27 outubro, 2009

Lembrei-me

Cheguei naquele dia à terra que já não é a minha. Nunca foi, pai. Corri para ver-te... Corri para acreditar mas não te vi, já não estavas lá. Voltei à rua, onde o Sol brilhava intensamente. A mesma intensidade de sempre. Aquela que me viu crescer às tuas mãos e que nos queimou a pele quando, juntos, íamos pescar. Não é assim, filho! – dizias com autoridade. E, com todo o amor do mundo, colocavas a linha no anzol e eu observava. Observava sempre procurando beber dessa vida vivida que sempre soube mais do que eu. E depois sorrias com orgulho...

As pessoas juntavam-se desordenadas, sem saber a sua posição. Alguém me falou. A tua prima, que eu não reconheci, de tão ausente que estava, de tão não estar ali, de tanta luz que sugava pelos olhos, falou-me qualquer coisa que não entendi. Acenei com a cabeça que sim... Sim, pai. E lembrei-me de ti. Lembrei-me quando me apresentavas pessoas que eu, lentamente, durante a minha vida, fui considerando família. Esta é a tua prima... – dizias sorrindo. Eu, espantado, olhava para cima à minha volta e tudo era grande e estranho mas tu estavas lá e eu não tinha medo. Depois pegavas em mim, com os teus braços fortes, e seguravas-me ao colo. E sorrias com orgulho...

Cheguei à nossa casa. Demasiados carros amontoados pela rua. A porta aberta... à espera de alguém que não mais entraria por ali. À tua espera... Tudo muito estranho, tudo muito diferente do que era. Saí do carro e pessoas abraçaram-me. Pessoas que me apresentaste como amigos de longa data. E segredaram-me... A tua mãe precisa muito de ti. – diziam. E porque precisaria a minha mãe de alguém que não existia naquele momento, pai? E lembrei-me de ti. Lembrei-me quando, na tua doença desgraçada, já não podias ajudar, com aquele instinto protector e forte, que sempre usaste, para amparar as minhas quedas. Ajuda a tua mãe que eu já não posso – dizias. E eu via a frustração nos teus olhos... Via o homem, pai, que tudo fazia acontecer e tudo lhe aconteceu. E sorrias, chorando por dentro...

Avancei para a minha mãe e abracei-a. Estava de preto como a escuridão que nos rodeava... Pessoas ao acaso pela casa. Sentadas, de pé, mãos atrás das costas, rosto caído... Silêncio. O silêncio que fere. O silêncio maldito dos surdos. Aquele que atormenta e acalma uma vida. O silêncio maldito. Cumprimentei algumas, abracei outras... E lembrei-me de ti, pai. Lembrei-me quando os dois, em silêncio, olhávamos um para o outro e as palavras não eram necessárias. É o meu filho, o meu querido filho! – pensavas. E muitas vezes o disseste, quebrando o silêncio que me atormentava, e acalmavas-me. E os teus olhos brilhavam, pai...

Tive de fugir dali. Saí pela porta, que por ti aguardava, e fui respirar. Senti o cheiro das árvores e olhei para o fim da rua. Vi-te sentado num banco enquanto eu trocava peças do carro. Estavas sentado porque já não podias estar em pé. Mas estavas erguido como sempre te vi. E a luz quente do Sol batia-nos na mesma pele queimada dos fins-de-semana juntos. O calor aquecia o teu corpo cansado da doença desgraçada e carregava de energia o teu olhar, porque esse nunca esmoreceu. Assim vai cair, filho. – dizias com preocupação. E eu retorquia. Não cai nada, não te preocupes. Porque tu eras eu e eu era como tu... E no final eu levantava-te e tu abraçavas-me e subíamos a rua até aquela porta. E, cansado, de pernas fracas, sorrias por dentro, pai...

Acendi um cigarro e vi a tua presença esfumaçar-se para longe a cada brisa que soprava atrás de mim. Sentia a tua dor a cada vez que eu partia para regressar à terra onde vivo, que também não é a minha, nunca foi, pai. E lembrei-me de quando eu chegava para um qualquer fim-de-semana e tu choravas de felicidade e dizias meu filho… Meu querido filho! E eu fechava os olhos e continha a angústia e a lágrima que sempre teimavam em querer sair. Mas tu sorrias por dentro, pai…

A multidão adensava-se e todos falavam. E eu gritava gritos mudos – porquê? Porque decidiu a vida tirar-te tanto, tanto? Porque decidiu a vida, que tanto amaste e viveste, roubar-te a ela própria? Porque sobreviveste a tantos momentos de morte, externos a ti, e lutaste, e lutaste e sobreviveste e finalmente essa infeliz e desgraçada traidora te atacou por dentro?… Onde não podias defender-te! Porque eras incapaz de atacar-te a ti próprio. Porque a inveja desse interior lindo era tanta que essa desfigurada quis destruí-lo. Mas isso mostra, ainda mais, a tua grandeza de homem, de pai. Grandeza que, só pela traição, conseguiram destruir e mesmo assim sem desistência, sem abandono, sem medo. Dizias-me sempre para ser forte mas a fonte da minha força eras tu. E agora compreendo que a força não se cria, recebe-se. A força que querias que eu tivesse e que, só partindo, conseguiste passar-me.

Mas tenho medo. E lembrei-me, pai. Lembrei-me quando te falava dos meus problemas e medos e tu sorrias, com aquele ar de vitória, pois os problemas e medos eram simples demais para quem já tinha sobrevivido a todos eles. É esse o teu problema? – perguntavas. Sê forte. Sê um homem! Procura a resposta dentro de ti, dentro do que eu te ensinei. – dizias. E tu nunca comandavas a minha vida. A vida é tua. Se caíres eu levanto-te, outra vez e as vezes que forem precisas! – continuavas.

A tarde caiu e a noite esperava cair. Eu já tinha caído dezenas de vezes mas tu levantaste-me sempre. E as horas passavam e as sombras negras das pessoas continuavam a pairar pela casa, pelo lar, que tu criaste. E lembrei-me, pai. Lembrei-me das horas que lutaste contra o mar pela vida, pelo amor, por tudo. E lutaste por mim. Eu nem existia ainda mas tu já lutavas por mim porque, se tivesses perdido, eu nem tinha existido. Tu deste-me a vida inúmeras e incansáveis vezes. E foste tão bem sucedido, porque eu estou aqui. E dizias isso a todos, ao mundo inteiro. E os teus olhos brilhavam, pai...

Fomos saindo para estarmos perto de ti. As sombras negras, dissimuladas, foram dispersando, erradamente, tal como chegaram. As sombras que te acompanhavam nos momentos de felicidade que nos últimos tempos te foram tão preciosos. E lembrei-me, pai. Lembrei-me da tua sombra e da tua grandeza quando, sem pernas, sem forças, te levantaste e dançaste com a mulher que, por amor, quis oferecer-te como filha. E lembrei-me bem como o teu sorriso enorme ofuscava qualquer tristeza que pudesse existir. E como bebias felicidade de tudo à tua volta, por mais pequeno que fosse, era tão grande e tão imenso. E depois do esforço heróico demonstraste-me, mais uma vez, como a força interior e o amor suplantam tudo no mundo. Sem saberes estavas a dar-me uma lição de vida. Ou sabias, porque tu sabias tudo! Tu sabias que eu ia dar-te razão. “Um dia, quando olhares para trás, vais dizer: aquele sacana tinha razão” – disseste-me vezes sem conta. Podias ter dito apenas uma. E tinhas razão, sacana! Tinhas sempre razão. E os meus olhos brilham agora, pai…

Chegámos. Não tenhas mais medo do escuro. Agora és a luz do dia e as estrelas da noite. Agora és o ar que todos respiramos. Agora és a força que me sustenta e equilibra. Agora és o meu orgulho, o meu herói. És o mar onde me ensinaste a nadar e a terra onde me ensinaste a correr. És o vento que sopra na minha cara para me lembrar que ainda existes dentro de mim e em todo o lado. És tudo o que eu sou e eu sou como tu!

E escrevi muito e muito. E deitei tudo cá para fora… E chorei tinta preta que ninguém viu. E tantas palavras quando eu só queria escrever, numa página em branco, “Para o meu pai...”.

E lembrei-me, pai! Lembrei-me porque nunca te esquecerei…

16 comentários:

  1. Olá Hugo,

    Sinceramente adorei o texto. É mt profundo e comovente (fez-me chorar... e eu n sou daquelas moçoilas q choram por tudo e por nada...)

    Como já te disse, gostei muito da prosa, mas os meus parágrafos preferidos são os dois últimos.

    Parabéns pela forma como escreves
    Parabéns por teres tido um Pai como o teu.

    ;-)

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  2. Bom dia,

    Li o teu texto e gostei muito, é verdadeiro. Soltaste o que sentes e isso é bom para ti e para quem lê.

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  3. Adorei o que escreveste no blog, chorei, porque me lembrei, do meu pai, que como o teu foi traído por uma doença que ele não pode sobreviver.
    Nas tuas palavras encontrei as minhas que quis dizer ao meu pai e nunca o consegui por no papel, obrigada por partilhares...

    um beijo amigo

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  4. Simply beautiful Hugo.
    Well done!

    A lesson, a reality check to not take anything for granted...to live each day like it's the last.

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  5. Simplesmente lindo. Deixou-me sem palavras de lagrima no olho.
    Para quem te conhece o texto é transparente és tu que estás aqui.
    No meio de tanta gente egoista e sem sentimentos, é bom saber que temos amigos com um enorme coração

    Nunca deixes de escrever.

    Beijo grande

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  6. Olá hugo!
    Lindíssimo!
    Finalmente conseguiste expressar e deitar cá para fora o teu sentir, a tua dor, a tua saudade pelo teu pai. De facto, precisamos de tempo até conseguir fazer isto. Conseguir admitir para nós mesmo o que sentimos, chorar e enfrentar o que nos atormenta.. mas isto é o que nos permite recordar, livremente, a importância das pessoas que mais amamos, aprender e reconstruir uma nova forma de viver.
    Beijinhos :)

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  7. Estive a ver o teu blog e olha...
    Tinha prometido a mim mesma que não mais me farias chorar e não é que conseguiste?...
    Quando cheguei ao final as lágrimas caiam... Pura e simplesmente caiam.

    Parabéns pelo texto e pelo hino ao teu pai, onde quer que ele esteja está muito orgulhoso do filho.

    bjnhs

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  8. Olá Hugo..
    A nossa identidade está profundamente ligada ao tempo e ao espaço. A identidade constrói-se e modifica-se incessantemente no confronto com os outros. Ela nunca é definitiva e corresponde a um processo constante de construção e desconstrução. A nossa identidade é ao mesmo tempo de natureza corporal, psíquica e relacional.É apenas no vivido da alteração que ela se pode e deve construir...Ainda bem que estás a fazer o teu luto...e desenvolves em ti essa primazia de querer continuar a ser ...pois na vida a ultrapassagem parte de nós, das etapas sucessivas que constituem outras tantas aprendizagens, que são feitas de abandonos, renúncias, novidades e fases de entusiasmo.
    O que de facto é inquietante no nosso mundo, é a ambivalência que nos cerca...
    Continua a escrever e a desenvolver o teu Hino...
    E...sinceramente...vales muito!
    Beijinho...

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  9. Ai, Hugo!
    Que forte...fiquei com uma coisa presa no peito e uma vontade de chorar...que linda declaração de amor a um pai.
    Tenho certeza que ele mais uma vez deve está muito orgulhos de ti...e falando:
    Olha como ele escreve bem!!!
    E feliz de constatar que os ensinamentos que ele "plantou"...deu origem a um homem de sentimentos bons.

    Beijo!!!
    Saudade de vc!!!

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  10. No luto e na sua resolução, tentamos invocar não os fantasmas, mas as doces memórias que nos assombram ainda mais - cada vez mais. Relembramos, recontamos, revivemos aqueles momentos (bons) que se impregnaram na nossa mente para sempre. E até à insanidade levaremos esse amor que cresce e fermenta, alimentado pela nossa dor - a Saudade.

    Mas eis que surge este diálogo entre Pai e Filho. E é aqui que se admite e se concretiza a falta que quem partiu nos faz. Não é fraqueza, não é loucura. É aceitação. De que perdemos alguém a quem tanto queríamos dizer! E que ainda muito mais teríamos para amar. "Se ainda estivesses aqui, que terias tu para me dizer?" Não sei, Hugo. Mas sei que o irás descobrir por ti.

    E, entretanto, também eu sorrio com orgulho...

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  11. Olá Hugo!

    Fiquei chocada... e triste... não sabia disto... não sabia o que tinha acontecido... =(

    Espero que tenhas agora força para seguir em frente, para lutar, para viver, porque uma perda destas nunca se esquece... não desaparece... apenas se aprende a lidar com ela...

    Gostei muito do texto, muito mesmo! E lembrei-me... dos fins-de semana que passei com os teus pais... do dia em que os conheci... do jantar super picante que serviram e que não consegui comer... ;)

    Beijo grande e manda um beijo enorme à tua mãe, que já não deve recordar-se de mim, mas manda na mesma =)

    Bjinhos para todos e muita força!

    Patrícia

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  12. O corpo vai mas a alma fica, porque somos um fruto de muitas. Espero que a alma do teu pai te dê sempre muita força e que sejas todos os dias uma pessoa melhor. **

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  13. Simplesmente excelente...escreves de uma forma encantadora que me prendeu até à última palavra. Conseguiste passar toda a emoção e todo o sentimento do momento dorido e dificil que viveste de uma forma tão profunda que faz doer o coração ao sentir a tua dôr.

    Um beijinho grande,

    Ana.

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  14. Hugo,

    Fiquei sem ar ao ler a tua prosa para o teu pai, é linda a forma como escreves... Consegues pôr o leitor dentro da história e isso é muito bom... Já pensaste escrever um livro, a sério... A tua escrita é maravilhosa.

    Além disso queria dizer-te que não imaginava que fosses uma pessoa tão sentimental, com tanta dor dentro de ti que até me faz doer o coração, não consegui perceber das nossas conversas a profundidade do teu sentir, mas agora com a tua escrita percebo melhor as nossas conversas... Que gostei muito que acontecessem e temos de repetir, um dia destes, boa? ;-)

    Foi muito bom deitares cá para fora todo este "sentir" e quero que saibas que gosto muito deste meu amigo e podes sempre contar comigo, sabes né?
    Realmente essa "máscara" tem por detrás um homem cheio de sentimentos grandes e profundos e que eu gostava que ultrapassasses os maus momentos e fosses muito feliz....sinceramente :-)

    Um beijinho grande e temos de combinar uma conversa...

    Ana

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  15. Só agora vi o texto que escreveste no teu blog sobre o teu pai. Posso mesmo dizer que chorei bába e ranho a ler... Lembro-me tão bem do teu pai, era um homem de palavras fortes, decidido. Parece que oiço ainda tanto o teu pai como a tua mãe a falarem com aquela pronúncia algarvia. :)
    Acho que nunca me esquecerei do 1º dia que os vi. Estávamos na tua casa na Praceta do Giestal e chegam os teus pais com a tua avó sem eu estar à espera. A tua mãe com montes de comidinha para abastecer a tua casa e se me lembro o 1º comentário que o teu pai fez logo sobre mim é que eu era bem mais jeitosa que a tua anterior namorada, já não me lembro bem das palavras e do que foi dito, mas lembro-me que fiquei feliz da vida com aquele elogio.

    Ás vezes também penso no que tu me dizias... Que a vida não é os contos de fadas que eu imaginava que iria ser. As pessoas não se casam e são felizes para sempre, nem existe um príncipe encantado à nossa espera. Agora dou-te plena razão... E não conheço ninguém que tenha um casamento como o que eu imaginava.

    Só uma coisa é perfeita, a minha filha. E agora já consigo compreender tanta coisa que os meus pais faziam e diziam. A minha filha é tudo para mim. E é impressionante como ela é parecida comigo, tanto na maneira de ser como no própria imagem de quando eu era pequena.

    Já me alonguei... Li o teu texto e fiquei sentimental demais e ainda a escrever isto estou para aqui a chorar... Vou-me deitar que é o que faço melhor, amanhã acordo cedo para ir trabalhar.

    Bjs,
    Magda

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