30 outubro, 2009

Véu

Tu, que já estiveste no céu,
Não te escondas agora.
Abre a porta, salta o muro cá para fora,
Deixa-me desvendar esse véu...

Tu, que já viveste o amor,
Não desistas de viver.
Existe um mundo inteiro por conhecer,
Um mundo lindo, sem mentira, sem dor...

Caminhando pelo vazio,
Chegas a lado nenhum, acabas perdida...
Sem destino, sem fim, sem ser querida!

Não tenhas medo,
Não fiques escondida...
Dá-me parte do teu viver, da tua vida!

27 outubro, 2009

Lembrei-me

Cheguei naquele dia à terra que já não é a minha. Nunca foi, pai. Corri para ver-te... Corri para acreditar mas não te vi, já não estavas lá. Voltei à rua, onde o Sol brilhava intensamente. A mesma intensidade de sempre. Aquela que me viu crescer às tuas mãos e que nos queimou a pele quando, juntos, íamos pescar. Não é assim, filho! – dizias com autoridade. E, com todo o amor do mundo, colocavas a linha no anzol e eu observava. Observava sempre procurando beber dessa vida vivida que sempre soube mais do que eu. E depois sorrias com orgulho...

As pessoas juntavam-se desordenadas, sem saber a sua posição. Alguém me falou. A tua prima, que eu não reconheci, de tão ausente que estava, de tão não estar ali, de tanta luz que sugava pelos olhos, falou-me qualquer coisa que não entendi. Acenei com a cabeça que sim... Sim, pai. E lembrei-me de ti. Lembrei-me quando me apresentavas pessoas que eu, lentamente, durante a minha vida, fui considerando família. Esta é a tua prima... – dizias sorrindo. Eu, espantado, olhava para cima à minha volta e tudo era grande e estranho mas tu estavas lá e eu não tinha medo. Depois pegavas em mim, com os teus braços fortes, e seguravas-me ao colo. E sorrias com orgulho...

Cheguei à nossa casa. Demasiados carros amontoados pela rua. A porta aberta... à espera de alguém que não mais entraria por ali. À tua espera... Tudo muito estranho, tudo muito diferente do que era. Saí do carro e pessoas abraçaram-me. Pessoas que me apresentaste como amigos de longa data. E segredaram-me... A tua mãe precisa muito de ti. – diziam. E porque precisaria a minha mãe de alguém que não existia naquele momento, pai? E lembrei-me de ti. Lembrei-me quando, na tua doença desgraçada, já não podias ajudar, com aquele instinto protector e forte, que sempre usaste, para amparar as minhas quedas. Ajuda a tua mãe que eu já não posso – dizias. E eu via a frustração nos teus olhos... Via o homem, pai, que tudo fazia acontecer e tudo lhe aconteceu. E sorrias, chorando por dentro...

Avancei para a minha mãe e abracei-a. Estava de preto como a escuridão que nos rodeava... Pessoas ao acaso pela casa. Sentadas, de pé, mãos atrás das costas, rosto caído... Silêncio. O silêncio que fere. O silêncio maldito dos surdos. Aquele que atormenta e acalma uma vida. O silêncio maldito. Cumprimentei algumas, abracei outras... E lembrei-me de ti, pai. Lembrei-me quando os dois, em silêncio, olhávamos um para o outro e as palavras não eram necessárias. É o meu filho, o meu querido filho! – pensavas. E muitas vezes o disseste, quebrando o silêncio que me atormentava, e acalmavas-me. E os teus olhos brilhavam, pai...

Tive de fugir dali. Saí pela porta, que por ti aguardava, e fui respirar. Senti o cheiro das árvores e olhei para o fim da rua. Vi-te sentado num banco enquanto eu trocava peças do carro. Estavas sentado porque já não podias estar em pé. Mas estavas erguido como sempre te vi. E a luz quente do Sol batia-nos na mesma pele queimada dos fins-de-semana juntos. O calor aquecia o teu corpo cansado da doença desgraçada e carregava de energia o teu olhar, porque esse nunca esmoreceu. Assim vai cair, filho. – dizias com preocupação. E eu retorquia. Não cai nada, não te preocupes. Porque tu eras eu e eu era como tu... E no final eu levantava-te e tu abraçavas-me e subíamos a rua até aquela porta. E, cansado, de pernas fracas, sorrias por dentro, pai...

Acendi um cigarro e vi a tua presença esfumaçar-se para longe a cada brisa que soprava atrás de mim. Sentia a tua dor a cada vez que eu partia para regressar à terra onde vivo, que também não é a minha, nunca foi, pai. E lembrei-me de quando eu chegava para um qualquer fim-de-semana e tu choravas de felicidade e dizias meu filho… Meu querido filho! E eu fechava os olhos e continha a angústia e a lágrima que sempre teimavam em querer sair. Mas tu sorrias por dentro, pai…

A multidão adensava-se e todos falavam. E eu gritava gritos mudos – porquê? Porque decidiu a vida tirar-te tanto, tanto? Porque decidiu a vida, que tanto amaste e viveste, roubar-te a ela própria? Porque sobreviveste a tantos momentos de morte, externos a ti, e lutaste, e lutaste e sobreviveste e finalmente essa infeliz e desgraçada traidora te atacou por dentro?… Onde não podias defender-te! Porque eras incapaz de atacar-te a ti próprio. Porque a inveja desse interior lindo era tanta que essa desfigurada quis destruí-lo. Mas isso mostra, ainda mais, a tua grandeza de homem, de pai. Grandeza que, só pela traição, conseguiram destruir e mesmo assim sem desistência, sem abandono, sem medo. Dizias-me sempre para ser forte mas a fonte da minha força eras tu. E agora compreendo que a força não se cria, recebe-se. A força que querias que eu tivesse e que, só partindo, conseguiste passar-me.

Mas tenho medo. E lembrei-me, pai. Lembrei-me quando te falava dos meus problemas e medos e tu sorrias, com aquele ar de vitória, pois os problemas e medos eram simples demais para quem já tinha sobrevivido a todos eles. É esse o teu problema? – perguntavas. Sê forte. Sê um homem! Procura a resposta dentro de ti, dentro do que eu te ensinei. – dizias. E tu nunca comandavas a minha vida. A vida é tua. Se caíres eu levanto-te, outra vez e as vezes que forem precisas! – continuavas.

A tarde caiu e a noite esperava cair. Eu já tinha caído dezenas de vezes mas tu levantaste-me sempre. E as horas passavam e as sombras negras das pessoas continuavam a pairar pela casa, pelo lar, que tu criaste. E lembrei-me, pai. Lembrei-me das horas que lutaste contra o mar pela vida, pelo amor, por tudo. E lutaste por mim. Eu nem existia ainda mas tu já lutavas por mim porque, se tivesses perdido, eu nem tinha existido. Tu deste-me a vida inúmeras e incansáveis vezes. E foste tão bem sucedido, porque eu estou aqui. E dizias isso a todos, ao mundo inteiro. E os teus olhos brilhavam, pai...

Fomos saindo para estarmos perto de ti. As sombras negras, dissimuladas, foram dispersando, erradamente, tal como chegaram. As sombras que te acompanhavam nos momentos de felicidade que nos últimos tempos te foram tão preciosos. E lembrei-me, pai. Lembrei-me da tua sombra e da tua grandeza quando, sem pernas, sem forças, te levantaste e dançaste com a mulher que, por amor, quis oferecer-te como filha. E lembrei-me bem como o teu sorriso enorme ofuscava qualquer tristeza que pudesse existir. E como bebias felicidade de tudo à tua volta, por mais pequeno que fosse, era tão grande e tão imenso. E depois do esforço heróico demonstraste-me, mais uma vez, como a força interior e o amor suplantam tudo no mundo. Sem saberes estavas a dar-me uma lição de vida. Ou sabias, porque tu sabias tudo! Tu sabias que eu ia dar-te razão. “Um dia, quando olhares para trás, vais dizer: aquele sacana tinha razão” – disseste-me vezes sem conta. Podias ter dito apenas uma. E tinhas razão, sacana! Tinhas sempre razão. E os meus olhos brilham agora, pai…

Chegámos. Não tenhas mais medo do escuro. Agora és a luz do dia e as estrelas da noite. Agora és o ar que todos respiramos. Agora és a força que me sustenta e equilibra. Agora és o meu orgulho, o meu herói. És o mar onde me ensinaste a nadar e a terra onde me ensinaste a correr. És o vento que sopra na minha cara para me lembrar que ainda existes dentro de mim e em todo o lado. És tudo o que eu sou e eu sou como tu!

E escrevi muito e muito. E deitei tudo cá para fora… E chorei tinta preta que ninguém viu. E tantas palavras quando eu só queria escrever, numa página em branco, “Para o meu pai...”.

E lembrei-me, pai! Lembrei-me porque nunca te esquecerei…

20 outubro, 2009

Morreste-me

Para o meu Pai...

Dei por mim sentado... Numa outra cadeira
Não muito distante, mas o bastante, para ver
A Tua ausência acontecer no fundo do meu ser
Onde tudo vive ainda, de onde nada se esgueira...

Dei por mim a chorar, gritar, pensar... Culpar
Aquele, lá em cima, escondido de vergonha tanta
Quando abraçado à tua pele fria, como manta,
Implorava por mais um minuto para Te olhar...

Queria dizer-Te o que nunca disse.
Queria levar-Te comigo ou contigo desaparecer
Para onde nunca mais alguém nos visse...

Por fim preciso disfarçar, baixar o olhar e não ver
Porque, no morrer, ainda não houve quem mentisse
Quem entende não julga, quem não entende irá entender...