Acordo a meio da noite, não em sobressalto mas calma, cheia de vontade de fumar um cigarro. O corpo não me pedia descanso e acedi ao desejo. Lembrei-me de algumas cenas da minha vida e retrocedi na memória como se tivesse uma máquina do tempo.
Acendi o cigarro e aspirei o fumo calmamente sentindo a nicotina a percorrer o meu corpo e a chegar ao cérebro. Depois de algumas horas sem fumar é o que sentimos. É uma sensação de calma a apoderar-se de nós e o sangue aquece nas veias. Acende-me um calor interno que me faz despir a camisa de noite.
Olho para o meu corpo nu e, no meio da escuridão, vejo umas faixas de luz que me contornam com um abraço divinal. Na rua, aquele candeeiro ama-me mais do que o homem que me desprezou. O brilho amarelo entra pelas cortinas, sem pedir permissão, e acaricia-me. Não quero que pare.
Passo as mãos pelo peito, descendo e dispersando o calor do tacto. Sinto-me sensual.
Lembro-me do meu primeiro namorado. Foi carinhoso. Namorámos algum tempo e, uma noite, visitou-me na casa onde eu morava. Estava mais nervoso do que eu. Já tinha decidido que seria naquela noite que iria entregar-me a ele. Fizemos amor.
Foi tudo muito novo mas intenso. No final chorei mas não daquelas lágrimas que cansam os demónios. Foram lágrimas de alegria por ter tido uma primeira vez tão carinhosa, com um homem que soube tratar-me como eu sempre desejei.
Desci mais um pouco. Toquei levemente o suave interior das coxas e senti um arrepio. Apertei-as, deixando as mãos no seu interior. O meu corpo acedeu e descobri um prazer novo... O meu toque.
Foi o despertar para um novo lugar na minha vida. O meu lugar. A minha intimidade que só a mim pertencia. Ali estava eu, comigo própria a desejar-me.
O cigarro, no cinzeiro, já tinha ardido até metade e eu continuava. Sentia-me viva. Tenho um corpo lindo e sensual. Adorei-me naquele momento.
Inclinei-me para trás, no sofá, e os braços acompanharam o movimento. Senti-me molhada...
Lentamente abri as pernas e continuei a tocar-me. Não pensei em nenhum homem em particular. Para dizer a verdade, não pensei em nenhum homem. Apenas em mim. Fui egoísta e adorei-me. Por fim o meu corpo estremeceu no meio de um suspiro... Respirei fundo e, por alguns segundos, revivi cada detalhe da onda de prazer que percorreu o meu corpo, prolongando-a o mais possível até que se desvaneceu por completo.
Nunca tinha sentido este prazer em estar comigo própria e, afinal, só fiz sexo com alguém que amo!
O cigarro apagou-se deixando um rasto de cinza. Acendi outro.
Passou um carro na rua. Não lhe ouvi o som mas as luzes varreram a sala dando-me uma visão câmara lenta do que me rodeia. Embora tenha durado um segundo, na minha consciência durou uma eternidade. A cada pequeno espaço iluminado, vi uma relação com a minha vida. Depois voltou o escuro trespassado pelo brilho amarelo e ténue do candeeiro lá fora. Mais um abraço quente.
Aquela visão varrida trouxe-me muitas memórias mas havia sempre uma que se sobrepunha. Chorei em silêncio. Senti uma pequena lágrima a acariciar-me a cara enquanto descia ao encontro dos meus lábios húmidos pela última passagem da língua. Tinha um sabor salgado que se espalhou pela minha boca enquanto respirava fundo. Misturei-o com o sabor agridoce do cigarro.
Apetece-me ligar-lhe e pego no telemóvel. Vasculho rapidamente a lista de contactos até que reencontro um sorriso familiar. Pergunto-me porque será que as pessoas guardam sempre imagens de caras sorridentes. Será o desejo do subconsciente em fazer os outros felizes? Não gosto de expressões falsas. Aquele sorriso já teve outro significado. Agora não passa de uma boca esticada que mostra os dentes. A minha lista de contactos é composta de cabeças e corpos. Alguns, poucos, significam pessoas. Outros não.
Selecciono este sorriso e vejo os detalhes. O número destaca-se do amontoado de informação. Coleccionamos informação de todos os tipos sobre os corpos que, em algum momento da nossa vida, representaram uma pessoa. Quanto mais informação, mais essa pessoa nos pertence. Até ao dia que deixa de pertencer. No entanto deixamos o corpo na lista. Com o passar do tempo passa a ser mentira e nem o sabemos porque já não usamos a informação para nada. Apesar disso, fica lá, eternamente, porque satisfaz o nosso desejo de posse. E a lista vai crescendo...
Queria partilhar este momento único e está apenas à distância de uma leve pressão sobre um pedaço de vidro. Mas não pressiono. Falta-me a coragem.
Olho para o relógio. Cinco horas. Apago o cigarro.
Inclino a cabeça para trás, num último expirar, ao encontro do sofá e fico a olhar o tecto até que os meus olhos cerram e adormeço.
Dormir é uma coisa maravilhosa. Permite-nos sonhar. Liberta-nos a consciência das leis da física e da moralidade.
Faço-lhe uma visita no quarto enquanto dorme. Roupa espalhada pelo chão, como sempre esteve, sem que alguma vez me importasse. Na verdade, a maioria das vezes não tínhamos tempo de a arrumar.
Deito-me ao seu lado e ele abraça-me. Olho-o por uns momentos e penso como seria bom nunca mais acordar. Coloca a perna por cima das minhas e aconchega-me a cabeça contra o peito. Sinto-me leve, despreocupada e a sua pele tem o toque da seda.
Existem lugares onde não queremos estar mas de onde não queremos sair.
Finalmente o Sol irrompe pela janela e as cortinas deixam de ter importância, tal como o sonho, quando acordo, nua, no sofá. Foi a despedida, sinto-o.
Passei uma noite maravilhosa, que durou uma eternidade, e renasci para viver outro dia. Não me arrependo.
Quando sonhamos, o tempo não corre em paralelo com a realidade. Cinco minutos de sonho podem fazer-nos viver várias horas, vários dias. É como ler um livro. A história demora dez horas a ler mas pode relatar uma vida inteira de acontecimentos. Ler é sonhar acordada.
Finalmente, apercebo-me que o problema não está em pensar que nunca mais vou encontrar alguém que preencha aquele lugar mas, sim, em permitir que alguém ouse preenchê-lo.
Levanto-me do sofá e dirijo-me ao quarto mas, ao sair da sala, agarro-me à porta e olho para o espaço vazio, onde ele não dormiu, e digo-lhe...
Adoro a expressividade do teu silêncio!
(continua...)
O cigarro apagou-se deixando um rasto de cinza. Acendi outro.
Passou um carro na rua. Não lhe ouvi o som mas as luzes varreram a sala dando-me uma visão câmara lenta do que me rodeia. Embora tenha durado um segundo, na minha consciência durou uma eternidade. A cada pequeno espaço iluminado, vi uma relação com a minha vida. Depois voltou o escuro trespassado pelo brilho amarelo e ténue do candeeiro lá fora. Mais um abraço quente.
Aquela visão varrida trouxe-me muitas memórias mas havia sempre uma que se sobrepunha. Chorei em silêncio. Senti uma pequena lágrima a acariciar-me a cara enquanto descia ao encontro dos meus lábios húmidos pela última passagem da língua. Tinha um sabor salgado que se espalhou pela minha boca enquanto respirava fundo. Misturei-o com o sabor agridoce do cigarro.
Apetece-me ligar-lhe e pego no telemóvel. Vasculho rapidamente a lista de contactos até que reencontro um sorriso familiar. Pergunto-me porque será que as pessoas guardam sempre imagens de caras sorridentes. Será o desejo do subconsciente em fazer os outros felizes? Não gosto de expressões falsas. Aquele sorriso já teve outro significado. Agora não passa de uma boca esticada que mostra os dentes. A minha lista de contactos é composta de cabeças e corpos. Alguns, poucos, significam pessoas. Outros não.
Selecciono este sorriso e vejo os detalhes. O número destaca-se do amontoado de informação. Coleccionamos informação de todos os tipos sobre os corpos que, em algum momento da nossa vida, representaram uma pessoa. Quanto mais informação, mais essa pessoa nos pertence. Até ao dia que deixa de pertencer. No entanto deixamos o corpo na lista. Com o passar do tempo passa a ser mentira e nem o sabemos porque já não usamos a informação para nada. Apesar disso, fica lá, eternamente, porque satisfaz o nosso desejo de posse. E a lista vai crescendo...
Queria partilhar este momento único e está apenas à distância de uma leve pressão sobre um pedaço de vidro. Mas não pressiono. Falta-me a coragem.
Olho para o relógio. Cinco horas. Apago o cigarro.
Inclino a cabeça para trás, num último expirar, ao encontro do sofá e fico a olhar o tecto até que os meus olhos cerram e adormeço.
Dormir é uma coisa maravilhosa. Permite-nos sonhar. Liberta-nos a consciência das leis da física e da moralidade.
Faço-lhe uma visita no quarto enquanto dorme. Roupa espalhada pelo chão, como sempre esteve, sem que alguma vez me importasse. Na verdade, a maioria das vezes não tínhamos tempo de a arrumar.
Deito-me ao seu lado e ele abraça-me. Olho-o por uns momentos e penso como seria bom nunca mais acordar. Coloca a perna por cima das minhas e aconchega-me a cabeça contra o peito. Sinto-me leve, despreocupada e a sua pele tem o toque da seda.
Existem lugares onde não queremos estar mas de onde não queremos sair.
Finalmente o Sol irrompe pela janela e as cortinas deixam de ter importância, tal como o sonho, quando acordo, nua, no sofá. Foi a despedida, sinto-o.
Passei uma noite maravilhosa, que durou uma eternidade, e renasci para viver outro dia. Não me arrependo.
Quando sonhamos, o tempo não corre em paralelo com a realidade. Cinco minutos de sonho podem fazer-nos viver várias horas, vários dias. É como ler um livro. A história demora dez horas a ler mas pode relatar uma vida inteira de acontecimentos. Ler é sonhar acordada.
Finalmente, apercebo-me que o problema não está em pensar que nunca mais vou encontrar alguém que preencha aquele lugar mas, sim, em permitir que alguém ouse preenchê-lo.
Levanto-me do sofá e dirijo-me ao quarto mas, ao sair da sala, agarro-me à porta e olho para o espaço vazio, onde ele não dormiu, e digo-lhe...
Adoro a expressividade do teu silêncio!
(continua...)

wow, tá excelente, acho que ainda não tomaste consciência do poder das tuas palavras e que quando elas saem de ti, é porque já têm sitio onde estar, mas eu sou a leitora que adora ler-te, não sou escritora ou crítica de literatura, e por natureza aprecio o que sai naturalmente das pessoas sem estar sempre a tentar encontrar falhas... quero ler mais... Lena
ResponderEliminarHugo,
ResponderEliminarNão tenho palavras para explicar o quanto me agrada cada capítulo que produzes.
Gosto da forma como escreves. E da história também. Prende a atenção do leitor, fazendo crescer uma certa curiosidade sobre o que se irá passar a seguir.
Fico a aguardar, ansiosamente, as cenas dos próximos capítulos…
Mónica Tomaz