04 junho, 2012

Encontros Anónimos (1ª parte)

Adoro fazer uma pessoa chorar! Adoro o significado daquele acto libertador. Quando uma pessoa chora genuinamente, o seu castelo está completamente desprotegido, de porta aberta para quem ali passar.
Quando oferecemos um carinho, por mais pequeno que seja, a uma pessoa que chora, esse acto jamais será esquecido. Esse pequeno gesto assume um valor de proporções épicas que dificilmente não será traduzido numa troca.
Adoro fazer uma pessoa chorar... Não há nada de mal em chorar. Chorar cansa-nos os demónios da dor.

Nos últimos tempos já não choro. Não me sinto cansada e no entanto não tenho sono. Quando temos insónias o mundo parece estranho. Tudo fica mais lento. As pessoas afastam-se e ficam mais pequenas. Deixamos o nosso corpo e observamos tudo, incluindo nós próprios. Consigo ver-me de um modo que nunca vi antes e reparo em pequenos detalhes que nem sabia que existiam.
Depois vêm os pesadelos. Ficamos num estado de hipnose sonolenta que está naquela fronteira entre o dormir e o estar acordado. No entanto sonhamos, e não é nada bonito. Acordamos aos gritos!
Quando isso me acontece, vou para a sala e fumo um cigarro no escuro da noite. Aprecio o silêncio absoluto que me rodeia e vejo o fumo subir na vertical. Não há uma única corrente de ar.
Consigo ouvir as pequenas folhas de tabaco que ardem com mais vigor a cada aspiração... Amanhã é outro dia.

Olhei os anúncios no painel à entrada do centro comunitário de Lisboa vasculhando, na diagonal, os papéis pendurados aleatoriamente, à procura de uma mancha familiar que me deixasse tranquila.
Finalmente, algo descansa a minha mente. "Reunião dos Neuróticos Anónimos". Observei melhor o anúncio e procurei, na minha desmembrada agenda de 2006, uma compatibilidade com o único dia que permanecia um buraco na minha vida. "Todas as sextas às 21:00 horas". Perfeito!

Passei por muito na vida. Momentos de felicidade, como toda a gente, mas também muitos momentos de infelicidade. Não era uma mulher normal, ou pensava que não era. A minha mente era frágil e emotiva.
Recentemente tinha sido levada a acreditar que era amada e amei muito. Amei demais. No dia do choque perdi os sentidos e senti um vazio tão grande que me fez permanecer inanimada na frente do computador algumas horas até que uma amiga decidiu que aquilo era demais e veio dar-me o ombro. Na realidade deu-me um ombro, depois o outro, os braços e, quando me deu o peito, já pouco tinha para dar que conseguisse amparar tanta dor.

Passado algum tempo, já conseguia sorrir. Tinha um sorriso doce mas notava-se a mágoa recente que se tinha apoderado de mim e que me fez procurar, por todos os meios, não estar sozinha.
Às segundas frequentava os narcóticos anónimos e, nas terças, inventava histórias de sucesso para os alcoólicos, antes de passar pelo Bairro Alto e beber um alentejano de Reguengos com a minha amiga de longa data que me deu todas as partes do corpo mas que, nas últimas semanas, já as tinha recuperado.
Durante esses encontros partilhava as histórias que inventava nos grupos de apoio e também as que ouvia. Sofia espantava-se com o estado em que a sociedade se encontra.

Caroço (nome de guerra que usou anos a fio quando vagueava pelas ruas do Casal Ventoso), um frequentador antigo dos narcóticos anónimos, tinha problemas hormonais. As doses cavalares de heroína, ingeridas desde a sua juventude, alteraram-lhe o desenvolvimento do corpo e os seus peitos apresentavam uma voluptuosidade extra que, se era bastante fora do comum numa mulher, era de muito mau gosto num homem de mais ou menos trinta anos mas que aparentava quarenta e muitos.

Em contraste, Aníbal era um engatatão nato convertido ao álcool. A vida correu-lhe mal quando a mulher arranjou melhor, o que não foi difícil, e o abandonou na sua triste vida levando com ela os dois filhos e o dinheiro da conta bancária. Quando caiu na realidade, dedicou-se a engatar mulheres de meia, e também completa, idade que lhe pagavam jantares e copos em troca de alguns favores mais íntimos, o que lhe permitia, por acréscimo, umas noites mal passadas em colchões dignos do nome.

Passando para o sexo oposto, e de muito sexo se tratava, havia ainda Olga, uma ninfomaníaca de trinta e poucos que frequentava o grupo das quartas. Olga descobriu que era uma predadora sexual quando o homem que levou para casa naquela noite não aguentou a conjugação de Viagra com o extremo exercício físico a que foi submetido e teve um ataque cardíaco enquanto a agarrava pela cintura, caindo nas suas costas mais duro que o membro incapaz de saciar a pobre mulher em necessidade.
Durante algumas semanas, nas reuniões, mostrou, com orgulho, as marcas que restaram da fatídica noite. Eram perfeitamente visíveis os dedos na cintura e os dentes nas costas, devido à queda da cabeça inanimada daquele desgraçado. Quando começaram a desaparecer, tatuou-as, qual caçador que regista o momento glorioso da vitória sobre a presa.

As histórias eram muitas e Sofia achava-as divertidas. Vera permanecia mais séria, chegando a sentir a dor dos personagens que preenchiam as noites das duas amigas.
Às quintas, assumindo um perfil de psicóloga, assistia incrédula aos discursos dos veteranos de guerra que, por sorte ou astúcia, não tinham o nome inscrito no Monumento aos Combatentes do Ultramar.
Um deles, o Vassoura, como o chamavam naqueles tempos, tinha uma função muito peculiar. Sempre que havia uma deslocação de tropas, seguia uns trezentos metros à frente, sozinho, matando tudo o que se mexesse na passagem que seria usada pelo batalhão. Um dia foi alvejado. A bala acertou-lhe de raspão na cabeça, levando-lhe um bom pedaço do osso craniano que mais tarde foi substituído por uma prótese em platina.
Há uns anos atrás, o veterano divertia-se com velhos amigos batendo objectos de metal contra a testa. As batidas produziam uns sons bastante engraçados. Foi neste preciso momento que ele teve uma epifania. Fundar um grupo musical. Esta experiência resultou no Grupo Ferrinhos Unidos de À-Dos-Paus, terra natal do Vassoura. O conjunto tinha bastante sucesso, sendo a atracção principal a música "Testa de Ferro", em que o Vassoura acompanhava os restantes membros do grupo batendo freneticamente na testa com um dos ferrinhos.

No dia seguinte será o meu primeiro encontro com os neuróticos anónimos e preciso estar completamente desequilibrada. Não será difícil... Afinal quão neurótica precisa uma pessoa ser para frequentar todos os grupos anónimos de Lisboa, e arredores, só para não estar sozinha?
Sou uma turista. É isso que sou. Assumo o meu papel na cultura dos locais que frequento. Visito as mentes dos nativos e guardo fotografias mentais do que vejo. Sinto que não mais voltarei ao local visitado mas esse local acompanha-me interiormente. Os lugares que visito são os meus lugares.
Contudo uma coisa mudou na minha vida. Passei a dormir.
Os bebés não dormem assim!


(continua...)

7 comentários:

  1. Adorei... "Chorar cansa-nos os demónios da dor." São raras as vezes que choro mas a partir de hoje se acontecer que os céus desabem, hei-de lembrar-me desta frase. Espero a continuação... Helena

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    1. Querida Helena, estou cá para esse inevitável dia.. :*

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  2. "Adoro fazer uma pessoa chorar... Não há nada de mal em chorar. Chorar cansa-nos os demónios da dor. "

    OLHAR e VER alguém em lágrimas jamais poderá ser motivo para adoração. Curiosamente isto fez-me lembrar algo giro:

    " Prometo amar-te até ao limite, beijar-te até à última fronteira, correr quando bastava andar, saltar quando bastava correr, voar quando bastava saltar. Prometo abraçar-te com o interior dos ossos, percorrer-te a carne com a fome absoluta, e ir à procura do orgasmo todos os dias, a toda a hora, encontrar a felicidade no doce absurdo que nos soubermos destinar. Prometo falhar. Sem hesitar. Prometo ser humano, aqui e ali ser incoerente, aqui e ali dizer a palavra errada, a frase errada, até o texto errado, aqui e ali agir sem pensar, para que raios serve pensar quando te amo tão desalmadamente assim? Prometo compreender, prometo querer, prometo acreditar. Prometo insistir, prometo lutar, descobrir, aprender, ensinar. Tudo para te dizer que prometo falhar. E Deus te livre de não me prometeres o mesmo."

    (re)conheces isto?

    Beijo em ti

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    1. Sim, tenho o livro mas não cheguei ao final por falta de qualidade literária..

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    2. Falta de qualidade literária é uma constante hoje em dia, todos são escritores, tal como na fotografia, todos se intitulam fotógrafos.
      Mas ainda bem que ainda existem bons contadores de histórias e não apenas de estórinhas.

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    3. Júlia, já nos conhecemos não é?

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