas preferiu ficar em casa e passar uma horas agradáveis com um novo exaustor.
Os minutos passavam e o Sol estava cada vez mais abrasador na pele nua de Laura que, agora, parecia mais a Impressão, de Monet, do que uma pele branca e cuidada. Uma segunda gota de suor iniciava o seu percurso descendo da testa, passando pelo nariz, detendo-se na ponta deste para lentamente acumular mais líquido e cair nos lábios secos. Rapidamente é absorvida e, o sabor salgado, espalha-se, finalmente, pelas papilas gustativas de Laura aliviando um pouco os pensamentos. O calor lembrava-a da sua juventude e das férias que passava junto à praia com os pais e os amores de Verão, que vinham à vez e passavam rapidamente dando lugar aos seguintes. Tudo estaria igual não fosse o facto de agora ser uma importante directora editorial, reconhecida no mundo social, que estava amarrada, a escaldar, sabendo que em pouco tempo estaria numa situação respiratória muito séria.
Da varanda não se via ninguém que pudesse ajudar ou chamar a polícia. O local é ermo e distante de qualquer outra casa.
Um pardal pousa na mesa e olha, curioso, para Laura revirando a cabeça em pequenos, mas rápidos, movimentos. A respiração estava cada vez mais difícil obrigando-a a um auto-controle ainda maior. Olhando aquele pássaro em cima da mesa, apercebe-se que a liberdade não se nota até que não a temos. Pessoas felizes são todas iguais... Pessoas miseráveis, são-no, cada uma à sua maneira[2].
Dentro do quarto a azáfama era grande e parecia não terminar tão cedo quanto a necessidade  faria crer que, no final, iriam libertá-la. O grupo roubava tudo o que poderia ter algum valor e não escondia a satisfação enquanto o fazia.

Naquele momento a entrada de ar era já insuficiente para qualquer tipo de pensamento racional e o desespero aumentava. A cabeça de Laura já não tinha forças para aguentar na vertical, balanceando de um lado para o outro com o enfraquecimento do esternocleidomastoideo e dos vários escalenos.
O grupo já não se encontrava no quarto e a possibilidade de a libertarem no final do assalto era agora uma miragem. Nesta fase aceita-se o facto de que a morte é a melhor solução. Os pensamentos dirigiam-se para os filhos e para a oportunidade que desejaria ter de despedir-se e de dizer-lhes que os ama com todo o coração. Nestes momentos de desespero, o amor, é tudo o que ocupa os últimos resquícios de pensamento sóbrio.
O Sol fazia já uma pequena sombra na varanda quando começava a passar por cima do telhado da casa. Num último desespero, Laura tenta saltitar a cadeira para aproximar-se da sombra apenas para aperceber-se que já não tinha forças em qualquer dos músculos do corpo. A sua postura era imóvel, estática e sólida, e as amarras já nem faziam sentido pois, mesmo que removidas, continuaria certamente naquela posição.
Em agonia e dor, ouvindo a pulsação do coração nos ouvidos, tal era o silêncio em que a vida a deixava, vendo a visão periférica a estreitar e uma mancha negra, circular, a fechar-se à volta dos últimos raios de luz que as retinas iriam processar, conseguiu ainda pensar que modo era este, mais estúpido e surreal, de encontrar a morte depois de tanto tempo numa vida cheia e com significado.
Com a aproximação do rigor mortis, Laura parecia agora uma forma grotesca e inchada não devendo nada à beleza anterior que a distinguia entre as suas amigas, todas colegas de ginásio e confidentes das infidelidades quinzenais, e que iriam certamente fazer algumas piadas com a sua morte.
A pele tinha agora um aspecto de levedura, seca e endurecida pelo Sol, inchando e deformando à mercê do calor. A cabeça pendia para a frente numa última reverência, não se sabe bem a quem ou quê.
Um final inusitado para alguém que pretendia apenas um fim-de-semana igual a todos os outros que, quinzenalmente, já tinha passado em perfeita descompressão.
Quando os agentes da autoridade são finalmente chamados, depois da chegada da família e óbvio trauma psicológico para a vida por parte dos filhos, e a retiram da fria cadeira de varanda, tiveram de a carregar na mesma posição em que esteve por largas horas, qual peça de Tetris inanimada que não mais estava encaixada em qualquer outra do mesmo formato. Os músculos rígidos e a coluna vertebral solidificada assim iriam permanecer até que um dia depois, antes da passagem ao estado seguinte[3], o seu corpo ficasse completamente inerte e flexível.
Coitado daquele ingénuo marido que encontrou a sua amada esposa numa situação daquelas e que terá agora de gastar uma fortuna em psico-terapia para os filhos de oito e onze, e talvez até para o próprio, pelos menos nos próximos dez anos, até que estes consigam lidar com a cena visualizada naquele domingo de tarde, queria acreditar que os assaltantes teriam invadido a sua casa, prendido a esposa na varanda e se esqueceram dela quando fugiram, deixando para trás um dos seus colegas que adormeceu na cama luxuosa onde se deitou para descansar um pouco e que, agora, se encontrava sob custódia policial. E assim iria permanecer a sua crença, enquanto o lugar de Laura não fosse preenchido por outra, disposta a uma vida de pouca excitação e fraco estímulo intelectual[4].


[1] Pelo menos de trinta em trinta segundos para que a correcta oxigenação do cérebro seja feita em condições de manter a vida.

[2] Adaptação pretensiosa de uma frase de Лев Николаевич Толстой (Liev Tolstoi).

[3] Livor mortis.

[4] Uma prequela é, por definição, uma marcha em direcção ao inevitável.


(continua...)

05 julho, 2012

Encontros Anónimos (5ª parte)

Existe um certo charme associado à sedução de uma mulher que já espera ser seduzida e, por isso, alinha num jogo que, sabe, vai perder propositadamente gozando assim da vantagem de quem está no controle. Claro está, é frustrante seduzir uma mulher que não está aberta à sedução.
As mulheres de meia idade são particularmente especialistas na arte de serem seduzidas e, aquelas realmente entendidas no jogo, fazem-no de um modo que o adversário pensa que está a ganhar até aos últimos minutos do encontro. É um desafio de rivais de longa data que, sejamos francos, na sua fase final, é o desporto com mais contacto físico que existe mas, que ambas as partes acordam terminar de forma teoricamente amigável sem que os limites da dor suportável sejam violados. Existe uma cumplicidade implícita que, em certos momentos, mais parece uma rendição mútua, e consequente união de esforços, para que a individualidade egoísta seja satisfeita. Não existem regras tacitamente definidas no início, o que se traduz numa jogatina imprevista cujo curso é definido a cada minuto de avanço no campo de jogo. As regras são escritas sensorialmente e o entendimento comum acaba sempre por ter o mesmo fim, mesmo que, pelo meio, existam divergências na linguagem usada. É bem capaz de ser o único desafio à semiótica de que me apercebo. Tal como a matemática, é uma linguagem universal que todos a conhecemos à nascença e dispensa aprendizagem cultural, talvez algum treino. Obviamente, a cultura desempenha um papel fundamental neste duelo mas, a facilidade com que diferentes culturas entram em acordo para o bem comum, desafia qualquer lei das relações internacionais e o entendimento da ONU sobre as políticas externas de países em desacordo.
Seria interessante ver como o jogo da sedução, se aplicado à macro-escala geográfica, poderia resolver conflitos internacionais, talvez de uma forma bem mais pacífica do que os especialistas em relações internacionais conseguem, através de jogos de palavras e trunfos medianamente interessantes apesar de usarem as mesmas mesas de reunião que depois servem de suporte ao jogo da sedução em contextos completamente diferentes.
Na micro-escala do quarto de Laura, a única mesa que existe está repleta de vidros coloridos, aleatoriamente dispostos de uma forma que denota uma limitada preocupação em parecer aleatória, dir-se-ia uma pequena batalha de formas, cada uma lutando para parecer mais sensual que a outra, escondendo no seu interior o maior trunfo de todos, capaz de mudar mentes e dar-lhes outros desejos que não os puramente sociais. Existe ainda um espelho que, convenientemente, reflecte a cama larga, de altura certa, que divide com o seu marido, sempre que este não viaja, limitando assim os desejos duma mulher que guarda metodicamente fantasias satisfeitas a cada quinze dias por adversários criteriosamente escolhidos pelo seu aspecto rude, mas vigoroso, capazes de suportar a explosão de calor que emana da válvula de uma panela de pressão a cada vinte segundos, apenas para ser absorvida pelo exaustor, sujo de gordura mas incansável, no seu ritmo e gemido constantes.

Enquanto Aníbal, de tronco nu, sentado na cama, admirava os frascos aleatoriamente dispostos, tentando sentir odores associados às várias cores, Laura preparava-se na casa de banho num ritual que antevia uma tarde de descompressão.
Laura, directora de uma revista de moda, mulher de pele clara mas bem tratada de modo a evitar a visualização de quaisquer defeitos, casada há mais de vinte anos, tinha dois filhos. A promessa de conhecer outro país tinha levado o marido e os filhos para longe naqueles dias e Laura ficou em casa mais uma vez, para grande satisfação pessoal desta e completo desconhecimento daquele.
O quarto, estrategicamente posicionado no lado sul da casa, era assim iluminado mais tempo pelo sol que entrava pelas largas portas de correr, feitas em vidro duplo de qualidade, que separavam o interior do quarto de uma varanda, tamanho médio, onde se encontrava uma mesa redonda e três cadeiras. Esta ímpar composição, denotando uma certa incapacidade de lidar com números pares ou cenas compostas, parecia arranjada demais para ser usada com qualquer fim que não fosse o puramente decorativo. Não existiria muita afinidade no casal que lhes permitisse desfrutar de uma tarde solarenga naquela mesa. Por outro lado poderia ser apenas uma falta de gosto em apanhar sol e conversar com alguém que já não articulava qualquer tipo de assunto nem estimulava a intelectualidade do outro.

Toxicodependentes com propensão a cometer crimes para sustentar o seu vício não são, geralmente, pessoas violentas. O crime violento exige, de quem o exerce, um estado de espírito que eles preferem não sentir nos momentos em que desfrutam daquilo que os seus saques permitem comprar.
Geralmente transformam-se em pequenos ladrões de casas, envergonhados, e preferem assaltá-las quando estão vazias, evitando assim a adrenalina[1] que retiraria parte do prazer associado ao consumo ilegal de substâncias controladas[2].
Amaro, é um jovem de vinte e nove anos, toxicodependente, que passou metade da sua vida em centros de detenção e, mais recentemente, no centro prisional da área da sua residência, o que permitia a visita regular da sua mãe que se desfazia em lágrimas, a cada retorno a casa, pensando onde teria errado na educação do filho.
Foi apenas o acaso, e talvez o facto de não se encontrar qualquer carro estacionado à porta, que seleccionou a casa de Laura como alvo preferencial para o saque de hoje que Amaro iria levar a cabo com mais dois conhecidos amigos do alheio, frequentadores do mesmo centro prisional em que Amaro era cliente assíduo e, com o qual, dividiam o quarto com vista privilegiada para o pátio.
Olhando para a casa, cercada por muros altos, Amaro imaginava a melhor maneira de entrar no seu interior.

A imaginação de Caroço já teria associado e dissociado, por várias vezes, um aroma a cada frasco pensando ser o mais correcto tendo em conta a cor no seu interior. Finalmente a porta da casa de banho abria-se e ele pensou como, neste caso, não lhe custaria nada passar umas horas divertidas. Laura saía pela porta duma forma bastante sensual, perfeitamente equilibrada em cima de saltos altos, compensados, erguendo uns fios que mal cobriam o corpo bem trabalhado no ginásio que frequentava com as mesmas amigas com quem partilhava as histórias de infidelidade. A panela de pressão estava a encher e preparava-se para despressurizar a qualquer momento. Atirou-se a Aníbal, deitando-o de costas na cama e beijando-o desenfreadamente, entre gemidos ainda um pouco forçados mas que, sabia, iriam passar a muito reais em breve, ao mesmo tempo que este agarrava a sua cintura e sentia aquela pele suave contra o seu corpo bronzeado e definido pelos anos de noitadas e magreza do álcool.
É no momento que os dois se encontram em pleno acto sexual, fazendo uso de alguns brinquedos cuja forma e função se adequam e complementam perfeitamente, que Amaro e companheiros entram no andar de baixo vasculhando toda a casa em procura de valores que possam comprar a felicidade nocturna que se avizinha. Começam pela sala, passando rapidamente para as outras divisões do andar térreo quando, subitamente, ouvem uns gemidos, bastante explícitos sobre o que se passava no andar de cima.
Caroço, não que fosse necessário, envergava um dispositivo que permitia duplicar a sua masculinidade e Laura, debruçada de quatro, despressurizava o que lhe era permitido em tais condições quando Amaro e os seus dois companheiros entram pelo quarto tentando não importunar o casal que apenas se apercebe da visita quando Caroço recebe uma paulada perfeitamente aplicada na cabeça e cai nas costas de Laura que, naquele momento, despressuriza qualquer pressão que ainda pudesse conter no seu interior.

É no meio dos gritos histéricos de Laura que é arrancado, a Caroço, uma das duas masculinidades (felizmente aquela que é mais fácil de desprender) cheirosa a sexo fresco, que rapidamente enche a boca de Laura, quase até à epiglote, e é presa com fita adesiva castanha, de qualidade, e evita mais gritos, desnecessários, quando o objectivo é apenas roubar sem violência mas usufruindo de alguma tranquilidade.
Laura continua histérica e a esbracejar na direcção da casa de banho enquanto tenta desesperadamente dizer-lhes que não precisam fazer-lhe mal e que os valores estão num cofre que se encontra escondido no interior do armário, ao lado do lavatório, mas a única coisa que Amaro ouve é 'humm hum hummm humm hum hum'.
Enquanto Laura esbraceja, um dos companheiros tenta mantê-la imóvel enquanto os outros reviram o quarto à procura de jóias e/ou outros valores.
Laura imagina o que lhe farão tais delinquentes e na situação em que foi apanhada com Caroço que, inconsciente, continua deitado na cama do casal sem qualquer tipo de reacção previsível nas próximas vinte e quatro horas.
Perante a persistência dos 'humms hums hummms humms hums hums' e do constante esbracejar, os três companheiros conferenciam o que farão com Laura, evitando a sua interferência em tão cuidado assalto. Um deles repara na varanda e nas cadeiras que nela se encontram e os olhos de Laura transformam-se rapidamente numa espécie de olhos Garfield[3] (sem sono), saindo das órbitas, observando em terror o mesmo espaço solarengo, concebendo na sua mente a imagem do fim, se ali for deixada ao sol, com uma das masculinidades de Caroço enfiada pela boca, quase até à epiglote, sendo que a sua condição alérgica a levará a uma morte lenta e penosa. Quanto mais esbraceja e emite 'humms hummms hums hums' tentando dizer-lhes que é alérgica à exposição solar em excesso, mais os três ladrões se apressam a transportá-la e amarrá-la pelos braços e tornozelos a uma das cadeiras na varanda fechando a porta de vidro em seguida.
Laura é deixada na varanda, completamente nua e indefesa, amarrada pelos braços e pés ainda dentro dos saltos altos compensados, a uma das cadeiras que lhe permite, através da visão periférica, visualizar o que se passa no interior do quarto, enquanto o sol começa lentamente a tostar a sua pele suave e clara, bem tratada, livre de quaisquer defeitos que possam denunciar a sua idade.


[1] Adrenalina, ou epinefrina, é uma hormona neurotransmissora, derivada da modificação de um aminoácido aromático (Tirosina), segregada pelas glândulas supra-renais. Em momentos de "stress", as glândulas segregam quantidades abundantes desta hormona que prepara o organismo para grandes esforços físicos, estimula o coração, eleva a tensão arterial, relaxa certos músculos e contrai outros. Não serve, portanto, para nada excepto cortar o efeito das drogas que arduamente foram adquiridas à custa do sofrimento alheio.

[2] Coisas várias que, temporariamente, fazem-nos sentir bem.

[3] Gato com olhos esbugalhados[4].

[4] Globos oculares fora da órbita como se fossem saltar da cara.


(continua...)

20 junho, 2012

Encontros Anónimos (4ª parte)

Deixo a porta entreaberta e volto ao meu assento rangedor que não perdeu ainda as suas qualidades sonoras mesmo depois do meu exacerbado empenho.

O silêncio é ensurdecedor. A rua é calma e, no interior da loja, não há um único som que se sobreponha ao tic tac do relógio de parede que, foi-me dito, é mais velho que eu e foi oferecido pela avó do proprietário, ainda em vida da primeira aquando da aquisição do espaço pelo segundo.

Aproveito o momento para observar melhor o relógio. Feito em madeira de castanho, tem formato de campanário mais ou menos com cinquenta centímetros de altura por trinta de largura. Ao centro, uma porta de vidro permite ver um painel metálico dourado com numeração romana nas posições dos pontos cardeais. Por baixo um pequeno pêndulo, redondo, também ele dourado, seguro por uma haste metálica, também ela dourada, passeia-se da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda num movimento contínuo e quase infinito emitindo o famoso tic tac que se sobrepõe ao silêncio ensurdecedor que enche este espaço.
Atentando melhor no tic tac, reparo que é, na realidade, um tic tic tac, o que denota o movimento de, pelo menos, três peças dentadas que realizam uma preparação, um movimento e um retorno. A velharia diz-me que são 17:10h o que entra em contradição com as 17:11h do meu relógio. Acredito mais no meu que no outro e apresso-me a corrigir a hora na parede. Dois relógios em contradição é como ter um relacionamento por mais de dois anos, simplesmente não acontece no meu universo.
O homem do telefonema ainda não veio e eu começo a pensar no que poderá andar a fazer para não ter cumprido a promessa. Estará perdido algures aqui perto? Perdoamos sempre a quem nos deixa em ansiedade. Mas ele disse que trabalhava aqui perto. Será que foi atropelado por um autocarro enquanto atravessava a passadeira? Caiu na linha do metro?
Está um insecto no topo do campanário. Vejo-lhe bem as antenas a tactear o ar em busca de alguma coisa pouco clara para mim.
Mesmo ao lado do campanário, uma janela de montra cheia de luz amarela. A iluminação assume uma forma bastante idade média, com projecções aleatórias sobre o campanário, o que traz à minha mente lembranças de tempos nunca vividos. Devem ser remanências de algum filme épico que vi recentemente mas, ligo os pontos e construo um desenho bastante nítido. A cada pessoa que passa na rua, a projecção escurece e volta como num dia ventoso de nuvens claras. E a cena acontece toda na minha imaginação enquanto o insecto no topo do campanário continua a cortar o ar com as suas antenas em posições acrobáticas. Segundo o meu relógio, toda esta cena medieval dura quinze minutos apesar do relógio do campanário ter percorrido vários pontos cardeais. O insecto do campanário desapareceu no buraco da parede, largo pelo tempo, que acolhe o respectivo suporte. 17:28h. Passaram três mil duzentos e quarenta tic tic tacs!
A porta abre-se! Um cliente! A luz amarela da janela já ilumina a segunda fila de livros na estante mais próxima da rua. Diz-me boa tarde. Respondo-lhe quando já está de costas e vagueia por entre as estantes dispostas paralelamente entre si e perpendicularmente à porta. Não é o homem do telefonema. Espero que não se demore. O homem do telefonema viria ter comigo e pedir o livro que reservou. Entrar numa loja, onde temos um artigo reservado, desperta um senso de responsabilidade que nos impele a falar com a pessoa que atende. Por outro lado poderia apenas ser uma brincadeira. Imagino um homem perturbado que reserva livros em todas as livrarias de Lisboa para gozar com as suas atendentes e provavelmente até está a escrever um livro sobre os telefonemas e no livro dele eu estou aqui ansiosa a passar a tarde em sobressalto cheia de nada para fazer e a ver os minutos em dois relógios ficarem dessincronizados apenas para os corrigir novamente e não poder ir ao café tomar um sumo de laranja porque o homem do telefonema pode aparecer da direcção contrária e eu não o vejo bater com a cara na porta e ele vai embora e eu fico sem saber se ele veio ou não depois de quase três horas de espera.
Será este que entrou e anda a passear e a deixar livros propositadamente desalinhados dos restantes, uns para fora outros para dentro. Os que ficam para dentro são mais difíceis de realinhar pois temos de segurar os que estão ao lado quando os puxamos para fora para que esses não saiam também mais do que os restantes e cruzem a linha que diferencia o meu descanso do meu sobressalto. Os que estão para fora da linha são mais fáceis. Basta uma pancada com o impulso certo e voltam para dentro no alinhamento correcto. Se a pancada não for suficiente volto a dar outra, mais pequena, e geralmente, à segunda tentativa, não falho. Tenho vindo a aperfeiçoar esta técnica ao longo dos anos, o que me permite ser mais eficiente nas arrumações. Ao início falhava muito e os que entravam mais do que deviam ficavam na categoria dos difíceis, aquela em que precisava segurar os do lado para que ao puxá-lo para fora não fizesse os vizinhos cruzar a linha. Existe toda uma técnica associada à arrumação de livros que necessita de treino e paciência para ser desenvolvida e este cliente, que não me parece o homem do telefonema, está a testar a minha paciência e já são 17:51h. Nunca poderia ter uma relação com um homem que não deixa os livros alinhados! Em pouco tempo estrangulava-o. Deve ser por isso que a relação mais duradoura que tive foi com o meu carro... Já dura há 10 anos! 17:52h.
Veio falar comigo para perguntar-me por um livro que não encontra nas prateleiras. Como é isso possível se estão todos por ordem alfabética divididos por autor? O insecto do campanário voltou. Vejo-lhe as antenas por cima do ombro do cliente que, estático, me olha fixamente em busca de uma resposta. Também o insecto do campanário está estático. Ambos parecem esperar algo.
O cliente perde a paciência mais depressa que o insecto do campanário e sai a resmungar. Uma das antenas treme um pouco mais que a outra. Dir-se-ia um tique nervoso. Agora, entra e sai do buraco continuamente. É preto e tem um invólucro reluzente. De tempo a tempo desaparece dentro do buraco na parede. Quando cá fora não fazia nada de especial e tenho quase a certeza que também não fazia nada lá dentro. Sinto-me um pouco como aquele insecto do campanário sem nada para fazer enquanto espero o homem do telefonema que disse que vinha logo depois do almoço na abertura da loja levantar a encomenda do livro do Peixoto e ainda não apareceu. E já só falta uma hora para fechar a loja! Encho-me de coragem e decido ligar ao homem do telefonema. Levanto o auscultador e marco o número que ele deixou comigo quando fez a encomenda do livro do Peixoto. Em resposta, ouço vários sinais de toque, sobrepostos a uma música ligeiramente pop, ligeiramente rock, e começo a preocupar-me com o tempo que estou a ocupar o telefone quando o atendedor automático responde à minha chamada e me pede, com uma voz masculina, de tom grave, que deixe uma mensagem que mais tarde será retornada. A música e a mensagem definem o homem do telefonema perto dos quarenta mas ainda não chegado lá, um pouco solitário, um tanto desiludido com a vida mas que procura refazer-se aos poucos. Não deixo mensagem porque não quero que a minha ansiedade seja detectada. Podia ter inventado uma história qualquer sobre um cliente que estaria ali a querer comprar o livro do Peixoto mas, nesta ansiedade, só me lembro das possíveis mil histórias que poderia ter relatado ao gravador depois de desligar a chamada. O insecto do campanário não está agora visível.
Tenho fome. Preciso ir ao anexo buscar as bolachas que comprei e não sei como deixar a loja vazia. Não posso fechar a porta e possivelmente perder a visita do homem do telefonema.
Subitamente o telefone toca e desta vez nem o deixo terminar o primeiro toque. Atendo, realmente esperançada, mas não passa de um engano. Desligo rapidamente sem responder mas apercebo-me da utilidade daquele telefonema que me deu uma ideia. Pego no pequeno sino que tenho na secretária e dou por mim a imaginar dezenas de maneiras de o colocar no topo da porta de entrada de modo a que me avise do mínimo movimento perpetrado por alguém que decida entrar. Consigo ver agora as antenas do insecto do campanário com a pontinha de fora do buraco na parede. Resisto à tentação de aproximar-me. Poderia ter um instinto do qual iria arrepender-me imediatamente.
Com o sino na mão, olho para as possibilidades existentes de chegar à ombreira da porta e não vejo melhor solução do que usar a minha velha amiga rangedora que ainda apresenta o post-it na racha. Às 18:30 horas em ponto empurro a cadeira com algum esforço, contorno a mesa que me serve de secretária, posiciono-a junto da porta e, devagar, coloco o salto direito no assento testando a sua solidez de modo a impulsionar-me com o outro salto para cima dela. Parece-me estável. Apoio-me nas costas de madeira e, com um impulso, salto para cima do assento posicionando os dois saltos, um pouco afastados, de modo a equilibrar-me o melhor possível. Ouço uns nhec nhecs mas não me movo e os sons param. Estico-me, com o sino na mão, e vou pensando no melhor local para o deixar quando ouço um sonoro partir de madeira e sinto o assento desaparecer debaixo de mim ao mesmo tempo que penso em cinco ou seis maneiras de cair o mais suavemente possível!

(...)

Sou totalmente contra a morte mas Deus parece ser pró-morte. Ainda não consegui desvendar como Ele e eu poderemos, algum dia, chegar a acordo neste tema. Continuo assim a brincar com a morte sabendo que, um dia, com o encobrimento d'Ele, a sacana levará a melhor. Mas, até lá, vou gozando com ela... Somos tudo o que somos até ao dia que deixamos de ser.


(continua...)

15 junho, 2012

Encontros Anónimos (3ª parte)

Só leio autores mortos! Apenas hoje, tomei consciência deste estranho facto e, no entanto, sorrio perante a constatação dos autores mortos. Estão todos mortos. Na realidade, há um que está legalmente vivo mas, para mim, já morreu, ontem à noite, quando me despedi dele.

Agora não passam de palavras sem defesa, vulneráveis, mas, ao mesmo tempo, tão seguras pela intrínseca aceitação de cada um.
É, no entanto, um pouco perturbador que os meus gostos convirjam numa lista de óbitos, cuidadosamente seleccionada e uniformemente ilustre, tendo até, alguns deles, ganho o prémio Nobel da literatura. Valha-nos isso.
Onde estará aquele cliente que reservou o "Nenhum Olhar", do Peixoto, via telefone. Disse-me que viria depois do almoço, na abertura da loja, mas ainda não apareceu. É o último exemplar disponível e ele não aparece.
O único que destoa um pouco na lista, tornando-a até menos ilustre, é o homem que me desprezou. Porque está ele no meio dos meus livros?
Considerando os prémios que o Peixoto já ganhou, não seria difícil vender este mas, o homem do telefonema, pediu que o reservasse, tão educadamente, vou mantê-lo aqui na minha secretária.
Sento-me e o meu corpo assume uma forma rígida e levemente curvada, obedecendo às formas impostas pela única cadeira que tenho na loja. Tem braços, o que já não é mau. Servem para apoiar os cotovelos enquanto dou uma leitura casual por um dos meus óbitos favoritos. Esta lista é divinal e nunca a palavra me soou tão perfeita neste contexto. Quando me reclino, ouço um ranger ligeiro que acusa a idade desta antiguidade que me deixaram aqui para evitar as varizes e, apesar de ligeiro, deixa-me bastante nervosa. Interfere na minha leitura.
São 15:06h e o homem do telefonema não aparece. Disse que vinha à hora da abertura. Continuo a ler mais um pouco mas torna-se difícil neste estado. Ansiedade e leitura não combinam. Levanto-me, mais um ranger de madeira, e dou uma volta pelas prateleiras. Reparo num livro mais saído que os outros. Corrijo a situação rapidamente.
Podia ir tomar um sumo de laranja mas, se ele aparecer enquanto estou no café, vindo do outro lado da rua, não o vejo e ele vai ver a loja fechada. Não vejo solução e não vou. Não consigo evitar olhar para o relógio novamente, 15:23h. Penso em ligar-lhe mas vai parecer que estou a forçar a venda do livro do Peixoto e o Peixoto não precisa que forcem nada. E o pior é que, quando estivesse a ligar-lhe, ele poderia ligar-me para dizer-me que chegaria mais tarde e ouviria o sinal de impedido e eu ficaria sem saber que viria mais tarde. Em simultâneo, eu também ouviria o sinal de impedido e não conseguiria falar com ele.
Volto a sentar-me, mais um ranger perfeitamente ensurdecedor, e bato a ponta dos dedos, sequencialmente, na secretária por uns instantes. Depois faço o mesmo no livro do meu desprezante, aproveitando que a foto da contra-capa está virada para cima. O som é mais abafado mas sinto uma ligeira satisfação em bater-lhe na cara triste, mas risonha, que olha fixamente para mim. Sacana. Tinhas tudo para ser feliz e não quiseste.
Subitamente o som do telefone! Antes que pudesse tocar a segunda vez, atendo para perceber que não é o homem do telefonema. Fico desiludida por ser, apenas, a minha melhor amiga Sofia que quer saber de mim e se estou bem. Digo-lhe que sim e despacho-a num instante. E se o homem do telefonema liga? Vai ouvir o sinal de impedido e provavelmente não ligará novamente. Nunca vou saber se ele queria dizer-me que já não vem ou que já comprou o livro em outra livraria ou que vai chegar um pouco mais tarde. Preciso desligar Sofia, desculpa! E num som de plástico contra plástico, misturado com campainhas de cobre, termino o telefonema com a minha amiga seguido de um ranger de madeira velha que já merecia uma lareira bem ateada. Devagar, recosto-me novamente mas, desta vez, conto o número de rangeres que a cadeira emite persistentemente. Consigo distinguir seis estalidos, o que denota uma racha já antiga. Quando os estalidos são apenas três ou quatro a estrutura ainda está medianamente envelhecida mas, depois dos cinco, é realmente preocupante continuar a sentar-me nesta velharia rachada. O tipo continua a sorrir para mim em cima da secretária. Viro o livro ao contrário apenas para perceber que a capa não é melhor. Onde está o homem do telefonema? São 15:41h.
Vou ranger a cadeira apenas em três estalidos. É como um jogo de paciência em que tenho de parar de exercer o meu peso no momento do terceiro estalido para me sentir vitoriosa sobre um pedaço de madeira inerte que não é melhor que eu. Recosto-me, Tlec, Tlec, Tlec... Tlec! Merda! Já tento daqui a pouco quando ele aparecer. Assim que vender o livro fico mais tranquila e hei-de conseguir. E se colocar um pedaço de papel dobrado na racha? Poderia evitar o quarto estalido. Pego num post-it amarelo e dobro-o, e volto a dobrar, e depois debruço-me de cócoras à procura da infame racha. São três pés curvos, unidos num eixo vertical, que suporta o centro do assento. Não consigo ver a racha e faço força num dos braços para que o som denuncie a falha estrutural que procuro. Joelhos assentes no chão, mão esquerda levantada e ouvidos atentos ao mínimo ruído. Os olhos não são necessários quando a escuridão do nível mais raso que existe está a dois centímetros da minha cara e só vejo sombras. Tenho de usar os dedos assim que o tlec tlec soar para apalpar a madeira e descobrir a maldita racha. Tlec! Apresso-me a passar os dedos pelo eixo vertical e sinto uma reentrância que pode muito bem ser a sacana da racha que provoca e provoca e provoca impunemente. Deixo o dedo a marcar o alvo, pego no post-it dobrado em quatro com a outra mão mas... Não acredito! Está grosso demais para caber na racha. Onde estará aquele homem do telefonema que não aparece. Já são 15:58h.
Preciso de outro post-it. Este não cabe na racha. Levanto-me apenas para sentir a dor nos joelhos provocada pela inusitada situação. Já antes estive nesta posição, e adorei, mas tinha um colchão ortopédico debaixo de mim e ele segurava-me firmemente pela cintura não me deixando escapar às investidas fortes e certeiras. Que saudades. Dobro o post-it em dois. Apesar de não conseguir medir a espessura de um post-it dobrado em dois sei que é, de certeza, metade do post-it dobrado em quatro e o outro parecia ter o dobro da espessura necessária para caber na malvada racha. Perfeito! Entrou como se tivesse sido feito por medida. Volto a sentar-me lentamente com aquele medo da dúvida na missão bem cumprida, ou não. Tlec, tlec... Tlec... Tlec! Porra! Já passa uma hora e meia da hora que o homem do telefonema disse que vinha e nada!
Já estou stressada! Um dia tenho de controlar esta ansiedade. Será que os homens desistem porque sou demasiado ansiosa?
16:34h. De-za-sseis-ho-ras-e-trin-ta-e-qua-tro-mi-nu-tos. Daqui a pouco são sete da tarde!
Preciso ir à casa-de-banho. Porque tinham de fazer a casa-de-banho na mezzanine, num canto tão longe da porta. Se o homem do telefonema chegar não o vejo, talvez o ouça mas não vejo. Vou aguentar um pouco, pode ser que ele chegue entretanto. Sento-me na cadeira e começo a pensar nos óbitos da minha lista ilustre e relaciono-os com a minha vontade de fazer xixi, a somar com a racha que continua a provocar-me... Não se deve conter a vontade da natureza. Pode fazer mal. E começo a imaginar bexigas que explodem e inundam o interior do corpo com líquido tóxico que se espalha pela corrente sanguínea e provocam a morte em minutos. E nem fiz nada, ainda, na minha vida para entrar numa ilustre lista de óbitos a não ser enfiar um post-it, dobrado em dois, numa racha perversa que me mói o juízo constantemente. Pego num post-it e escrevo "Por favor, espere um momento. Estou no WC" e colo-o na porta da loja, mesmo antes de olhar para o relógio (16:59h), subir as escadas que, noto agora, fazem um ranger bastante vigoroso a cada passada enquanto subo a correr para ir à casa-de-banho. Nhec, nhec, nhec, tlec, nhec, tlec, rachas e mais rachas à minha volta!
Deixo a porta aberta para ouvir melhor se alguém entrar na loja. Quando começo a aliviar-me, contraio um pouco os músculos para que o barulho seja menor e não se sobreponha ao mínimo som proveniente do andar de baixo. Malvadas rachas, não me saem da cabeça.
Um barulho na porta. Grande merda... Será o homem do telefonema? Liberto os músculos e apresso-me a terminar o meu serviço fisiológico, nem me importando com a percepção de que alguém poderia estar no andar de baixo a ouvir-me a fazer xixi na casa-de-banho. Desço as escadas a correr, nhec, nhec, nhec, tlec, nhec, tlec. Rachas com fartura mas, mais ninguém. Que estranho. Ouvi um barulho na entrada. Dirijo-me à porta para retirar o post-it para me aperceber que continha mais duas palavras e um ponto de exclamação, escritas à frente da minha mensagem com uma caneta de feltro, bem diferente da Bic que eu usei, para escrever a mensagem inicial. "Por favor, espere um momento. Estou no WC a cagar!". O humor satírico dos portugueses nunca deixa de me surpreender e, apesar de nem terem acertado, apesar de já passar das dezassete horas e do homem do telefonema não ter vindo ainda, esboço um sorriso enquanto amarroto o post-it e o deito no lixo.


(continua...)

07 junho, 2012

Encontros Anónimos (2ª parte)

Acordo a meio da noite, não em sobressalto mas calma, cheia de vontade de fumar um cigarro. O corpo não me pedia descanso e acedi ao desejo. Lembrei-me de algumas cenas da minha vida e retrocedi na memória como se tivesse uma máquina do tempo.
Acendi o cigarro e aspirei o fumo calmamente sentindo a nicotina a percorrer o meu corpo e a chegar ao cérebro. Depois de algumas horas sem fumar é o que sentimos. É uma sensação de calma a apoderar-se de nós e o sangue aquece nas veias. Acende-me um calor interno que me faz despir a camisa de noite.
Olho para o meu corpo nu e, no meio da escuridão, vejo umas faixas de luz que me contornam com um abraço divinal. Na rua, aquele candeeiro ama-me mais do que o homem que me desprezou. O brilho amarelo entra pelas cortinas, sem pedir permissão, e acaricia-me. Não quero que pare.
Passo as mãos pelo peito, descendo e dispersando o calor do tacto. Sinto-me sensual.

Lembro-me do meu primeiro namorado. Foi carinhoso. Namorámos algum tempo e, uma noite, visitou-me na casa onde eu morava. Estava mais nervoso do que eu. Já tinha decidido que seria naquela noite que iria entregar-me a ele. Fizemos amor.
Foi tudo muito novo mas intenso. No final chorei mas não daquelas lágrimas que cansam os demónios. Foram lágrimas de alegria por ter tido uma primeira vez tão carinhosa, com um homem que soube tratar-me como eu sempre desejei.
Desci mais um pouco. Toquei levemente o suave interior das coxas e senti um arrepio. Apertei-as, deixando as mãos no seu interior. O meu corpo acedeu e descobri um prazer novo... O meu toque.
Foi o despertar para um novo lugar na minha vida. O meu lugar. A minha intimidade que só a mim pertencia. Ali estava eu, comigo própria a desejar-me.

O cigarro, no cinzeiro, já tinha ardido até metade e eu continuava. Sentia-me viva. Tenho um corpo lindo e sensual. Adorei-me naquele momento.
Inclinei-me para trás, no sofá, e os braços acompanharam o movimento. Senti-me molhada...
Lentamente abri as pernas e continuei a tocar-me. Não pensei em nenhum homem em particular. Para dizer a verdade, não pensei em nenhum homem. Apenas em mim. Fui egoísta e adorei-me.  Por fim o meu corpo estremeceu no meio de um suspiro... Respirei fundo e, por alguns segundos, revivi cada detalhe da onda de prazer que percorreu o meu corpo, prolongando-a o mais possível até que se desvaneceu por completo.
Nunca tinha sentido este prazer em estar comigo própria e, afinal, só fiz sexo com alguém que amo!
O cigarro apagou-se deixando um rasto de cinza. Acendi outro.

Passou um carro na rua. Não lhe ouvi o som mas as luzes varreram a sala dando-me uma visão câmara lenta do que me rodeia. Embora tenha durado um segundo, na minha consciência durou uma eternidade. A cada pequeno espaço iluminado, vi uma relação com a minha vida. Depois voltou o escuro trespassado pelo brilho amarelo e ténue do candeeiro lá fora. Mais um abraço quente.
Aquela visão varrida trouxe-me muitas memórias mas havia sempre uma que se sobrepunha. Chorei em silêncio. Senti uma pequena lágrima a acariciar-me a cara enquanto descia ao encontro dos meus lábios húmidos pela última passagem da língua. Tinha um sabor salgado que se espalhou pela minha boca enquanto respirava fundo. Misturei-o com o sabor agridoce do cigarro.

Apetece-me ligar-lhe e pego no telemóvel. Vasculho rapidamente a lista de contactos até que reencontro um sorriso familiar. Pergunto-me porque será que as pessoas guardam sempre imagens de caras sorridentes. Será o desejo do subconsciente em fazer os outros felizes? Não gosto de expressões falsas. Aquele sorriso já teve outro significado. Agora não passa de uma boca esticada que mostra os dentes. A minha lista de contactos é composta de cabeças e corpos. Alguns, poucos, significam pessoas. Outros não.
Selecciono este sorriso e vejo os detalhes. O número destaca-se do amontoado de informação. Coleccionamos informação de todos os tipos sobre os corpos que, em algum momento da nossa vida, representaram uma pessoa. Quanto mais informação, mais essa pessoa nos pertence. Até ao dia que deixa de pertencer. No entanto deixamos o corpo na lista. Com o passar do tempo passa a ser mentira e nem o sabemos porque já não usamos a informação para nada. Apesar disso, fica lá, eternamente, porque satisfaz o nosso desejo de posse. E a lista vai crescendo...

Queria partilhar este momento único e está apenas à distância de uma leve pressão sobre um pedaço de vidro. Mas não pressiono. Falta-me a coragem.
Olho para o relógio. Cinco horas. Apago o cigarro.
Inclino a cabeça para trás, num último expirar, ao encontro do sofá e fico a olhar o tecto até que os meus olhos cerram e adormeço.
Dormir é uma coisa maravilhosa. Permite-nos sonhar. Liberta-nos a consciência das leis da física e da moralidade.
Faço-lhe uma visita no quarto enquanto dorme. Roupa espalhada pelo chão, como sempre esteve, sem que alguma vez me importasse. Na verdade, a maioria das vezes não tínhamos tempo de a arrumar.
Deito-me ao seu lado e ele abraça-me. Olho-o por uns momentos e penso como seria bom nunca mais acordar. Coloca a perna por cima das minhas e aconchega-me a cabeça contra o peito. Sinto-me leve, despreocupada e a sua pele tem o toque da seda.

Existem lugares onde não queremos estar mas de onde não queremos sair.

Finalmente o Sol irrompe pela janela e as cortinas deixam de ter importância, tal como o sonho, quando acordo, nua, no sofá. Foi a despedida, sinto-o.
Passei uma noite maravilhosa, que durou uma eternidade, e renasci para viver outro dia. Não me arrependo.
Quando sonhamos, o tempo não corre em paralelo com a realidade. Cinco minutos de sonho podem fazer-nos viver várias horas, vários dias. É como ler um livro. A história demora dez horas a ler mas pode relatar uma vida inteira de acontecimentos. Ler é sonhar acordada.
Finalmente, apercebo-me que o problema não está em pensar que nunca mais vou encontrar alguém que preencha aquele lugar mas, sim, em permitir que alguém ouse preenchê-lo.
Levanto-me do sofá e dirijo-me ao quarto mas, ao sair da sala, agarro-me à porta e olho para o espaço vazio, onde ele não dormiu, e digo-lhe...
Adoro a expressividade do teu silêncio!


(continua...)

04 junho, 2012

Encontros Anónimos (1ª parte)

Adoro fazer uma pessoa chorar! Adoro o significado daquele acto libertador. Quando uma pessoa chora genuinamente, o seu castelo está completamente desprotegido, de porta aberta para quem ali passar.
Quando oferecemos um carinho, por mais pequeno que seja, a uma pessoa que chora, esse acto jamais será esquecido. Esse pequeno gesto assume um valor de proporções épicas que dificilmente não será traduzido numa troca.
Adoro fazer uma pessoa chorar... Não há nada de mal em chorar. Chorar cansa-nos os demónios da dor.

Nos últimos tempos já não choro. Não me sinto cansada e no entanto não tenho sono. Quando temos insónias o mundo parece estranho. Tudo fica mais lento. As pessoas afastam-se e ficam mais pequenas. Deixamos o nosso corpo e observamos tudo, incluindo nós próprios. Consigo ver-me de um modo que nunca vi antes e reparo em pequenos detalhes que nem sabia que existiam.
Depois vêm os pesadelos. Ficamos num estado de hipnose sonolenta que está naquela fronteira entre o dormir e o estar acordado. No entanto sonhamos, e não é nada bonito. Acordamos aos gritos!
Quando isso me acontece, vou para a sala e fumo um cigarro no escuro da noite. Aprecio o silêncio absoluto que me rodeia e vejo o fumo subir na vertical. Não há uma única corrente de ar.
Consigo ouvir as pequenas folhas de tabaco que ardem com mais vigor a cada aspiração... Amanhã é outro dia.

Olhei os anúncios no painel à entrada do centro comunitário de Lisboa vasculhando, na diagonal, os papéis pendurados aleatoriamente, à procura de uma mancha familiar que me deixasse tranquila.
Finalmente, algo descansa a minha mente. "Reunião dos Neuróticos Anónimos". Observei melhor o anúncio e procurei, na minha desmembrada agenda de 2006, uma compatibilidade com o único dia que permanecia um buraco na minha vida. "Todas as sextas às 21:00 horas". Perfeito!

Passei por muito na vida. Momentos de felicidade, como toda a gente, mas também muitos momentos de infelicidade. Não era uma mulher normal, ou pensava que não era. A minha mente era frágil e emotiva.
Recentemente tinha sido levada a acreditar que era amada e amei muito. Amei demais. No dia do choque perdi os sentidos e senti um vazio tão grande que me fez permanecer inanimada na frente do computador algumas horas até que uma amiga decidiu que aquilo era demais e veio dar-me o ombro. Na realidade deu-me um ombro, depois o outro, os braços e, quando me deu o peito, já pouco tinha para dar que conseguisse amparar tanta dor.

Passado algum tempo, já conseguia sorrir. Tinha um sorriso doce mas notava-se a mágoa recente que se tinha apoderado de mim e que me fez procurar, por todos os meios, não estar sozinha.
Às segundas frequentava os narcóticos anónimos e, nas terças, inventava histórias de sucesso para os alcoólicos, antes de passar pelo Bairro Alto e beber um alentejano de Reguengos com a minha amiga de longa data que me deu todas as partes do corpo mas que, nas últimas semanas, já as tinha recuperado.
Durante esses encontros partilhava as histórias que inventava nos grupos de apoio e também as que ouvia. Sofia espantava-se com o estado em que a sociedade se encontra.

Caroço (nome de guerra que usou anos a fio quando vagueava pelas ruas do Casal Ventoso), um frequentador antigo dos narcóticos anónimos, tinha problemas hormonais. As doses cavalares de heroína, ingeridas desde a sua juventude, alteraram-lhe o desenvolvimento do corpo e os seus peitos apresentavam uma voluptuosidade extra que, se era bastante fora do comum numa mulher, era de muito mau gosto num homem de mais ou menos trinta anos mas que aparentava quarenta e muitos.

Em contraste, Aníbal era um engatatão nato convertido ao álcool. A vida correu-lhe mal quando a mulher arranjou melhor, o que não foi difícil, e o abandonou na sua triste vida levando com ela os dois filhos e o dinheiro da conta bancária. Quando caiu na realidade, dedicou-se a engatar mulheres de meia, e também completa, idade que lhe pagavam jantares e copos em troca de alguns favores mais íntimos, o que lhe permitia, por acréscimo, umas noites mal passadas em colchões dignos do nome.

Passando para o sexo oposto, e de muito sexo se tratava, havia ainda Olga, uma ninfomaníaca de trinta e poucos que frequentava o grupo das quartas. Olga descobriu que era uma predadora sexual quando o homem que levou para casa naquela noite não aguentou a conjugação de Viagra com o extremo exercício físico a que foi submetido e teve um ataque cardíaco enquanto a agarrava pela cintura, caindo nas suas costas mais duro que o membro incapaz de saciar a pobre mulher em necessidade.
Durante algumas semanas, nas reuniões, mostrou, com orgulho, as marcas que restaram da fatídica noite. Eram perfeitamente visíveis os dedos na cintura e os dentes nas costas, devido à queda da cabeça inanimada daquele desgraçado. Quando começaram a desaparecer, tatuou-as, qual caçador que regista o momento glorioso da vitória sobre a presa.

As histórias eram muitas e Sofia achava-as divertidas. Vera permanecia mais séria, chegando a sentir a dor dos personagens que preenchiam as noites das duas amigas.
Às quintas, assumindo um perfil de psicóloga, assistia incrédula aos discursos dos veteranos de guerra que, por sorte ou astúcia, não tinham o nome inscrito no Monumento aos Combatentes do Ultramar.
Um deles, o Vassoura, como o chamavam naqueles tempos, tinha uma função muito peculiar. Sempre que havia uma deslocação de tropas, seguia uns trezentos metros à frente, sozinho, matando tudo o que se mexesse na passagem que seria usada pelo batalhão. Um dia foi alvejado. A bala acertou-lhe de raspão na cabeça, levando-lhe um bom pedaço do osso craniano que mais tarde foi substituído por uma prótese em platina.
Há uns anos atrás, o veterano divertia-se com velhos amigos batendo objectos de metal contra a testa. As batidas produziam uns sons bastante engraçados. Foi neste preciso momento que ele teve uma epifania. Fundar um grupo musical. Esta experiência resultou no Grupo Ferrinhos Unidos de À-Dos-Paus, terra natal do Vassoura. O conjunto tinha bastante sucesso, sendo a atracção principal a música "Testa de Ferro", em que o Vassoura acompanhava os restantes membros do grupo batendo freneticamente na testa com um dos ferrinhos.

No dia seguinte será o meu primeiro encontro com os neuróticos anónimos e preciso estar completamente desequilibrada. Não será difícil... Afinal quão neurótica precisa uma pessoa ser para frequentar todos os grupos anónimos de Lisboa, e arredores, só para não estar sozinha?
Sou uma turista. É isso que sou. Assumo o meu papel na cultura dos locais que frequento. Visito as mentes dos nativos e guardo fotografias mentais do que vejo. Sinto que não mais voltarei ao local visitado mas esse local acompanha-me interiormente. Os lugares que visito são os meus lugares.
Contudo uma coisa mudou na minha vida. Passei a dormir.
Os bebés não dormem assim!


(continua...)

Imaginário


Hoje estou sem grandes ideias para escrever, assim, decidi vir tomar um café e... Escrever!
Os mesmos vultos de sempre à minha volta. O jogador, o usurpador, alguns dissimulados, dois lutadores, vários calados, um falador e montes de outros que passam no lado contrário do vidro.
Posso entrar no detalhe de cada um deles e traçar-lhes um perfil. Poder posso, mas não o farei.
Existem milhares de motivos para uma pessoa viver um determinado perfil. Eu próprio já vivi demasiados perfis e já tentei milhares de vezes voltar a ser eu. Não julgarei.

Está um pouco frio mas tenho as mãos quentes. Deve ser de teclar desenfreadamente. Por vezes, penso que assumi este perfil de escritor para fugir da realidade. É mais fácil escrever sobre ela do que vivê-la. Sinto-me um observador que tudo vê. Uma espécie de senhor do imaginário alheio. É isso. Um narrador.


O jogador saiu... Fechou o portátil, enfiou-o na mala e saiu. Será que ganhou o jogo? Usava calções, meias brancas e ténis. Ele só saiu porque eu assim o escrevi. Eu comando a vida dele no teu imaginário porque, se agora eu escrever que ele usava meias pretas, tu vais ficar na dúvida. Seriam pretas ou brancas? Mas desconfias de mim. Deixo de ter o perfil do controlo. Desconfiança por quem está a escrever a história é o pior medo de quem narra. Perde a credibilidade. É despromovido a um mero personagem.


Posso usar muitos subterfúgios e referir, até, que o jogador nunca aqui esteve. Foi tudo produto da minha imaginação emocionalmente instável e debilitada. Eu apenas quis vê-lo aqui sentado na minha frente e, na realidade, ele nem usava meias, estava descalço. Provavelmente não resultará. São precisos anos de construção para estabelecer uma relação de confiança mas basta um pequeno e insignificante erro para destruí-la.


O usurpador, por outro lado, está cá. Sinto-lhe a presença como se de um parasita se tratasse. Sinto-o a sugar os bits que passam pela rede sem fios e penso, até, se não estará a ler o que eu escrevo. Tenho medo deste! Não falarei mais sobre ele.


Entraram mais dois que conversam alegremente desconhecendo, por completo, que são agora personagens de uma história. Tenho o poder da criação. Criar personagens.
Não querem? Paciência. Quem manda aqui sou eu e, agora, são mais dois personagens. Dá-me jeito aumentar mais um ou dois parágrafos e a história até fica mais composta.

Estes dois conversadores nem dão pela minha presença. Espera... Um deles olhou-me. Desviei o olhar. Grande merda... Será que ele percebeu?
De repente entra um tipo completamente descontrolado pela porta, olha à sua volta, agarra no pescoço do conversador e aponta-lhe uma faca ao pescoço. O agressor está desvairado, encosta-se a um pilar no meio da sala com o seu refém pela frente e olha à sua volta em pânico. Sinto-lhe a respiração ofegante mesmo ao meu lado.
De repente vê uma porta do outro lado da sala e, levando o seu refém, escapa-se sem mais interferências. Passam dois polícias a correr pela primeira porta.
Pronto, livrei-me deste. Espero que nada lhe aconteça.

O café está a encher-se de gente. Demasiadas personagens para controlar. Acho que nem consigo escrever tão depressa quanto o incremento do número de seres que entram. Posso no entanto livrar-me de uns quantos mais.
O narrador controla a vida e a morte sem medo do julgamento bárbaro das mentes humanas.
Mas como livrar-me de pessoas que estão realmente aqui? Não preciso. Só preciso de livrar-me delas no teu imaginário. A tua realidade é aquela que eu quiser.

Na verdade eu preciso de todos os personagens. Todos são importantes para a minha história e a minha história é importante para mim. É a minha vida.
Podemos tentar anular capítulos mas eles escrevem-se por si.

A fila para pagar aumenta. Os dois lutadores não conseguem agir tão depressa quanto esperado por tantos personagens. Exactamente como eu não consigo escrever tão rápido quanto deveria para acompanhar o teu desejo de imaginário.
O falador desapareceu! Que raio... Um personagem com vontade própria? Como deixei este escapar sem ser eu a traçar-lhe o destino?
Ah! Está a voltar da casa de banho. Pensavas que escapavas assim sem dar cavaco? Vá, vai lá pagar e pira-te. Não preciso mais de ti hoje.

Fiz bem em mandar este embora. Deve ter um compromisso, do qual se esqueceu até ao último minuto, mas deixou a sua sensual companhia na mesa. Olho-a nos olhos. Gosto deste personagem. Ela também me olha nos olhos. Este é o chamado momento cinema, aquele em que os olhares se cruzam e chegamos a um ponto de não retorno. Ou é para a vida ou é para este segundo apenas.
Foi apenas para este segundo.
Que estou eu a fazer? A cruzar olhares com personagens? Absurdo. A minha posição é outra... É solitária. Não me misturo com personagens.

Esqueci-me da gordinha dos óculos. Coitada. Já deve ter dores musculares de tão parada, sem acção. Olhava-me desesperadamente como se me pedisse uma linha de argumento para executar. Deixo-a descruzar as pernas e mudar de posição. O acompanhante aproveita para olhar-lhe o peito. Eu faria o mesmo, se fosse um personagem, mas não gostei da maneira como ele olhou. Eu tê-lo-ia feito de outro modo.


O som ambiente não me agrada. Não passam boa música aqui. Preciso mudar isso. Preciso mudar muita coisa. Aqui, na minha vida, em mim.
Preciso estabelecer um contacto real com os personagens e esquecer a posição solitária de quem está no controlo. Preciso abandonar a narração e encarnar a acção!
Preciso parar com as vontades e desejos que são acedidos por todos. Preciso...

De repente, ao meu lado, um dos lutadores...


- Deseja mais alguma coisa?



24 maio, 2012

Nunca Esquecemos

Às vezes vou a andar pela rua e dou comigo a olhar para o rosto das outras pessoas. Penso, em tempo real, no que passará pelas mentes de tais seres. Umas alegres, outras tristes, outras inexistentes... Meras sombras que se arrastam pela calçada...

É uma das maneiras de esquecer as coisas más que nos acontecem. Gosto de fingir que nada de terrível aconteceu na minha vida. É natural querer esquecer. Um acto de auto-protecção que faz parte do comportamento inato dos humanos mas, na realidade, nunca esquecemos.

Por vezes pergunto-me que segredos escondem naquele impenetrável espaço que é a sua mente? Algo bom? Sombrio? Obscuro?
Será que já passei por algum assassino? Qual será a sensação de sabermos que já matámos alguém? Será que os outros desconfiam? Conseguem vê-lo nos nossos olhos?

O que diferencia um assassino em série dos demais? O que têm eles, ou não têm, que faz a diferença?
Quando sonhamos não existem regras. Podemos voar e tudo é-nos permitido. Por vezes há um breve momento, quando acordamos, em que tomamos consciência do mundo real à nossa volta mas continuamos a sonhar. Até podemos pensar que conseguimos voar mas é melhor não tentarmos...
Os assassinos em série passam a totalidade da sua vida nesse lugar, algures entre o sonho e a realidade.

No início, quando conhecemos pessoas, só pensamos nas diferenças que nos separam mas,  com o passar do tempo, começamos a ver as semelhanças. Deve ser como começam as amizades... Deve ser como começa o amor...

...Mas nunca esquecemos.