Os mesmos vultos de sempre à minha volta. O jogador, o usurpador, alguns dissimulados, dois lutadores, vários calados, um falador e montes de outros que passam no lado contrário do vidro.
Posso entrar no detalhe de cada um deles e traçar-lhes um perfil. Poder posso, mas não o farei.
Existem milhares de motivos para uma pessoa viver um determinado perfil. Eu próprio já vivi demasiados perfis e já tentei milhares de vezes voltar a ser eu. Não julgarei.
Está um pouco frio mas tenho as mãos quentes. Deve ser de teclar desenfreadamente. Por vezes, penso que assumi este perfil de escritor para fugir da realidade. É mais fácil escrever sobre ela do que vivê-la. Sinto-me um observador que tudo vê. Uma espécie de senhor do imaginário alheio. É isso. Um narrador.
O jogador saiu... Fechou o portátil, enfiou-o na mala e saiu. Será que ganhou o jogo? Usava calções, meias brancas e ténis. Ele só saiu porque eu assim o escrevi. Eu comando a vida dele no teu imaginário porque, se agora eu escrever que ele usava meias pretas, tu vais ficar na dúvida. Seriam pretas ou brancas? Mas desconfias de mim. Deixo de ter o perfil do controlo. Desconfiança por quem está a escrever a história é o pior medo de quem narra. Perde a credibilidade. É despromovido a um mero personagem.
Posso usar muitos subterfúgios e referir, até, que o jogador nunca aqui esteve. Foi tudo produto da minha imaginação emocionalmente instável e debilitada. Eu apenas quis vê-lo aqui sentado na minha frente e, na realidade, ele nem usava meias, estava descalço. Provavelmente não resultará. São precisos anos de construção para estabelecer uma relação de confiança mas basta um pequeno e insignificante erro para destruí-la.
O usurpador, por outro lado, está cá. Sinto-lhe a presença como se de um parasita se tratasse. Sinto-o a sugar os bits que passam pela rede sem fios e penso, até, se não estará a ler o que eu escrevo. Tenho medo deste! Não falarei mais sobre ele.
Entraram mais dois que conversam alegremente desconhecendo, por completo, que são agora personagens de uma história. Tenho o poder da criação. Criar personagens.
Está um pouco frio mas tenho as mãos quentes. Deve ser de teclar desenfreadamente. Por vezes, penso que assumi este perfil de escritor para fugir da realidade. É mais fácil escrever sobre ela do que vivê-la. Sinto-me um observador que tudo vê. Uma espécie de senhor do imaginário alheio. É isso. Um narrador.
O jogador saiu... Fechou o portátil, enfiou-o na mala e saiu. Será que ganhou o jogo? Usava calções, meias brancas e ténis. Ele só saiu porque eu assim o escrevi. Eu comando a vida dele no teu imaginário porque, se agora eu escrever que ele usava meias pretas, tu vais ficar na dúvida. Seriam pretas ou brancas? Mas desconfias de mim. Deixo de ter o perfil do controlo. Desconfiança por quem está a escrever a história é o pior medo de quem narra. Perde a credibilidade. É despromovido a um mero personagem.
Posso usar muitos subterfúgios e referir, até, que o jogador nunca aqui esteve. Foi tudo produto da minha imaginação emocionalmente instável e debilitada. Eu apenas quis vê-lo aqui sentado na minha frente e, na realidade, ele nem usava meias, estava descalço. Provavelmente não resultará. São precisos anos de construção para estabelecer uma relação de confiança mas basta um pequeno e insignificante erro para destruí-la.
O usurpador, por outro lado, está cá. Sinto-lhe a presença como se de um parasita se tratasse. Sinto-o a sugar os bits que passam pela rede sem fios e penso, até, se não estará a ler o que eu escrevo. Tenho medo deste! Não falarei mais sobre ele.
Entraram mais dois que conversam alegremente desconhecendo, por completo, que são agora personagens de uma história. Tenho o poder da criação. Criar personagens.
Não querem? Paciência. Quem manda aqui sou eu e, agora, são mais dois personagens. Dá-me jeito aumentar mais um ou dois parágrafos e a história até fica mais composta.
Estes dois conversadores nem dão pela minha presença. Espera... Um deles olhou-me. Desviei o olhar. Grande merda... Será que ele percebeu?
Estes dois conversadores nem dão pela minha presença. Espera... Um deles olhou-me. Desviei o olhar. Grande merda... Será que ele percebeu?
De repente entra um tipo completamente descontrolado pela porta, olha à sua volta, agarra no pescoço do conversador e aponta-lhe uma faca ao pescoço. O agressor está desvairado, encosta-se a um pilar no meio da sala com o seu refém pela frente e olha à sua volta em pânico. Sinto-lhe a respiração ofegante mesmo ao meu lado.
De repente vê uma porta do outro lado da sala e, levando o seu refém, escapa-se sem mais interferências. Passam dois polícias a correr pela primeira porta.
Pronto, livrei-me deste. Espero que nada lhe aconteça.
O café está a encher-se de gente. Demasiadas personagens para controlar. Acho que nem consigo escrever tão depressa quanto o incremento do número de seres que entram. Posso no entanto livrar-me de uns quantos mais.
O café está a encher-se de gente. Demasiadas personagens para controlar. Acho que nem consigo escrever tão depressa quanto o incremento do número de seres que entram. Posso no entanto livrar-me de uns quantos mais.
O narrador controla a vida e a morte sem medo do julgamento bárbaro das mentes humanas.
Mas como livrar-me de pessoas que estão realmente aqui? Não preciso. Só preciso de livrar-me delas no teu imaginário. A tua realidade é aquela que eu quiser.
Na verdade eu preciso de todos os personagens. Todos são importantes para a minha história e a minha história é importante para mim. É a minha vida.
Na verdade eu preciso de todos os personagens. Todos são importantes para a minha história e a minha história é importante para mim. É a minha vida.
Podemos tentar anular capítulos mas eles escrevem-se por si.
A fila para pagar aumenta. Os dois lutadores não conseguem agir tão depressa quanto esperado por tantos personagens. Exactamente como eu não consigo escrever tão rápido quanto deveria para acompanhar o teu desejo de imaginário.
A fila para pagar aumenta. Os dois lutadores não conseguem agir tão depressa quanto esperado por tantos personagens. Exactamente como eu não consigo escrever tão rápido quanto deveria para acompanhar o teu desejo de imaginário.
O falador desapareceu! Que raio... Um personagem com vontade própria? Como deixei este escapar sem ser eu a traçar-lhe o destino?
Ah! Está a voltar da casa de banho. Pensavas que escapavas assim sem dar cavaco? Vá, vai lá pagar e pira-te. Não preciso mais de ti hoje.
Fiz bem em mandar este embora. Deve ter um compromisso, do qual se esqueceu até ao último minuto, mas deixou a sua sensual companhia na mesa. Olho-a nos olhos. Gosto deste personagem. Ela também me olha nos olhos. Este é o chamado momento cinema, aquele em que os olhares se cruzam e chegamos a um ponto de não retorno. Ou é para a vida ou é para este segundo apenas.
Fiz bem em mandar este embora. Deve ter um compromisso, do qual se esqueceu até ao último minuto, mas deixou a sua sensual companhia na mesa. Olho-a nos olhos. Gosto deste personagem. Ela também me olha nos olhos. Este é o chamado momento cinema, aquele em que os olhares se cruzam e chegamos a um ponto de não retorno. Ou é para a vida ou é para este segundo apenas.
Foi apenas para este segundo.
Que estou eu a fazer? A cruzar olhares com personagens? Absurdo. A minha posição é outra... É solitária. Não me misturo com personagens.
Esqueci-me da gordinha dos óculos. Coitada. Já deve ter dores musculares de tão parada, sem acção. Olhava-me desesperadamente como se me pedisse uma linha de argumento para executar. Deixo-a descruzar as pernas e mudar de posição. O acompanhante aproveita para olhar-lhe o peito. Eu faria o mesmo, se fosse um personagem, mas não gostei da maneira como ele olhou. Eu tê-lo-ia feito de outro modo.
O som ambiente não me agrada. Não passam boa música aqui. Preciso mudar isso. Preciso mudar muita coisa. Aqui, na minha vida, em mim.
Esqueci-me da gordinha dos óculos. Coitada. Já deve ter dores musculares de tão parada, sem acção. Olhava-me desesperadamente como se me pedisse uma linha de argumento para executar. Deixo-a descruzar as pernas e mudar de posição. O acompanhante aproveita para olhar-lhe o peito. Eu faria o mesmo, se fosse um personagem, mas não gostei da maneira como ele olhou. Eu tê-lo-ia feito de outro modo.
O som ambiente não me agrada. Não passam boa música aqui. Preciso mudar isso. Preciso mudar muita coisa. Aqui, na minha vida, em mim.
Preciso estabelecer um contacto real com os personagens e esquecer a posição solitária de quem está no controlo. Preciso abandonar a narração e encarnar a acção!
Preciso parar com as vontades e desejos que são acedidos por todos. Preciso...
De repente, ao meu lado, um dos lutadores...
- Deseja mais alguma coisa?
De repente, ao meu lado, um dos lutadores...
- Deseja mais alguma coisa?

Pensei eu: "Há algum tempo que um café não me sabia tão bem!"... E depois acabei de ler e percebi que afinal o café era o teu e tudo não passava de uma história. Muito bom! Crias uma relação muito íntima com o leitor e umas personagens simplesmente deliciosas!
ResponderEliminarNádia
Valeu a pena ler o teu comentário. É tão bom saber que controlei o teu imaginário por uns minutos e que isso te fez passar bons momentos.
EliminarObrigado pela leitura e espero que gostes dos próximos. ;) :*
"...Preciso mudar isso. Preciso mudar muita coisa. Aqui, na minha vida, em mim.
ResponderEliminarPreciso estabelecer um contacto real com os personagens e esquecer a posição solitária de quem está no controlo. Preciso abandonar a narração e encarnar a acção!
Preciso parar com as vontades e desejos que são acedidos por todos. Preciso..."
Agradeço-te por seres quem és e seres, em parte, parte de mim...talvez uma parte do meu espelho...
Mica