O importante a reter desta minha frase é a mais insuportável das conclusões. O solipsismo do meu pensamento artístico.
08 agosto, 2012
07 agosto, 2012
Lotaria Genética
Não há nada mais feio do que um casal bonito. Casais compostos por uma mulher bonita e um homem bonito parecem fabricados. Em consequência, existirá um casal em que ambos são feios o que, ao nível do legado, terá consequências traumatizantes.
Um casal bonito é composto, impreterivelmente, por dois membros bonitos. Um casal composto de um membro bonito e outro feio não é um casal bonito. Ascende a um casal jeitosinho e não parecerá tão fabricado como o casal bonito. Existe, no entanto, uma grande diferença entre um casal jeitosinho e um casal jeitoso. O membro não bonito do casal jeitoso também não é feio. É um membro assim assim, que tem o potencial de, em conjunto com o membro bonito, conceber um legado mais para o bonito do que para o feio.
O casal feio é composto por dois membros feios. É discutível a legitimidade, ou não, desta forma de existência, mas existem. O seu legado reúne uma herança épica de anos a combater o mais odiado estigma da raça humana, o deficit de beleza.
O mais comum e equilibrado é o casal assim assim. É composto por uma mulher assim assim e por um homem assim assim (ou vice versa), e o seu legado será o mais assim assim possível. Estes não são, nem carne, nem peixe, e é talvez o casal que passa mais despercebido entre os restantes.
Contudo, a complexa natureza humana não estaria completa sem proporcionar a junção de um homem assim assim com uma mulher feia, ou de um homem feio com uma mulher assim assim. Eis o casal ranhosito. Este duo provoca reacções várias por parte dos seus congéneres mas, a mais comum, é o desejo de que o membro assim assim tivesse escolhido (ou sido escolhido por) um parceiro bonito e formado um casal jeitoso. O seu legado teria mais probabilidades de ser bonito do que feio e, assim, não passará de assim assim com maior tendência para o feio do que para o bonito.
As contas ficam mais complicadas quando no meio do casal surge um terceiro elemento. Este(a) é o(a) ranhoso(a) que estraga tudo.
A maioria das mulheres bonitas tem pés feios! Se ignorarmos as várias formas de callus (helomas, tilomas e hiperqueratosianos), algumas Staphylococcus, um ou outro metatarso mais cabeludo, inpetiginem várias, quantidade indeterminada de hallux valgus, e as infames, mas comuns, unhas encravadas, restam pés hediondos por força da anatomia bípede. Esta é a pior forma de desprimor que existe pois, se as primeiras são tratáveis, a última obriga a um completo renascimento e acompanhamento ortopédico continuado.
Desconfio sempre da natureza que gera tão abomináveis formas de desidratar de paixão os restantes 90% de um corpo feminino bem tratado. E quando a coisa nasce torta, não há pédicure comme-il-faut que endireite tamanha devassidão imposta a tão infelizes mulheres. Nem vale a pena abordar a questão pela perspectiva sofista... Ou é feio ou é bonito. Hípias, que teria uma mulher sem pés, ou mulher nenhuma, aborda levianamente o assunto, no seu Maior, atribuindo o deficit de beleza pedonal à não aplicação de ouro na construção dos respectivos membros posteriores. Talvez por isso Atena tenha permanecido virgem, ninguém lhe pegou.
A insuportabilidade de formas disformes levará, em último caso, à pergunta: É preferível um rosto bonito em pés feios ou um rosto feio em pés bonitos?
Nada menos complexo. Os mais puristas preferirão o rosto bonito, os mais fetichistas preferirão os pés bonitos.
Todas as possibilidades consideradas, restam muito poucas mulheres interessantes. E a trama adensa-se quando começamos a limitar, ainda mais, o espectro perceptível com alguns filtros de personalidade.
A falta de excelência do pododáctilo direito I ou, já agora, do esquerdo, conferem ao pé feminino uma forma insuportável, algo semelhante a um gadanho, apropriado para rasgar listas telefónicas ou abrir latas de atum sem patilha.
É preferível passar fome e acumular papel.
03 agosto, 2012
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