Deixo a porta entreaberta e volto ao meu assento rangedor que não perdeu ainda as suas qualidades sonoras mesmo depois do meu exacerbado empenho.
O silêncio é ensurdecedor. A rua é calma e, no interior da loja, não há um único som que se sobreponha ao tic tac do relógio de parede que, foi-me dito, é mais velho que eu e foi oferecido pela avó do proprietário, ainda em vida da primeira aquando da aquisição do espaço pelo segundo.
Aproveito o momento para observar melhor o relógio. Feito em madeira de castanho, tem formato de campanário mais ou menos com cinquenta centímetros de altura por trinta de largura. Ao centro, uma porta de vidro permite ver um painel metálico dourado com numeração romana nas posições dos pontos cardeais. Por baixo um pequeno pêndulo, redondo, também ele dourado, seguro por uma haste metálica, também ela dourada, passeia-se da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda num movimento contínuo e quase infinito emitindo o famoso tic tac que se sobrepõe ao silêncio ensurdecedor que enche este espaço.
Atentando melhor no tic tac, reparo que é, na realidade, um tic tic tac, o que denota o movimento de, pelo menos, três peças dentadas que realizam uma preparação, um movimento e um retorno. A velharia diz-me que são 17:10h o que entra em contradição com as 17:11h do meu relógio. Acredito mais no meu que no outro e apresso-me a corrigir a hora na parede. Dois relógios em contradição é como ter um relacionamento por mais de dois anos, simplesmente não acontece no meu universo.
O homem do telefonema ainda não veio e eu começo a pensar no que poderá andar a fazer para não ter cumprido a promessa. Estará perdido algures aqui perto? Perdoamos sempre a quem nos deixa em ansiedade. Mas ele disse que trabalhava aqui perto. Será que foi atropelado por um autocarro enquanto atravessava a passadeira? Caiu na linha do metro?
Está um insecto no topo do campanário. Vejo-lhe bem as antenas a tactear o ar em busca de alguma coisa pouco clara para mim.
Mesmo ao lado do campanário, uma janela de montra cheia de luz amarela. A iluminação assume uma forma bastante idade média, com projecções aleatórias sobre o campanário, o que traz à minha mente lembranças de tempos nunca vividos. Devem ser remanências de algum filme épico que vi recentemente mas, ligo os pontos e construo um desenho bastante nítido. A cada pessoa que passa na rua, a projecção escurece e volta como num dia ventoso de nuvens claras. E a cena acontece toda na minha imaginação enquanto o insecto no topo do campanário continua a cortar o ar com as suas antenas em posições acrobáticas. Segundo o meu relógio, toda esta cena medieval dura quinze minutos apesar do relógio do campanário ter percorrido vários pontos cardeais. O insecto do campanário desapareceu no buraco da parede, largo pelo tempo, que acolhe o respectivo suporte. 17:28h. Passaram três mil duzentos e quarenta tic tic tacs!
A porta abre-se! Um cliente! A luz amarela da janela já ilumina a segunda fila de livros na estante mais próxima da rua. Diz-me boa tarde. Respondo-lhe quando já está de costas e vagueia por entre as estantes dispostas paralelamente entre si e perpendicularmente à porta. Não é o homem do telefonema. Espero que não se demore. O homem do telefonema viria ter comigo e pedir o livro que reservou. Entrar numa loja, onde temos um artigo reservado, desperta um senso de responsabilidade que nos impele a falar com a pessoa que atende. Por outro lado poderia apenas ser uma brincadeira. Imagino um homem perturbado que reserva livros em todas as livrarias de Lisboa para gozar com as suas atendentes e provavelmente até está a escrever um livro sobre os telefonemas e no livro dele eu estou aqui ansiosa a passar a tarde em sobressalto cheia de nada para fazer e a ver os minutos em dois relógios ficarem dessincronizados apenas para os corrigir novamente e não poder ir ao café tomar um sumo de laranja porque o homem do telefonema pode aparecer da direcção contrária e eu não o vejo bater com a cara na porta e ele vai embora e eu fico sem saber se ele veio ou não depois de quase três horas de espera.
Será este que entrou e anda a passear e a deixar livros propositadamente desalinhados dos restantes, uns para fora outros para dentro. Os que ficam para dentro são mais difíceis de realinhar pois temos de segurar os que estão ao lado quando os puxamos para fora para que esses não saiam também mais do que os restantes e cruzem a linha que diferencia o meu descanso do meu sobressalto. Os que estão para fora da linha são mais fáceis. Basta uma pancada com o impulso certo e voltam para dentro no alinhamento correcto. Se a pancada não for suficiente volto a dar outra, mais pequena, e geralmente, à segunda tentativa, não falho. Tenho vindo a aperfeiçoar esta técnica ao longo dos anos, o que me permite ser mais eficiente nas arrumações. Ao início falhava muito e os que entravam mais do que deviam ficavam na categoria dos difíceis, aquela em que precisava segurar os do lado para que ao puxá-lo para fora não fizesse os vizinhos cruzar a linha. Existe toda uma técnica associada à arrumação de livros que necessita de treino e paciência para ser desenvolvida e este cliente, que não me parece o homem do telefonema, está a testar a minha paciência e já são 17:51h. Nunca poderia ter uma relação com um homem que não deixa os livros alinhados! Em pouco tempo estrangulava-o. Deve ser por isso que a relação mais duradoura que tive foi com o meu carro... Já dura há 10 anos! 17:52h.
Veio falar comigo para perguntar-me por um livro que não encontra nas prateleiras. Como é isso possível se estão todos por ordem alfabética divididos por autor? O insecto do campanário voltou. Vejo-lhe as antenas por cima do ombro do cliente que, estático, me olha fixamente em busca de uma resposta. Também o insecto do campanário está estático. Ambos parecem esperar algo.
O cliente perde a paciência mais depressa que o insecto do campanário e sai a resmungar. Uma das antenas treme um pouco mais que a outra. Dir-se-ia um tique nervoso. Agora, entra e sai do buraco continuamente. É preto e tem um invólucro reluzente. De tempo a tempo desaparece dentro do buraco na parede. Quando cá fora não fazia nada de especial e tenho quase a certeza que também não fazia nada lá dentro. Sinto-me um pouco como aquele insecto do campanário sem nada para fazer enquanto espero o homem do telefonema que disse que vinha logo depois do almoço na abertura da loja levantar a encomenda do livro do Peixoto e ainda não apareceu. E já só falta uma hora para fechar a loja! Encho-me de coragem e decido ligar ao homem do telefonema. Levanto o auscultador e marco o número que ele deixou comigo quando fez a encomenda do livro do Peixoto. Em resposta, ouço vários sinais de toque, sobrepostos a uma música ligeiramente pop, ligeiramente rock, e começo a preocupar-me com o tempo que estou a ocupar o telefone quando o atendedor automático responde à minha chamada e me pede, com uma voz masculina, de tom grave, que deixe uma mensagem que mais tarde será retornada. A música e a mensagem definem o homem do telefonema perto dos quarenta mas ainda não chegado lá, um pouco solitário, um tanto desiludido com a vida mas que procura refazer-se aos poucos. Não deixo mensagem porque não quero que a minha ansiedade seja detectada. Podia ter inventado uma história qualquer sobre um cliente que estaria ali a querer comprar o livro do Peixoto mas, nesta ansiedade, só me lembro das possíveis mil histórias que poderia ter relatado ao gravador depois de desligar a chamada. O insecto do campanário não está agora visível.
Tenho fome. Preciso ir ao anexo buscar as bolachas que comprei e não sei como deixar a loja vazia. Não posso fechar a porta e possivelmente perder a visita do homem do telefonema.
Subitamente o telefone toca e desta vez nem o deixo terminar o primeiro toque. Atendo, realmente esperançada, mas não passa de um engano. Desligo rapidamente sem responder mas apercebo-me da utilidade daquele telefonema que me deu uma ideia. Pego no pequeno sino que tenho na secretária e dou por mim a imaginar dezenas de maneiras de o colocar no topo da porta de entrada de modo a que me avise do mínimo movimento perpetrado por alguém que decida entrar. Consigo ver agora as antenas do insecto do campanário com a pontinha de fora do buraco na parede. Resisto à tentação de aproximar-me. Poderia ter um instinto do qual iria arrepender-me imediatamente.
Com o sino na mão, olho para as possibilidades existentes de chegar à ombreira da porta e não vejo melhor solução do que usar a minha velha amiga rangedora que ainda apresenta o post-it na racha. Às 18:30 horas em ponto empurro a cadeira com algum esforço, contorno a mesa que me serve de secretária, posiciono-a junto da porta e, devagar, coloco o salto direito no assento testando a sua solidez de modo a impulsionar-me com o outro salto para cima dela. Parece-me estável. Apoio-me nas costas de madeira e, com um impulso, salto para cima do assento posicionando os dois saltos, um pouco afastados, de modo a equilibrar-me o melhor possível. Ouço uns nhec nhecs mas não me movo e os sons param. Estico-me, com o sino na mão, e vou pensando no melhor local para o deixar quando ouço um sonoro partir de madeira e sinto o assento desaparecer debaixo de mim ao mesmo tempo que penso em cinco ou seis maneiras de cair o mais suavemente possível!
(...)
Sou totalmente contra a morte mas Deus parece ser pró-morte. Ainda não consegui desvendar como Ele e eu poderemos, algum dia, chegar a acordo neste tema. Continuo assim a brincar com a morte sabendo que, um dia, com o encobrimento d'Ele, a sacana levará a melhor. Mas, até lá, vou gozando com ela... Somos tudo o que somos até ao dia que deixamos de ser.
(continua...)
Sem comentários:
Enviar um comentário
Quando comentar agradeço que assine o seu comentário. Obrigado! :)