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17 junho, 2012

O Declínio Da Monarquia

Eu tive dezasseis sem ler "Os Maias"! Foi o que ouvi, ainda mal sentado no café, de uma jovem, bonita, unhas bem arranjadas e cabelo perfeitamente pintado de louro, que aparenta não ter mais de quinze ou dezasseis anos, enquanto chupa avidamente o seu cigarro, branco e fino, que não deve ter custado menos de vinte cêntimos aos pais, ignorantes, que pagam o seu vício sem saber.
Quero acreditar que não sabem porque, se sabem, ainda são mais culpados do desinteresse da jovem que, orgulhosamente, não leu "Os Maias" mas teve um dezasseis.
Pensando bem, o que poderia prender alguém a um medíocre romance que reflecte o declínio da monarquia em Portugal nos finais do século XIX? Portugal já nem tem reis e penso que o último se chamava Carlos, se a memória não me falha, quando foi morto na Praça do Comércio.

Afinal as aventuras e desventuras de três gerações de uma família nobre, mas pobre, que vive em Lisboa na segunda metade do século XIX não tem nada de interessante. Os personagens são apenas fruto da imaginação fértil de um escritor que nem morava em Portugal, o sacana, e, ainda por cima, são perversos e conscientemente incestuosos. Que malvadez intragável a dos nossos governantes que querem, à força, dar a conhecer a estas mentes, virgens de pecado, acontecimentos socialmente reprováveis e comportamentos sexualmente inaceitáveis, ainda por cima ficcionados na imaginação perturbada e conspurcada de um tal Eça. Só o nome é, por si, estranho.

Gostaria de saber quem foi a alma iluminada que deu um dezasseis a esta jovem, bonita, unhas bem arranjadas e cabelo perfeitamente pintado de louro, que aparenta não ter mais de quinze ou dezasseis anos, enquanto chupa o seu cigarro branco e fino, pago pelos pais, ignorantes, produzindo as caretas mais estranhas que a alguma vez a nicotina obrigou, para agradecer-lhe o excelente trabalho que desenvolve e a sua contribuição para a média altíssima que os nossos jovens apresentam em casa, para orgulho dos ignorantes que lhes pagam os cigarros brancos e finos e, ainda assim, compram telemóveis super inteligentes para recompensar o dezasseis, arduamente atingido nas últimas férias da Páscoa.

Mas este é o retrato da sociedade portuguesa do início do século XXI, na ascensão da república, o qual, não tenho dúvidas, seria genialmente retratado por Eça de Queirós caso este génio perturbado, de mente conspurcada, fosse ainda vivo.

17 maio, 2012

Interacção Social

A rapariga que viajava ao meu lado no metro acabou de meter conversa comigo para me dizer que eu estava a ouvir um excelente álbum no meu iPhone. Já me tinha esquecido o que são as interacções sociais nos transportes públicos... Falo de interacções sociais reais e não virtuais, como no Facebook.

Depois de me tocar no ombro, e interromper a minha hipnose musical, pediu imensa desculpa e disse-me o que tinha a dizer. Ainda completou com "e eu tenho esse álbum original em vinil...". Depois olhou para mim e saiu na estação onde o metro parou. Fiquei sem saber bem o que dizer. Ninguém metia conversa comigo, no metro, há muitos anos. Enquanto se afastava, olhou de lado para mim através da janela e desapareceu naquela fronteira física do vidro e do metal...
Pensei... Aqui está uma pessoa que nunca mais vou ver mas que marcou trinta segundos da minha vida.

Voltei a colocar os fones nos ouvidos e continuei a ouvir "Romeo & Juliet - Alchemy" dos Dire Straits. As portas do metro fecharam e eu fechei os olhos um pouco para apreciar o som que me enchia a alma. Passados uns momentos olhei à volta, a carruagem estava vazia e o metro não saía da mesma estação.
A circulação tinha sido interrompida, devido a uma avaria, e todos saíram menos eu!

27 outubro, 2009

Lembrei-me

Cheguei naquele dia à terra que já não é a minha. Nunca foi, pai. Corri para ver-te... Corri para acreditar mas não te vi, já não estavas lá. Voltei à rua, onde o Sol brilhava intensamente. A mesma intensidade de sempre. Aquela que me viu crescer às tuas mãos e que nos queimou a pele quando, juntos, íamos pescar. Não é assim, filho! – dizias com autoridade. E, com todo o amor do mundo, colocavas a linha no anzol e eu observava. Observava sempre procurando beber dessa vida vivida que sempre soube mais do que eu. E depois sorrias com orgulho...

As pessoas juntavam-se desordenadas, sem saber a sua posição. Alguém me falou. A tua prima, que eu não reconheci, de tão ausente que estava, de tão não estar ali, de tanta luz que sugava pelos olhos, falou-me qualquer coisa que não entendi. Acenei com a cabeça que sim... Sim, pai. E lembrei-me de ti. Lembrei-me quando me apresentavas pessoas que eu, lentamente, durante a minha vida, fui considerando família. Esta é a tua prima... – dizias sorrindo. Eu, espantado, olhava para cima à minha volta e tudo era grande e estranho mas tu estavas lá e eu não tinha medo. Depois pegavas em mim, com os teus braços fortes, e seguravas-me ao colo. E sorrias com orgulho...

Cheguei à nossa casa. Demasiados carros amontoados pela rua. A porta aberta... à espera de alguém que não mais entraria por ali. À tua espera... Tudo muito estranho, tudo muito diferente do que era. Saí do carro e pessoas abraçaram-me. Pessoas que me apresentaste como amigos de longa data. E segredaram-me... A tua mãe precisa muito de ti. – diziam. E porque precisaria a minha mãe de alguém que não existia naquele momento, pai? E lembrei-me de ti. Lembrei-me quando, na tua doença desgraçada, já não podias ajudar, com aquele instinto protector e forte, que sempre usaste, para amparar as minhas quedas. Ajuda a tua mãe que eu já não posso – dizias. E eu via a frustração nos teus olhos... Via o homem, pai, que tudo fazia acontecer e tudo lhe aconteceu. E sorrias, chorando por dentro...

Avancei para a minha mãe e abracei-a. Estava de preto como a escuridão que nos rodeava... Pessoas ao acaso pela casa. Sentadas, de pé, mãos atrás das costas, rosto caído... Silêncio. O silêncio que fere. O silêncio maldito dos surdos. Aquele que atormenta e acalma uma vida. O silêncio maldito. Cumprimentei algumas, abracei outras... E lembrei-me de ti, pai. Lembrei-me quando os dois, em silêncio, olhávamos um para o outro e as palavras não eram necessárias. É o meu filho, o meu querido filho! – pensavas. E muitas vezes o disseste, quebrando o silêncio que me atormentava, e acalmavas-me. E os teus olhos brilhavam, pai...

Tive de fugir dali. Saí pela porta, que por ti aguardava, e fui respirar. Senti o cheiro das árvores e olhei para o fim da rua. Vi-te sentado num banco enquanto eu trocava peças do carro. Estavas sentado porque já não podias estar em pé. Mas estavas erguido como sempre te vi. E a luz quente do Sol batia-nos na mesma pele queimada dos fins-de-semana juntos. O calor aquecia o teu corpo cansado da doença desgraçada e carregava de energia o teu olhar, porque esse nunca esmoreceu. Assim vai cair, filho. – dizias com preocupação. E eu retorquia. Não cai nada, não te preocupes. Porque tu eras eu e eu era como tu... E no final eu levantava-te e tu abraçavas-me e subíamos a rua até aquela porta. E, cansado, de pernas fracas, sorrias por dentro, pai...

Acendi um cigarro e vi a tua presença esfumaçar-se para longe a cada brisa que soprava atrás de mim. Sentia a tua dor a cada vez que eu partia para regressar à terra onde vivo, que também não é a minha, nunca foi, pai. E lembrei-me de quando eu chegava para um qualquer fim-de-semana e tu choravas de felicidade e dizias meu filho… Meu querido filho! E eu fechava os olhos e continha a angústia e a lágrima que sempre teimavam em querer sair. Mas tu sorrias por dentro, pai…

A multidão adensava-se e todos falavam. E eu gritava gritos mudos – porquê? Porque decidiu a vida tirar-te tanto, tanto? Porque decidiu a vida, que tanto amaste e viveste, roubar-te a ela própria? Porque sobreviveste a tantos momentos de morte, externos a ti, e lutaste, e lutaste e sobreviveste e finalmente essa infeliz e desgraçada traidora te atacou por dentro?… Onde não podias defender-te! Porque eras incapaz de atacar-te a ti próprio. Porque a inveja desse interior lindo era tanta que essa desfigurada quis destruí-lo. Mas isso mostra, ainda mais, a tua grandeza de homem, de pai. Grandeza que, só pela traição, conseguiram destruir e mesmo assim sem desistência, sem abandono, sem medo. Dizias-me sempre para ser forte mas a fonte da minha força eras tu. E agora compreendo que a força não se cria, recebe-se. A força que querias que eu tivesse e que, só partindo, conseguiste passar-me.

Mas tenho medo. E lembrei-me, pai. Lembrei-me quando te falava dos meus problemas e medos e tu sorrias, com aquele ar de vitória, pois os problemas e medos eram simples demais para quem já tinha sobrevivido a todos eles. É esse o teu problema? – perguntavas. Sê forte. Sê um homem! Procura a resposta dentro de ti, dentro do que eu te ensinei. – dizias. E tu nunca comandavas a minha vida. A vida é tua. Se caíres eu levanto-te, outra vez e as vezes que forem precisas! – continuavas.

A tarde caiu e a noite esperava cair. Eu já tinha caído dezenas de vezes mas tu levantaste-me sempre. E as horas passavam e as sombras negras das pessoas continuavam a pairar pela casa, pelo lar, que tu criaste. E lembrei-me, pai. Lembrei-me das horas que lutaste contra o mar pela vida, pelo amor, por tudo. E lutaste por mim. Eu nem existia ainda mas tu já lutavas por mim porque, se tivesses perdido, eu nem tinha existido. Tu deste-me a vida inúmeras e incansáveis vezes. E foste tão bem sucedido, porque eu estou aqui. E dizias isso a todos, ao mundo inteiro. E os teus olhos brilhavam, pai...

Fomos saindo para estarmos perto de ti. As sombras negras, dissimuladas, foram dispersando, erradamente, tal como chegaram. As sombras que te acompanhavam nos momentos de felicidade que nos últimos tempos te foram tão preciosos. E lembrei-me, pai. Lembrei-me da tua sombra e da tua grandeza quando, sem pernas, sem forças, te levantaste e dançaste com a mulher que, por amor, quis oferecer-te como filha. E lembrei-me bem como o teu sorriso enorme ofuscava qualquer tristeza que pudesse existir. E como bebias felicidade de tudo à tua volta, por mais pequeno que fosse, era tão grande e tão imenso. E depois do esforço heróico demonstraste-me, mais uma vez, como a força interior e o amor suplantam tudo no mundo. Sem saberes estavas a dar-me uma lição de vida. Ou sabias, porque tu sabias tudo! Tu sabias que eu ia dar-te razão. “Um dia, quando olhares para trás, vais dizer: aquele sacana tinha razão” – disseste-me vezes sem conta. Podias ter dito apenas uma. E tinhas razão, sacana! Tinhas sempre razão. E os meus olhos brilham agora, pai…

Chegámos. Não tenhas mais medo do escuro. Agora és a luz do dia e as estrelas da noite. Agora és o ar que todos respiramos. Agora és a força que me sustenta e equilibra. Agora és o meu orgulho, o meu herói. És o mar onde me ensinaste a nadar e a terra onde me ensinaste a correr. És o vento que sopra na minha cara para me lembrar que ainda existes dentro de mim e em todo o lado. És tudo o que eu sou e eu sou como tu!

E escrevi muito e muito. E deitei tudo cá para fora… E chorei tinta preta que ninguém viu. E tantas palavras quando eu só queria escrever, numa página em branco, “Para o meu pai...”.

E lembrei-me, pai! Lembrei-me porque nunca te esquecerei…