11 junho, 2012

Diálogos Improváveis

Normalmente, as conversas laterais não passam de murmúrios. Descartamo-las à esquerda, com a facilidade da falta de interesse, e à direita, com o desprezo que merecem. Há, no entanto, narrativas perfeitas de tão cruas.
Olhando de longe, um casal parece manter uma conversa improvável. Os gestos podem assumir muitos significados. Existe um leque de possibilidades que não se verifica quando estamos na pele de um deles.
Uma narrativa crua abre-nos um número infinito de caminhos e nenhuma é mais crua do que aquela que não ouvimos. O fascínio de observar uma conversa entre surdos (mudos?) é um livro com páginas brancas e o romance é aquele que quisermos. É fazer uso dos restantes sentidos, que nos atraiçoam.

As pessoas preocupam-se em afastar o olhar. São ofensivamente discretas. Não gostam de romances mudos. Estão perante a mais bela forma literária e não querem ver.
É ali, na mesa do café, que o amor acontece. Corpos que falam e se entendem numa dança de movimentos e expressões, de comum acordo, num código próprio de quem fala a mesma língua.
Eu sou intrusivo. Leio, observo e observo... Na esperança de uma pequena linha, de uma palavra que me leve a acreditar que o romance chegará a um final feliz. Cada gesto promove uma ideia de sucesso e, intimamente, deseja-se a felicidade alheia, mesmo que a nossa esteja adormecida.
Um romance lido é bem diferente de um romance visto. Ver um romance é bem melhor que ler um. É assistir a criação em directo! É teatro sem guião e, no final, sem palmas. Os actores retiram-se em silêncio absoluto, como em qualquer final que se preze, deixando apenas as emoções dentro de quem viu.

Os gestos são universais, não têm fronteiras nem credos. São maiores que as barreiras culturais.
Quando se tem esta oportunidade, qualquer desculpa serve para não voltar a casa. Pior ainda, quando a casa espera, vazia de romance, sem gestos, em silêncio. Peço mais um café. Observo e observo, sedento de argumento. Imagino um romance sem ruído, sem gritos, numa paz perturbadora. Um assobio que ecoa, perfeito, pela imaginação.
Ter de olhar os olhos de alguém para comunicar é um descanso para a alma. É a impossibilidade de mentir e a inevitabilidade de ouvir a verdade de quem vê através do outro. Essa ausência de nervosismo poderia potenciar importantes diálogos. Poderia, mesmo, criar confiança inabalável entre amantes.

O bailado continua e continua, capaz de fazer inveja a qualquer cisne branco, ou negro. Os gestos são graciosos e calmos, sem qualquer movimento brusco. Parecem flutuar no ar, como notas musicais, que atravessam espaços para encontrar alojamento em cada um de nós. Podiam ser acompanhados de música mas não faria sentido ouvir duas músicas em simultâneo e, no entanto, nunca páginas em branco fizeram tanto sentido.
Não existem, nestes diálogos improváveis, expressões ofensivas. O amor acontece ali. É imediato.

Comunicar com o corpo é fazer amor com a narrativa!

São momentos como este, indescritíveis, que me fazem entender quão primitivo sou na minha linguagem.
É neste contexto que entendo o que perdemos por falar, o que deixamos de saber por ouvir e o que ganhamos por ver.

1 comentário:

  1. Em outros contextos há pessoas que perdem por ver que não souberam ouvir, e quando quiseram falar já lá não estava ninguém que os quissesse escutar. Era tudo bem mais simples se todos soubessemos dialogar.

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