11 novembro, 2012

Ich Bin Ein Berliner

Este video foi proibido na Alemanha e a embaixada alemã, em Lisboa, já pediu explicações ao governo português sobre o lançamento deste video apenas 1 dia antes da visita de Angela Merkel a Lisboa...

This video was forbidden on Germany and the german embassy, in Lisbon, already asked the government for explanations about this video launch just 1 day before Angela Merkel visits Lisbon...

Dou-vos as 3 versões do video (Português, Inglês e Alemão)

I give you the 3 versions of the video (Portuguese, English and German)

English version


Versão Portuguesa


German version

14 outubro, 2012

Se Me Perguntares

Se me perguntares sobre a guerra,
Poderia mencionar Tolstoi e muita decadência...
Se me perguntares sobre o amor e o que encerra,
Poderia declamar sonetos com eloquência...
Se me perguntares sobre um qualquer mar,
Poderia citar Os Lusíadas em toda a sua essência...
Se me perguntares sobre a mulher sem par,
Poderia listar tópicos de preferência...

Mas qual a verdadeira sensação de acordar ao lado
De uma mulher e ser verdadeiramente insaciável?
Qual a verdadeira sensação de olhar atordoado
Uma mulher e sentir-me totalmente vulnerável?
A que cheira o cabelo da mulher amada
Senão a um aroma intensamente incomparável?...
A que sabem os lábios da mulher desejada
Senão a um paladar de maresia incontrolável?...

Nunca antes fui compreendido apenas com o olhar,
Nunca Deus colocou um anjo na terra só para mim
E senti ser esse mesmo ser celestial para ti, teu lar,
Repleto de amores, cheiros e cores, como um jardim.
Nenhuma, antes de ti, me fez apreciar os sentidos,
Nenhuma, depois de ti, os terá merecidos...
Porque é este o amor que sempre desejei, incondicional,
Porque não te amar seria o maior pecado capital...

Nada mais pretendo, e entendo, seria pecado
Algo mais pedir da vida que completaste tão bem!
Duvido que algum dia antes tenha ousado
Amar assim tanto, tanto, alguém...



If You Ask Me

If you ask me about war,
I could mention Tolstoy and a lot of decay...
If you ask me about love and what it means,
I could recite sonnets eloquently...
If you ask me about any one sea,
I could quote The Lusiads in all its essence...
If you ask me about the unmatchable woman
I could list topics of my preference...

But what is the true feeling of waking up next to
A woman and be truly insatiable?
What is the true feeling of looking stunned to
A woman and feel totally vulnerable?
To what does it smell the hair of the beloved woman
If not to an intensely incomparable aroma?...
To what does it taste the desired woman's lips
If not to a savor of uncontrollable salty sea?...

Never before was I comprehended only with a look,
Never before God put an angel on earth just for me
And I felt as this same celestial being for you, your home,
Filled with love, smells and colors, like a garden.
None, before you, made ​​me appreciate the senses
None, after you, will deserve it...
For this is the love I always wanted, unconditional,
For not loving you would be the biggest deadly sin...

I need nothing more, and understand, would be a sin
To ask for something else from the life you have completed so well!
I doubt I've ever dared before
To love so much, so much, someone...

12 outubro, 2012

Nobel Europe

O prémio Nobel da paz foi atribuído à União Europeia por ter mantido o continente unido nos últimos sessenta anos.
Agora, deviam atribuir o Nobel da economia à Zona Euro, o Nobel da química ao Banco Central Europeu pela tinta que usou para imprimir mais moeda, o Nobel da medicina à Alemanha por ter curado a Grécia dos seus pecados, o Nobel da física a Portugal pela crise quântica (crise em todos os universos) e o Nobel da literatura, novamente, à União Europeia pela Constituição Europeia!

Nobel for peace went to the European Union for keeping the continent united for the last sixty years.
Now, they should give the Nobel for economy to the Euro Zone, Nobel for chemistry to the European Central Bank for the ink they used to print more currency, Nobel for medicine to Germany for healing Greece from their sins, Nobel for physics to Portugal for quantum crisis (crisis in all universes) and Nobel for literature to the EU, again, for the European Constitution!

07 outubro, 2012

Passos No Escuro Musicalizado

Na noite de 4 de Outubro de 2012 fui surpreendido por uma banda de fantásticos músicos (SôZé) que decidiu compor uma música para um dos meus poemas, Passos No Escuro, e tocar ao vivo no espaço SOU - Movimento e Arte.

A banda é composta pelos músicos: Mário Vinagre, Margarida Moser, Ricardo Canelas, Carina Mariais, Andy Fersil, Marco Fonseca e Nélson Sousa.

Inicialmente a música foi composta com todos os instrumentos, incluindo cordas, mas, no último momento, os músicos decidiram apresentar uma versão mais simples baseada em piano, violino e um pouco de bateria. Ficou absolutamente linda e partilho convosco a gravação que efectuei desta performance. A qualidade do video não é a melhor pois usei o meu iPhone e não equipamento profissional de gravação mas, apesar disso, dá para ver a qualidade da melodia e ouvir a letra escrita por mim.

Espero que gostem! :)



06 setembro, 2012

O Paraíso

O Paraíso desceu à cidade
Linda e sempre maravilhosa...
Esta que me acolhe com bondade
Entre os seus braços, tão graciosa...

E a paz que busco agora,
Nesta hora, hoje, sem demora,
Chegou enfim, toda para mim
E as cores, tantas... Como um jardim!

Quem me dera que fosse permanente,
Quem me dera que fosse inevitabilidade...
Quem me dera que fosse a única verdade!

O leve balanço tão eloquente...
O Paraíso desceu à cidade...
E com ele, toda a minha felicidade!

02 setembro, 2012

Estar Contigo


Estar contigo é sentir-me no topo do mundo,
É flutuar acima de todos os outros, sem asas,
É ser notado sem notar ninguém, no fundo,
É sorrir, sem motivo aparente, por entre as casas...

É estar ferido de amor e não sentir dor,
É não falar a língua amada sem ficar à míngua,
É estar em paz com o agressor e receber louvor,
É nunca mais querer regressar ao passado superado...

É aprender uma nova língua, vogal e consoante,
É apregoar o meu país e trocá-lo numa chamada,
É cheirar do teu corpo o perfume penetrante...

É este bem querer-te para sempre constante,
É respeitar-te e amar-te com a palavra dada,
É apenas querer, de todas, uma única amante...

08 agosto, 2012

07 agosto, 2012

Lotaria Genética

Não há nada mais feio do que um casal bonito. Casais compostos por uma mulher bonita e um homem bonito parecem fabricados. Em consequência, existirá um casal em que ambos são feios o que, ao nível do legado, terá consequências traumatizantes.
Um casal bonito é composto, impreterivelmente, por dois membros bonitos. Um casal composto de um membro bonito e outro feio não é um casal bonito. Ascende a um casal jeitosinho e não parecerá tão fabricado como o casal bonito. Existe, no entanto, uma grande diferença entre um casal jeitosinho e um casal jeitoso. O membro não bonito do casal jeitoso também não é feio. É um membro assim assim, que tem o potencial de, em conjunto com o membro bonito, conceber um legado mais para o bonito do que para o feio.
O casal feio é composto por dois membros feios. É discutível a legitimidade, ou não, desta forma de existência, mas existem. O seu legado reúne uma herança épica de anos a combater o mais odiado estigma da raça humana, o deficit de beleza.
O mais comum e equilibrado é o casal assim assim. É composto por uma mulher assim assim e por um homem assim assim (ou vice versa), e o seu legado será o mais assim assim possível. Estes não são, nem carne, nem peixe, e é talvez o casal que passa mais despercebido entre os restantes.
Contudo, a complexa natureza humana não estaria completa sem proporcionar a junção de um homem assim assim com uma mulher feia, ou de um homem feio com uma mulher assim assim. Eis o casal ranhosito. Este duo provoca reacções várias por parte dos seus congéneres mas, a mais comum, é o desejo de que o membro assim assim tivesse escolhido (ou sido escolhido por) um parceiro bonito e formado um casal jeitoso. O seu legado teria mais probabilidades de ser bonito do que feio e, assim, não passará de assim assim com maior tendência para o feio do que para o bonito.
As contas ficam mais complicadas quando no meio do casal surge um terceiro elemento. Este(a) é o(a) ranhoso(a) que estraga tudo.

A maioria das mulheres bonitas tem pés feios! Se ignorarmos as várias formas de callus (helomas, tilomas e hiperqueratosianos), algumas Staphylococcus, um ou outro metatarso mais cabeludo, inpetiginem várias, quantidade indeterminada de hallux valgus, e as infames, mas comuns, unhas encravadas, restam pés hediondos por força da anatomia bípede. Esta é a pior forma de desprimor que existe pois, se as primeiras são tratáveis, a última obriga a um completo renascimento e acompanhamento ortopédico continuado.
Desconfio sempre da natureza que gera tão abomináveis formas de desidratar de paixão os restantes 90% de um corpo feminino bem tratado. E quando a coisa nasce torta, não há pédicure comme-il-faut que endireite tamanha devassidão imposta a tão infelizes mulheres. Nem vale a pena abordar a questão pela perspectiva sofista... Ou é feio ou é bonito. Hípias, que teria uma mulher sem pés, ou mulher nenhuma, aborda levianamente o assunto, no seu Maior, atribuindo o deficit de beleza pedonal à não aplicação de ouro na construção dos respectivos membros posteriores. Talvez por isso Atena tenha permanecido virgem, ninguém lhe pegou.
A insuportabilidade de formas disformes levará, em último caso, à pergunta: É preferível um rosto bonito em pés feios ou um rosto feio em pés bonitos?
Nada menos complexo. Os mais puristas preferirão o rosto bonito, os mais fetichistas preferirão os pés bonitos.
Todas as possibilidades consideradas, restam muito poucas mulheres interessantes. E a trama adensa-se quando começamos a limitar, ainda mais, o espectro perceptível com alguns filtros de personalidade.
A falta de excelência do pododáctilo direito I ou, já agora, do esquerdo, conferem ao pé feminino uma forma insuportável, algo semelhante a um gadanho, apropriado para rasgar listas telefónicas ou abrir latas de atum sem patilha.
É preferível passar fome e acumular papel.

03 agosto, 2012

37 anos...

...Estou oficialmente em crise de meia idade! :)

Hank Moody - Californication


15 julho, 2012

Encontros Anónimos (6ª parte)

Nua e sozinha na varanda, sob a luz escaldante do sol, onde os seus 'humms hums' não desconcentrarão o trabalho em progresso, Laura observa Amaro e os companheiros enquanto estes reviram o quarto.
Caroço dorme o sono mais profundo que alguma vez dormiu na vida, sem perspectivas de acordar. Laura percebe que não adianta continuar a tentar falar com os ladrões e a gastar energia essencial para manter-se viva o mais possível e, assim, ter uma hipótese de ser salva por alguém que, miraculosamente, apareça em sua casa. O seu marido poderia decidir voltar mais cedo, o que não seria uma situação agradável mas, entre a morte lenta e dolorosa da exposição ao sol e consequente e gradual asfixia, limitando a entrada de ar para os pulmões já de si dificultada pelo dispositivo que albergava na boca, e a vergonha de ser encontrada pela família, naquele estado, com um homem de aspecto rude na sua cama, a dormir tranquilamente, e o consequente divórcio, preferiria a vergonha e o divórcio. Tudo é melhor que a morte, especialmente quando esta chega já anunciada e lentamente vai tratando do processo de transporte para local desconhecido. Laura não queria morrer. Tinha assuntos inacabados que, de um momento para o outro, iam chegando à sua mente como fotografias que passam rápido demais numa apresentação projectada na parede branca da sala de reuniões. O desespero tomou conta da sua existência, impotente para se libertar das amarras que a faziam assumir uma forma rígida, qual peça de Tetris em 'S' perfeitamente encaixada noutra peça por baixo dela. Mas não faria linha e a peça debaixo dela não desapareceria num piscar de olhos estrelado juntamente com a soma de um bónus.
Sentia uma pinga de suor que se formara no couro cabeludo, junto às raízes do cabelo quente, a entrar na área da testa e ligeiramente escorrer na direcção do olho direito curvando e contra-curvando, em clara obediência às linhas de rosto, que a atiravam para o canto mais perto do cimo do nariz, onde entraria sem problemas na cavidade ocular. Um ardor que, sabia, salgado mas não poderia provar. Pelo menos, esta gota.

Teria de manter-se calma e respirar lenta e profundamente de modo a oxigenar o cérebro em intervalos regulares[1] que lhe permitissem não sentir falta de oxigénio e sofrer um desmaio que seria bem mais dramático naquela situação delicada.
A pele mais directamente exposta ao sol adquiria, ao estilo de Seurat, um pontilhado vermelho ao mesmo tempo que começava a sentir um pouco de dificuldade em respirar. O objecto fálico na sua boca, quase até à epiglote, deixava um angustiante espaço, reduzido demais, para que o ar passasse fluidamente para os pulmões mas o dispositivo de mudez forçada não permitia a visualização da expressão assustada, qual Grito de Munch, que provavelmente teria naquela hora.
Laura sempre pensou que o seu fim seria mais tarde, honroso, em família, longínquo da devassa praticada a intervalos quinzenais, regulares, e a notícia da sua morte seria capa da mesma revista onde trabalhava arduamente com um cabeçalho digno de registo. Neste momento já se contentava com um cabeçalho vergonhoso que pudesse apreciar, viva, em qualquer outro país.
Subitamente é invadida por um sentimento de remorsos. O marido ter-lhe-ia feito o convite para o acompanhar na viagem mas preferiu ficar em casa e passar uma horas agradáveis com um novo exaustor.
Os minutos passavam e o Sol estava cada vez mais abrasador na pele nua de Laura que, agora, parecia mais a Impressão, de Monet, do que uma pele branca e cuidada. Uma segunda gota de suor iniciava o seu percurso descendo da testa, passando pelo nariz, detendo-se na ponta deste para lentamente acumular mais líquido e cair nos lábios secos. Rapidamente é absorvida e, o sabor salgado, espalha-se, finalmente, pelas papilas gustativas de Laura aliviando um pouco os pensamentos. O calor lembrava-a da sua juventude e das férias que passava junto à praia com os pais e os amores de Verão, que vinham à vez e passavam rapidamente dando lugar aos seguintes. Tudo estaria igual não fosse o facto de agora ser uma importante directora editorial, reconhecida no mundo social, que estava amarrada, a escaldar, sabendo que em pouco tempo estaria numa situação respiratória muito séria.
Da varanda não se via ninguém que pudesse ajudar ou chamar a polícia. O local é ermo e distante de qualquer outra casa.
Um pardal pousa na mesa e olha, curioso, para Laura revirando a cabeça em pequenos, mas rápidos, movimentos. A respiração estava cada vez mais difícil obrigando-a a um auto-controle ainda maior. Olhando aquele pássaro em cima da mesa, apercebe-se que a liberdade não se nota até que não a temos. Pessoas felizes são todas iguais... Pessoas miseráveis, são-no, cada uma à sua maneira[2].
Dentro do quarto a azáfama era grande e parecia não terminar tão cedo quanto a necessidade  faria crer que, no final, iriam libertá-la. O grupo roubava tudo o que poderia ter algum valor e não escondia a satisfação enquanto o fazia.

Naquele momento a entrada de ar era já insuficiente para qualquer tipo de pensamento racional e o desespero aumentava. A cabeça de Laura já não tinha forças para aguentar na vertical, balanceando de um lado para o outro com o enfraquecimento do esternocleidomastoideo e dos vários escalenos.
O grupo já não se encontrava no quarto e a possibilidade de a libertarem no final do assalto era agora uma miragem. Nesta fase aceita-se o facto de que a morte é a melhor solução. Os pensamentos dirigiam-se para os filhos e para a oportunidade que desejaria ter de despedir-se e de dizer-lhes que os ama com todo o coração. Nestes momentos de desespero, o amor, é tudo o que ocupa os últimos resquícios de pensamento sóbrio.
O Sol fazia já uma pequena sombra na varanda quando começava a passar por cima do telhado da casa. Num último desespero, Laura tenta saltitar a cadeira para aproximar-se da sombra apenas para aperceber-se que já não tinha forças em qualquer dos músculos do corpo. A sua postura era imóvel, estática e sólida, e as amarras já nem faziam sentido pois, mesmo que removidas, continuaria certamente naquela posição.
Em agonia e dor, ouvindo a pulsação do coração nos ouvidos, tal era o silêncio em que a vida a deixava, vendo a visão periférica a estreitar e uma mancha negra, circular, a fechar-se à volta dos últimos raios de luz que as retinas iriam processar, conseguiu ainda pensar que modo era este, mais estúpido e surreal, de encontrar a morte depois de tanto tempo numa vida cheia e com significado.
Com a aproximação do rigor mortis, Laura parecia agora uma forma grotesca e inchada não devendo nada à beleza anterior que a distinguia entre as suas amigas, todas colegas de ginásio e confidentes das infidelidades quinzenais, e que iriam certamente fazer algumas piadas com a sua morte.
A pele tinha agora um aspecto de levedura, seca e endurecida pelo Sol, inchando e deformando à mercê do calor. A cabeça pendia para a frente numa última reverência, não se sabe bem a quem ou quê.
Um final inusitado para alguém que pretendia apenas um fim-de-semana igual a todos os outros que, quinzenalmente, já tinha passado em perfeita descompressão.
Quando os agentes da autoridade são finalmente chamados, depois da chegada da família e óbvio trauma psicológico para a vida por parte dos filhos, e a retiram da fria cadeira de varanda, tiveram de a carregar na mesma posição em que esteve por largas horas, qual peça de Tetris inanimada que não mais estava encaixada em qualquer outra do mesmo formato. Os músculos rígidos e a coluna vertebral solidificada assim iriam permanecer até que um dia depois, antes da passagem ao estado seguinte[3], o seu corpo ficasse completamente inerte e flexível.
Coitado daquele ingénuo marido que encontrou a sua amada esposa numa situação daquelas e que terá agora de gastar uma fortuna em psico-terapia para os filhos de oito e onze, e talvez até para o próprio, pelos menos nos próximos dez anos, até que estes consigam lidar com a cena visualizada naquele domingo de tarde, queria acreditar que os assaltantes teriam invadido a sua casa, prendido a esposa na varanda e se esqueceram dela quando fugiram, deixando para trás um dos seus colegas que adormeceu na cama luxuosa onde se deitou para descansar um pouco e que, agora, se encontrava sob custódia policial. E assim iria permanecer a sua crença, enquanto o lugar de Laura não fosse preenchido por outra, disposta a uma vida de pouca excitação e fraco estímulo intelectual[4].


[1] Pelo menos de trinta em trinta segundos para que a correcta oxigenação do cérebro seja feita em condições de manter a vida.

[2] Adaptação pretensiosa de uma frase de Лев Николаевич Толстой (Liev Tolstoi).

[3] Livor mortis.

[4] Uma prequela é, por definição, uma marcha em direcção ao inevitável.


(continua...)

05 julho, 2012

Encontros Anónimos (5ª parte)

Existe um certo charme associado à sedução de uma mulher que já espera ser seduzida e, por isso, alinha num jogo que, sabe, vai perder propositadamente gozando assim da vantagem de quem está no controle. Claro está, é frustrante seduzir uma mulher que não está aberta à sedução.
As mulheres de meia idade são particularmente especialistas na arte de serem seduzidas e, aquelas realmente entendidas no jogo, fazem-no de um modo que o adversário pensa que está a ganhar até aos últimos minutos do encontro. É um desafio de rivais de longa data que, sejamos francos, na sua fase final, é o desporto com mais contacto físico que existe mas, que ambas as partes acordam terminar de forma teoricamente amigável sem que os limites da dor suportável sejam violados. Existe uma cumplicidade implícita que, em certos momentos, mais parece uma rendição mútua, e consequente união de esforços, para que a individualidade egoísta seja satisfeita. Não existem regras tacitamente definidas no início, o que se traduz numa jogatina imprevista cujo curso é definido a cada minuto de avanço no campo de jogo. As regras são escritas sensorialmente e o entendimento comum acaba sempre por ter o mesmo fim, mesmo que, pelo meio, existam divergências na linguagem usada. É bem capaz de ser o único desafio à semiótica de que me apercebo. Tal como a matemática, é uma linguagem universal que todos a conhecemos à nascença e dispensa aprendizagem cultural, talvez algum treino. Obviamente, a cultura desempenha um papel fundamental neste duelo mas, a facilidade com que diferentes culturas entram em acordo para o bem comum, desafia qualquer lei das relações internacionais e o entendimento da ONU sobre as políticas externas de países em desacordo.
Seria interessante ver como o jogo da sedução, se aplicado à macro-escala geográfica, poderia resolver conflitos internacionais, talvez de uma forma bem mais pacífica do que os especialistas em relações internacionais conseguem, através de jogos de palavras e trunfos medianamente interessantes apesar de usarem as mesmas mesas de reunião que depois servem de suporte ao jogo da sedução em contextos completamente diferentes.
Na micro-escala do quarto de Laura, a única mesa que existe está repleta de vidros coloridos, aleatoriamente dispostos de uma forma que denota uma limitada preocupação em parecer aleatória, dir-se-ia uma pequena batalha de formas, cada uma lutando para parecer mais sensual que a outra, escondendo no seu interior o maior trunfo de todos, capaz de mudar mentes e dar-lhes outros desejos que não os puramente sociais. Existe ainda um espelho que, convenientemente, reflecte a cama larga, de altura certa, que divide com o seu marido, sempre que este não viaja, limitando assim os desejos duma mulher que guarda metodicamente fantasias satisfeitas a cada quinze dias por adversários criteriosamente escolhidos pelo seu aspecto rude, mas vigoroso, capazes de suportar a explosão de calor que emana da válvula de uma panela de pressão a cada vinte segundos, apenas para ser absorvida pelo exaustor, sujo de gordura mas incansável, no seu ritmo e gemido constantes.

Enquanto Aníbal, de tronco nu, sentado na cama, admirava os frascos aleatoriamente dispostos, tentando sentir odores associados às várias cores, Laura preparava-se na casa de banho num ritual que antevia uma tarde de descompressão.
Laura, directora de uma revista de moda, mulher de pele clara mas bem tratada de modo a evitar a visualização de quaisquer defeitos, casada há mais de vinte anos, tinha dois filhos. A promessa de conhecer outro país tinha levado o marido e os filhos para longe naqueles dias e Laura ficou em casa mais uma vez, para grande satisfação pessoal desta e completo desconhecimento daquele.
O quarto, estrategicamente posicionado no lado sul da casa, era assim iluminado mais tempo pelo sol que entrava pelas largas portas de correr, feitas em vidro duplo de qualidade, que separavam o interior do quarto de uma varanda, tamanho médio, onde se encontrava uma mesa redonda e três cadeiras. Esta ímpar composição, denotando uma certa incapacidade de lidar com números pares ou cenas compostas, parecia arranjada demais para ser usada com qualquer fim que não fosse o puramente decorativo. Não existiria muita afinidade no casal que lhes permitisse desfrutar de uma tarde solarenga naquela mesa. Por outro lado poderia ser apenas uma falta de gosto em apanhar sol e conversar com alguém que já não articulava qualquer tipo de assunto nem estimulava a intelectualidade do outro.

Toxicodependentes com propensão a cometer crimes para sustentar o seu vício não são, geralmente, pessoas violentas. O crime violento exige, de quem o exerce, um estado de espírito que eles preferem não sentir nos momentos em que desfrutam daquilo que os seus saques permitem comprar.
Geralmente transformam-se em pequenos ladrões de casas, envergonhados, e preferem assaltá-las quando estão vazias, evitando assim a adrenalina[1] que retiraria parte do prazer associado ao consumo ilegal de substâncias controladas[2].
Amaro, é um jovem de vinte e nove anos, toxicodependente, que passou metade da sua vida em centros de detenção e, mais recentemente, no centro prisional da área da sua residência, o que permitia a visita regular da sua mãe que se desfazia em lágrimas, a cada retorno a casa, pensando onde teria errado na educação do filho.
Foi apenas o acaso, e talvez o facto de não se encontrar qualquer carro estacionado à porta, que seleccionou a casa de Laura como alvo preferencial para o saque de hoje que Amaro iria levar a cabo com mais dois conhecidos amigos do alheio, frequentadores do mesmo centro prisional em que Amaro era cliente assíduo e, com o qual, dividiam o quarto com vista privilegiada para o pátio.
Olhando para a casa, cercada por muros altos, Amaro imaginava a melhor maneira de entrar no seu interior.

A imaginação de Caroço já teria associado e dissociado, por várias vezes, um aroma a cada frasco pensando ser o mais correcto tendo em conta a cor no seu interior. Finalmente a porta da casa de banho abria-se e ele pensou como, neste caso, não lhe custaria nada passar umas horas divertidas. Laura saía pela porta duma forma bastante sensual, perfeitamente equilibrada em cima de saltos altos, compensados, erguendo uns fios que mal cobriam o corpo bem trabalhado no ginásio que frequentava com as mesmas amigas com quem partilhava as histórias de infidelidade. A panela de pressão estava a encher e preparava-se para despressurizar a qualquer momento. Atirou-se a Aníbal, deitando-o de costas na cama e beijando-o desenfreadamente, entre gemidos ainda um pouco forçados mas que, sabia, iriam passar a muito reais em breve, ao mesmo tempo que este agarrava a sua cintura e sentia aquela pele suave contra o seu corpo bronzeado e definido pelos anos de noitadas e magreza do álcool.
É no momento que os dois se encontram em pleno acto sexual, fazendo uso de alguns brinquedos cuja forma e função se adequam e complementam perfeitamente, que Amaro e companheiros entram no andar de baixo vasculhando toda a casa em procura de valores que possam comprar a felicidade nocturna que se avizinha. Começam pela sala, passando rapidamente para as outras divisões do andar térreo quando, subitamente, ouvem uns gemidos, bastante explícitos sobre o que se passava no andar de cima.
Caroço, não que fosse necessário, envergava um dispositivo que permitia duplicar a sua masculinidade e Laura, debruçada de quatro, despressurizava o que lhe era permitido em tais condições quando Amaro e os seus dois companheiros entram pelo quarto tentando não importunar o casal que apenas se apercebe da visita quando Caroço recebe uma paulada perfeitamente aplicada na cabeça e cai nas costas de Laura que, naquele momento, despressuriza qualquer pressão que ainda pudesse conter no seu interior.

É no meio dos gritos histéricos de Laura que é arrancado, a Caroço, uma das duas masculinidades (felizmente aquela que é mais fácil de desprender) cheirosa a sexo fresco, que rapidamente enche a boca de Laura, quase até à epiglote, e é presa com fita adesiva castanha, de qualidade, e evita mais gritos, desnecessários, quando o objectivo é apenas roubar sem violência mas usufruindo de alguma tranquilidade.
Laura continua histérica e a esbracejar na direcção da casa de banho enquanto tenta desesperadamente dizer-lhes que não precisam fazer-lhe mal e que os valores estão num cofre que se encontra escondido no interior do armário, ao lado do lavatório, mas a única coisa que Amaro ouve é 'humm hum hummm humm hum hum'.
Enquanto Laura esbraceja, um dos companheiros tenta mantê-la imóvel enquanto os outros reviram o quarto à procura de jóias e/ou outros valores.
Laura imagina o que lhe farão tais delinquentes e na situação em que foi apanhada com Caroço que, inconsciente, continua deitado na cama do casal sem qualquer tipo de reacção previsível nas próximas vinte e quatro horas.
Perante a persistência dos 'humms hums hummms humms hums hums' e do constante esbracejar, os três companheiros conferenciam o que farão com Laura, evitando a sua interferência em tão cuidado assalto. Um deles repara na varanda e nas cadeiras que nela se encontram e os olhos de Laura transformam-se rapidamente numa espécie de olhos Garfield[3] (sem sono), saindo das órbitas, observando em terror o mesmo espaço solarengo, concebendo na sua mente a imagem do fim, se ali for deixada ao sol, com uma das masculinidades de Caroço enfiada pela boca, quase até à epiglote, sendo que a sua condição alérgica a levará a uma morte lenta e penosa. Quanto mais esbraceja e emite 'humms hummms hums hums' tentando dizer-lhes que é alérgica à exposição solar em excesso, mais os três ladrões se apressam a transportá-la e amarrá-la pelos braços e tornozelos a uma das cadeiras na varanda fechando a porta de vidro em seguida.
Laura é deixada na varanda, completamente nua e indefesa, amarrada pelos braços e pés ainda dentro dos saltos altos compensados, a uma das cadeiras que lhe permite, através da visão periférica, visualizar o que se passa no interior do quarto, enquanto o sol começa lentamente a tostar a sua pele suave e clara, bem tratada, livre de quaisquer defeitos que possam denunciar a sua idade.


[1] Adrenalina, ou epinefrina, é uma hormona neurotransmissora, derivada da modificação de um aminoácido aromático (Tirosina), segregada pelas glândulas supra-renais. Em momentos de "stress", as glândulas segregam quantidades abundantes desta hormona que prepara o organismo para grandes esforços físicos, estimula o coração, eleva a tensão arterial, relaxa certos músculos e contrai outros. Não serve, portanto, para nada excepto cortar o efeito das drogas que arduamente foram adquiridas à custa do sofrimento alheio.

[2] Coisas várias que, temporariamente, fazem-nos sentir bem.

[3] Gato com olhos esbugalhados[4].

[4] Globos oculares fora da órbita como se fossem saltar da cara.


(continua...)

04 julho, 2012

Hugo Ramos - Entrevista na RDP Internacional sobre o seu novo livro Desequilíbrio


Hugo Ramos em entrevista na RDP Internacional, no dia 04/07/2012, sobre o lançamento do livro Desequilíbrio e também sobre o papel dos novos media e da Internet na vida dos autores contemporâneos e dos leitores em geral.

Obrigado a todos os que ouviram em directo. Para quem não teve oportunidade, fica aqui a gravação integral. Beijos e abraços!

03 julho, 2012

RDP Internacional - Hugo Ramos e António Granado em entrevista (endereço da emissão online)



É já amanhã que vai para o ar a minha entrevista na RDP Internacional.
Para mais fácil acesso à emissão fica no final desta mensagem o endereço da página que devem abrir para ouvir o programa.


Não se esqueçam que pode ser ouvida em todo o mundo bastando para isso que tenham em conta a diferença horária para cada país. Deixo aqui alguns para facilitar:

Portugal Continental e UK - 10:10h e 20:10h
Portugal (Madeira) - 10:10h e 20:10h
Portugal (Açores) - 9:10h e 19:10h
Espanha e Europa central - 11:10h e 21:10h
Europa (este) - 13:10h e 23:10h
Brasil - 06:10h e 16:10h
EUA (costa este) - 05:10h e 15:10h


Espero que gostem! ;)


Endereço da página que devem abrir para ouvir em directo:
http://www.rtp.pt/wportal/popups/player.php?canal=5

02 julho, 2012

Obrigado!

Quando escrevi este livro estava longe de pensar que algum dia chegaria tão longe. Neste momento já não tenho mais objectivos. O que vier será bem recebido.

Tenho que agradecer a todos os leitores e leitoras que fizeram o download e classificaram o livro com as estrelas da iBookstore. A receptividade deu-me forças para continuar e perseguir os meus objectivos pessoais. Continuar a escrever e publicar textos cada vez melhores e capazes de encher o imaginário dos leitores, da mesma forma que enche o meu.

Tenho na calha alguns projectos e estou a aprimorar ideias para os dois livros que tenho em andamento.
Não são fáceis de escrever e exigem muito de mim, num momento em que o tempo não é muito, devido ao meu trabalho e aos estudos que se aproximam em Setembro com a entrada no Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação.

Espero contar sempre com o vosso apoio e que continuem a gostar das minhas palavras.
Um cumprimento especial a todos os que dedicam tempo e vontade a ler-me.. ;)

29 junho, 2012

RDP Internacional - Hugo Ramos e António Granado em entrevista (promo)



Já está online o promo da minha entrevista na RDP Internacional que vai para o ar no próximo dia 04 de Julho às 10:00h da manhã com repetição às 20:00h do mesmo dia.
Falámos do meu livro Desequilíbrio e da Internet em geral.Não percam!! ;)

Aproveito para informar os meus amigos internacionais que a RDP Internacional pode ser ser ouvida em todo o mundo via satélite e Internet. Basta que tenham em conta a diferença horária para o vosso país e entrem no endereço web que vou publicar aqui brevemente! :)


28 junho, 2012

O Poder da Vulnerabilidade

"Eles só falaram da necessidade de dizer 'amo-te' primeiro.
...Só falaram da necessidade de fazer alguma coisa sem garantias.
...Falaram da necessidade de investir numa relação que pode, ou não, resultar.

Deixarmo-nos ser vistos, profundamente vistos, na nossa vulnerabilidade e amar com todo o nosso coração, mesmo sem garantias. Acreditar que somos o suficiente.

Eles acreditam que o que os faz vulneráveis é o que os torna lindos!"

Que palestra fantástica!

(Doutora Brené Brown, Ph.D.)

20 junho, 2012

Encontros Anónimos (4ª parte)

Deixo a porta entreaberta e volto ao meu assento rangedor que não perdeu ainda as suas qualidades sonoras mesmo depois do meu exacerbado empenho.

O silêncio é ensurdecedor. A rua é calma e, no interior da loja, não há um único som que se sobreponha ao tic tac do relógio de parede que, foi-me dito, é mais velho que eu e foi oferecido pela avó do proprietário, ainda em vida da primeira aquando da aquisição do espaço pelo segundo.

Aproveito o momento para observar melhor o relógio. Feito em madeira de castanho, tem formato de campanário mais ou menos com cinquenta centímetros de altura por trinta de largura. Ao centro, uma porta de vidro permite ver um painel metálico dourado com numeração romana nas posições dos pontos cardeais. Por baixo um pequeno pêndulo, redondo, também ele dourado, seguro por uma haste metálica, também ela dourada, passeia-se da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda num movimento contínuo e quase infinito emitindo o famoso tic tac que se sobrepõe ao silêncio ensurdecedor que enche este espaço.
Atentando melhor no tic tac, reparo que é, na realidade, um tic tic tac, o que denota o movimento de, pelo menos, três peças dentadas que realizam uma preparação, um movimento e um retorno. A velharia diz-me que são 17:10h o que entra em contradição com as 17:11h do meu relógio. Acredito mais no meu que no outro e apresso-me a corrigir a hora na parede. Dois relógios em contradição é como ter um relacionamento por mais de dois anos, simplesmente não acontece no meu universo.
O homem do telefonema ainda não veio e eu começo a pensar no que poderá andar a fazer para não ter cumprido a promessa. Estará perdido algures aqui perto? Perdoamos sempre a quem nos deixa em ansiedade. Mas ele disse que trabalhava aqui perto. Será que foi atropelado por um autocarro enquanto atravessava a passadeira? Caiu na linha do metro?
Está um insecto no topo do campanário. Vejo-lhe bem as antenas a tactear o ar em busca de alguma coisa pouco clara para mim.
Mesmo ao lado do campanário, uma janela de montra cheia de luz amarela. A iluminação assume uma forma bastante idade média, com projecções aleatórias sobre o campanário, o que traz à minha mente lembranças de tempos nunca vividos. Devem ser remanências de algum filme épico que vi recentemente mas, ligo os pontos e construo um desenho bastante nítido. A cada pessoa que passa na rua, a projecção escurece e volta como num dia ventoso de nuvens claras. E a cena acontece toda na minha imaginação enquanto o insecto no topo do campanário continua a cortar o ar com as suas antenas em posições acrobáticas. Segundo o meu relógio, toda esta cena medieval dura quinze minutos apesar do relógio do campanário ter percorrido vários pontos cardeais. O insecto do campanário desapareceu no buraco da parede, largo pelo tempo, que acolhe o respectivo suporte. 17:28h. Passaram três mil duzentos e quarenta tic tic tacs!
A porta abre-se! Um cliente! A luz amarela da janela já ilumina a segunda fila de livros na estante mais próxima da rua. Diz-me boa tarde. Respondo-lhe quando já está de costas e vagueia por entre as estantes dispostas paralelamente entre si e perpendicularmente à porta. Não é o homem do telefonema. Espero que não se demore. O homem do telefonema viria ter comigo e pedir o livro que reservou. Entrar numa loja, onde temos um artigo reservado, desperta um senso de responsabilidade que nos impele a falar com a pessoa que atende. Por outro lado poderia apenas ser uma brincadeira. Imagino um homem perturbado que reserva livros em todas as livrarias de Lisboa para gozar com as suas atendentes e provavelmente até está a escrever um livro sobre os telefonemas e no livro dele eu estou aqui ansiosa a passar a tarde em sobressalto cheia de nada para fazer e a ver os minutos em dois relógios ficarem dessincronizados apenas para os corrigir novamente e não poder ir ao café tomar um sumo de laranja porque o homem do telefonema pode aparecer da direcção contrária e eu não o vejo bater com a cara na porta e ele vai embora e eu fico sem saber se ele veio ou não depois de quase três horas de espera.
Será este que entrou e anda a passear e a deixar livros propositadamente desalinhados dos restantes, uns para fora outros para dentro. Os que ficam para dentro são mais difíceis de realinhar pois temos de segurar os que estão ao lado quando os puxamos para fora para que esses não saiam também mais do que os restantes e cruzem a linha que diferencia o meu descanso do meu sobressalto. Os que estão para fora da linha são mais fáceis. Basta uma pancada com o impulso certo e voltam para dentro no alinhamento correcto. Se a pancada não for suficiente volto a dar outra, mais pequena, e geralmente, à segunda tentativa, não falho. Tenho vindo a aperfeiçoar esta técnica ao longo dos anos, o que me permite ser mais eficiente nas arrumações. Ao início falhava muito e os que entravam mais do que deviam ficavam na categoria dos difíceis, aquela em que precisava segurar os do lado para que ao puxá-lo para fora não fizesse os vizinhos cruzar a linha. Existe toda uma técnica associada à arrumação de livros que necessita de treino e paciência para ser desenvolvida e este cliente, que não me parece o homem do telefonema, está a testar a minha paciência e já são 17:51h. Nunca poderia ter uma relação com um homem que não deixa os livros alinhados! Em pouco tempo estrangulava-o. Deve ser por isso que a relação mais duradoura que tive foi com o meu carro... Já dura há 10 anos! 17:52h.
Veio falar comigo para perguntar-me por um livro que não encontra nas prateleiras. Como é isso possível se estão todos por ordem alfabética divididos por autor? O insecto do campanário voltou. Vejo-lhe as antenas por cima do ombro do cliente que, estático, me olha fixamente em busca de uma resposta. Também o insecto do campanário está estático. Ambos parecem esperar algo.
O cliente perde a paciência mais depressa que o insecto do campanário e sai a resmungar. Uma das antenas treme um pouco mais que a outra. Dir-se-ia um tique nervoso. Agora, entra e sai do buraco continuamente. É preto e tem um invólucro reluzente. De tempo a tempo desaparece dentro do buraco na parede. Quando cá fora não fazia nada de especial e tenho quase a certeza que também não fazia nada lá dentro. Sinto-me um pouco como aquele insecto do campanário sem nada para fazer enquanto espero o homem do telefonema que disse que vinha logo depois do almoço na abertura da loja levantar a encomenda do livro do Peixoto e ainda não apareceu. E já só falta uma hora para fechar a loja! Encho-me de coragem e decido ligar ao homem do telefonema. Levanto o auscultador e marco o número que ele deixou comigo quando fez a encomenda do livro do Peixoto. Em resposta, ouço vários sinais de toque, sobrepostos a uma música ligeiramente pop, ligeiramente rock, e começo a preocupar-me com o tempo que estou a ocupar o telefone quando o atendedor automático responde à minha chamada e me pede, com uma voz masculina, de tom grave, que deixe uma mensagem que mais tarde será retornada. A música e a mensagem definem o homem do telefonema perto dos quarenta mas ainda não chegado lá, um pouco solitário, um tanto desiludido com a vida mas que procura refazer-se aos poucos. Não deixo mensagem porque não quero que a minha ansiedade seja detectada. Podia ter inventado uma história qualquer sobre um cliente que estaria ali a querer comprar o livro do Peixoto mas, nesta ansiedade, só me lembro das possíveis mil histórias que poderia ter relatado ao gravador depois de desligar a chamada. O insecto do campanário não está agora visível.
Tenho fome. Preciso ir ao anexo buscar as bolachas que comprei e não sei como deixar a loja vazia. Não posso fechar a porta e possivelmente perder a visita do homem do telefonema.
Subitamente o telefone toca e desta vez nem o deixo terminar o primeiro toque. Atendo, realmente esperançada, mas não passa de um engano. Desligo rapidamente sem responder mas apercebo-me da utilidade daquele telefonema que me deu uma ideia. Pego no pequeno sino que tenho na secretária e dou por mim a imaginar dezenas de maneiras de o colocar no topo da porta de entrada de modo a que me avise do mínimo movimento perpetrado por alguém que decida entrar. Consigo ver agora as antenas do insecto do campanário com a pontinha de fora do buraco na parede. Resisto à tentação de aproximar-me. Poderia ter um instinto do qual iria arrepender-me imediatamente.
Com o sino na mão, olho para as possibilidades existentes de chegar à ombreira da porta e não vejo melhor solução do que usar a minha velha amiga rangedora que ainda apresenta o post-it na racha. Às 18:30 horas em ponto empurro a cadeira com algum esforço, contorno a mesa que me serve de secretária, posiciono-a junto da porta e, devagar, coloco o salto direito no assento testando a sua solidez de modo a impulsionar-me com o outro salto para cima dela. Parece-me estável. Apoio-me nas costas de madeira e, com um impulso, salto para cima do assento posicionando os dois saltos, um pouco afastados, de modo a equilibrar-me o melhor possível. Ouço uns nhec nhecs mas não me movo e os sons param. Estico-me, com o sino na mão, e vou pensando no melhor local para o deixar quando ouço um sonoro partir de madeira e sinto o assento desaparecer debaixo de mim ao mesmo tempo que penso em cinco ou seis maneiras de cair o mais suavemente possível!

(...)

Sou totalmente contra a morte mas Deus parece ser pró-morte. Ainda não consegui desvendar como Ele e eu poderemos, algum dia, chegar a acordo neste tema. Continuo assim a brincar com a morte sabendo que, um dia, com o encobrimento d'Ele, a sacana levará a melhor. Mas, até lá, vou gozando com ela... Somos tudo o que somos até ao dia que deixamos de ser.


(continua...)

17 junho, 2012

O Declínio Da Monarquia

Eu tive dezasseis sem ler "Os Maias"! Foi o que ouvi, ainda mal sentado no café, de uma jovem, bonita, unhas bem arranjadas e cabelo perfeitamente pintado de louro, que aparenta não ter mais de quinze ou dezasseis anos, enquanto chupa avidamente o seu cigarro, branco e fino, que não deve ter custado menos de vinte cêntimos aos pais, ignorantes, que pagam o seu vício sem saber.
Quero acreditar que não sabem porque, se sabem, ainda são mais culpados do desinteresse da jovem que, orgulhosamente, não leu "Os Maias" mas teve um dezasseis.
Pensando bem, o que poderia prender alguém a um medíocre romance que reflecte o declínio da monarquia em Portugal nos finais do século XIX? Portugal já nem tem reis e penso que o último se chamava Carlos, se a memória não me falha, quando foi morto na Praça do Comércio.

Afinal as aventuras e desventuras de três gerações de uma família nobre, mas pobre, que vive em Lisboa na segunda metade do século XIX não tem nada de interessante. Os personagens são apenas fruto da imaginação fértil de um escritor que nem morava em Portugal, o sacana, e, ainda por cima, são perversos e conscientemente incestuosos. Que malvadez intragável a dos nossos governantes que querem, à força, dar a conhecer a estas mentes, virgens de pecado, acontecimentos socialmente reprováveis e comportamentos sexualmente inaceitáveis, ainda por cima ficcionados na imaginação perturbada e conspurcada de um tal Eça. Só o nome é, por si, estranho.

Gostaria de saber quem foi a alma iluminada que deu um dezasseis a esta jovem, bonita, unhas bem arranjadas e cabelo perfeitamente pintado de louro, que aparenta não ter mais de quinze ou dezasseis anos, enquanto chupa o seu cigarro branco e fino, pago pelos pais, ignorantes, produzindo as caretas mais estranhas que a alguma vez a nicotina obrigou, para agradecer-lhe o excelente trabalho que desenvolve e a sua contribuição para a média altíssima que os nossos jovens apresentam em casa, para orgulho dos ignorantes que lhes pagam os cigarros brancos e finos e, ainda assim, compram telemóveis super inteligentes para recompensar o dezasseis, arduamente atingido nas últimas férias da Páscoa.

Mas este é o retrato da sociedade portuguesa do início do século XXI, na ascensão da república, o qual, não tenho dúvidas, seria genialmente retratado por Eça de Queirós caso este génio perturbado, de mente conspurcada, fosse ainda vivo.

15 junho, 2012

Encontros Anónimos (3ª parte)

Só leio autores mortos! Apenas hoje, tomei consciência deste estranho facto e, no entanto, sorrio perante a constatação dos autores mortos. Estão todos mortos. Na realidade, há um que está legalmente vivo mas, para mim, já morreu, ontem à noite, quando me despedi dele.

Agora não passam de palavras sem defesa, vulneráveis, mas, ao mesmo tempo, tão seguras pela intrínseca aceitação de cada um.
É, no entanto, um pouco perturbador que os meus gostos convirjam numa lista de óbitos, cuidadosamente seleccionada e uniformemente ilustre, tendo até, alguns deles, ganho o prémio Nobel da literatura. Valha-nos isso.
Onde estará aquele cliente que reservou o "Nenhum Olhar", do Peixoto, via telefone. Disse-me que viria depois do almoço, na abertura da loja, mas ainda não apareceu. É o último exemplar disponível e ele não aparece.
O único que destoa um pouco na lista, tornando-a até menos ilustre, é o homem que me desprezou. Porque está ele no meio dos meus livros?
Considerando os prémios que o Peixoto já ganhou, não seria difícil vender este mas, o homem do telefonema, pediu que o reservasse, tão educadamente, vou mantê-lo aqui na minha secretária.
Sento-me e o meu corpo assume uma forma rígida e levemente curvada, obedecendo às formas impostas pela única cadeira que tenho na loja. Tem braços, o que já não é mau. Servem para apoiar os cotovelos enquanto dou uma leitura casual por um dos meus óbitos favoritos. Esta lista é divinal e nunca a palavra me soou tão perfeita neste contexto. Quando me reclino, ouço um ranger ligeiro que acusa a idade desta antiguidade que me deixaram aqui para evitar as varizes e, apesar de ligeiro, deixa-me bastante nervosa. Interfere na minha leitura.
São 15:06h e o homem do telefonema não aparece. Disse que vinha à hora da abertura. Continuo a ler mais um pouco mas torna-se difícil neste estado. Ansiedade e leitura não combinam. Levanto-me, mais um ranger de madeira, e dou uma volta pelas prateleiras. Reparo num livro mais saído que os outros. Corrijo a situação rapidamente.
Podia ir tomar um sumo de laranja mas, se ele aparecer enquanto estou no café, vindo do outro lado da rua, não o vejo e ele vai ver a loja fechada. Não vejo solução e não vou. Não consigo evitar olhar para o relógio novamente, 15:23h. Penso em ligar-lhe mas vai parecer que estou a forçar a venda do livro do Peixoto e o Peixoto não precisa que forcem nada. E o pior é que, quando estivesse a ligar-lhe, ele poderia ligar-me para dizer-me que chegaria mais tarde e ouviria o sinal de impedido e eu ficaria sem saber que viria mais tarde. Em simultâneo, eu também ouviria o sinal de impedido e não conseguiria falar com ele.
Volto a sentar-me, mais um ranger perfeitamente ensurdecedor, e bato a ponta dos dedos, sequencialmente, na secretária por uns instantes. Depois faço o mesmo no livro do meu desprezante, aproveitando que a foto da contra-capa está virada para cima. O som é mais abafado mas sinto uma ligeira satisfação em bater-lhe na cara triste, mas risonha, que olha fixamente para mim. Sacana. Tinhas tudo para ser feliz e não quiseste.
Subitamente o som do telefone! Antes que pudesse tocar a segunda vez, atendo para perceber que não é o homem do telefonema. Fico desiludida por ser, apenas, a minha melhor amiga Sofia que quer saber de mim e se estou bem. Digo-lhe que sim e despacho-a num instante. E se o homem do telefonema liga? Vai ouvir o sinal de impedido e provavelmente não ligará novamente. Nunca vou saber se ele queria dizer-me que já não vem ou que já comprou o livro em outra livraria ou que vai chegar um pouco mais tarde. Preciso desligar Sofia, desculpa! E num som de plástico contra plástico, misturado com campainhas de cobre, termino o telefonema com a minha amiga seguido de um ranger de madeira velha que já merecia uma lareira bem ateada. Devagar, recosto-me novamente mas, desta vez, conto o número de rangeres que a cadeira emite persistentemente. Consigo distinguir seis estalidos, o que denota uma racha já antiga. Quando os estalidos são apenas três ou quatro a estrutura ainda está medianamente envelhecida mas, depois dos cinco, é realmente preocupante continuar a sentar-me nesta velharia rachada. O tipo continua a sorrir para mim em cima da secretária. Viro o livro ao contrário apenas para perceber que a capa não é melhor. Onde está o homem do telefonema? São 15:41h.
Vou ranger a cadeira apenas em três estalidos. É como um jogo de paciência em que tenho de parar de exercer o meu peso no momento do terceiro estalido para me sentir vitoriosa sobre um pedaço de madeira inerte que não é melhor que eu. Recosto-me, Tlec, Tlec, Tlec... Tlec! Merda! Já tento daqui a pouco quando ele aparecer. Assim que vender o livro fico mais tranquila e hei-de conseguir. E se colocar um pedaço de papel dobrado na racha? Poderia evitar o quarto estalido. Pego num post-it amarelo e dobro-o, e volto a dobrar, e depois debruço-me de cócoras à procura da infame racha. São três pés curvos, unidos num eixo vertical, que suporta o centro do assento. Não consigo ver a racha e faço força num dos braços para que o som denuncie a falha estrutural que procuro. Joelhos assentes no chão, mão esquerda levantada e ouvidos atentos ao mínimo ruído. Os olhos não são necessários quando a escuridão do nível mais raso que existe está a dois centímetros da minha cara e só vejo sombras. Tenho de usar os dedos assim que o tlec tlec soar para apalpar a madeira e descobrir a maldita racha. Tlec! Apresso-me a passar os dedos pelo eixo vertical e sinto uma reentrância que pode muito bem ser a sacana da racha que provoca e provoca e provoca impunemente. Deixo o dedo a marcar o alvo, pego no post-it dobrado em quatro com a outra mão mas... Não acredito! Está grosso demais para caber na racha. Onde estará aquele homem do telefonema que não aparece. Já são 15:58h.
Preciso de outro post-it. Este não cabe na racha. Levanto-me apenas para sentir a dor nos joelhos provocada pela inusitada situação. Já antes estive nesta posição, e adorei, mas tinha um colchão ortopédico debaixo de mim e ele segurava-me firmemente pela cintura não me deixando escapar às investidas fortes e certeiras. Que saudades. Dobro o post-it em dois. Apesar de não conseguir medir a espessura de um post-it dobrado em dois sei que é, de certeza, metade do post-it dobrado em quatro e o outro parecia ter o dobro da espessura necessária para caber na malvada racha. Perfeito! Entrou como se tivesse sido feito por medida. Volto a sentar-me lentamente com aquele medo da dúvida na missão bem cumprida, ou não. Tlec, tlec... Tlec... Tlec! Porra! Já passa uma hora e meia da hora que o homem do telefonema disse que vinha e nada!
Já estou stressada! Um dia tenho de controlar esta ansiedade. Será que os homens desistem porque sou demasiado ansiosa?
16:34h. De-za-sseis-ho-ras-e-trin-ta-e-qua-tro-mi-nu-tos. Daqui a pouco são sete da tarde!
Preciso ir à casa-de-banho. Porque tinham de fazer a casa-de-banho na mezzanine, num canto tão longe da porta. Se o homem do telefonema chegar não o vejo, talvez o ouça mas não vejo. Vou aguentar um pouco, pode ser que ele chegue entretanto. Sento-me na cadeira e começo a pensar nos óbitos da minha lista ilustre e relaciono-os com a minha vontade de fazer xixi, a somar com a racha que continua a provocar-me... Não se deve conter a vontade da natureza. Pode fazer mal. E começo a imaginar bexigas que explodem e inundam o interior do corpo com líquido tóxico que se espalha pela corrente sanguínea e provocam a morte em minutos. E nem fiz nada, ainda, na minha vida para entrar numa ilustre lista de óbitos a não ser enfiar um post-it, dobrado em dois, numa racha perversa que me mói o juízo constantemente. Pego num post-it e escrevo "Por favor, espere um momento. Estou no WC" e colo-o na porta da loja, mesmo antes de olhar para o relógio (16:59h), subir as escadas que, noto agora, fazem um ranger bastante vigoroso a cada passada enquanto subo a correr para ir à casa-de-banho. Nhec, nhec, nhec, tlec, nhec, tlec, rachas e mais rachas à minha volta!
Deixo a porta aberta para ouvir melhor se alguém entrar na loja. Quando começo a aliviar-me, contraio um pouco os músculos para que o barulho seja menor e não se sobreponha ao mínimo som proveniente do andar de baixo. Malvadas rachas, não me saem da cabeça.
Um barulho na porta. Grande merda... Será o homem do telefonema? Liberto os músculos e apresso-me a terminar o meu serviço fisiológico, nem me importando com a percepção de que alguém poderia estar no andar de baixo a ouvir-me a fazer xixi na casa-de-banho. Desço as escadas a correr, nhec, nhec, nhec, tlec, nhec, tlec. Rachas com fartura mas, mais ninguém. Que estranho. Ouvi um barulho na entrada. Dirijo-me à porta para retirar o post-it para me aperceber que continha mais duas palavras e um ponto de exclamação, escritas à frente da minha mensagem com uma caneta de feltro, bem diferente da Bic que eu usei, para escrever a mensagem inicial. "Por favor, espere um momento. Estou no WC a cagar!". O humor satírico dos portugueses nunca deixa de me surpreender e, apesar de nem terem acertado, apesar de já passar das dezassete horas e do homem do telefonema não ter vindo ainda, esboço um sorriso enquanto amarroto o post-it e o deito no lixo.


(continua...)

11 junho, 2012

Diálogos Improváveis

Normalmente, as conversas laterais não passam de murmúrios. Descartamo-las à esquerda, com a facilidade da falta de interesse, e à direita, com o desprezo que merecem. Há, no entanto, narrativas perfeitas de tão cruas.
Olhando de longe, um casal parece manter uma conversa improvável. Os gestos podem assumir muitos significados. Existe um leque de possibilidades que não se verifica quando estamos na pele de um deles.
Uma narrativa crua abre-nos um número infinito de caminhos e nenhuma é mais crua do que aquela que não ouvimos. O fascínio de observar uma conversa entre surdos (mudos?) é um livro com páginas brancas e o romance é aquele que quisermos. É fazer uso dos restantes sentidos, que nos atraiçoam.

As pessoas preocupam-se em afastar o olhar. São ofensivamente discretas. Não gostam de romances mudos. Estão perante a mais bela forma literária e não querem ver.
É ali, na mesa do café, que o amor acontece. Corpos que falam e se entendem numa dança de movimentos e expressões, de comum acordo, num código próprio de quem fala a mesma língua.
Eu sou intrusivo. Leio, observo e observo... Na esperança de uma pequena linha, de uma palavra que me leve a acreditar que o romance chegará a um final feliz. Cada gesto promove uma ideia de sucesso e, intimamente, deseja-se a felicidade alheia, mesmo que a nossa esteja adormecida.
Um romance lido é bem diferente de um romance visto. Ver um romance é bem melhor que ler um. É assistir a criação em directo! É teatro sem guião e, no final, sem palmas. Os actores retiram-se em silêncio absoluto, como em qualquer final que se preze, deixando apenas as emoções dentro de quem viu.

Os gestos são universais, não têm fronteiras nem credos. São maiores que as barreiras culturais.
Quando se tem esta oportunidade, qualquer desculpa serve para não voltar a casa. Pior ainda, quando a casa espera, vazia de romance, sem gestos, em silêncio. Peço mais um café. Observo e observo, sedento de argumento. Imagino um romance sem ruído, sem gritos, numa paz perturbadora. Um assobio que ecoa, perfeito, pela imaginação.
Ter de olhar os olhos de alguém para comunicar é um descanso para a alma. É a impossibilidade de mentir e a inevitabilidade de ouvir a verdade de quem vê através do outro. Essa ausência de nervosismo poderia potenciar importantes diálogos. Poderia, mesmo, criar confiança inabalável entre amantes.

O bailado continua e continua, capaz de fazer inveja a qualquer cisne branco, ou negro. Os gestos são graciosos e calmos, sem qualquer movimento brusco. Parecem flutuar no ar, como notas musicais, que atravessam espaços para encontrar alojamento em cada um de nós. Podiam ser acompanhados de música mas não faria sentido ouvir duas músicas em simultâneo e, no entanto, nunca páginas em branco fizeram tanto sentido.
Não existem, nestes diálogos improváveis, expressões ofensivas. O amor acontece ali. É imediato.

Comunicar com o corpo é fazer amor com a narrativa!

São momentos como este, indescritíveis, que me fazem entender quão primitivo sou na minha linguagem.
É neste contexto que entendo o que perdemos por falar, o que deixamos de saber por ouvir e o que ganhamos por ver.

07 junho, 2012

Encontros Anónimos (2ª parte)

Acordo a meio da noite, não em sobressalto mas calma, cheia de vontade de fumar um cigarro. O corpo não me pedia descanso e acedi ao desejo. Lembrei-me de algumas cenas da minha vida e retrocedi na memória como se tivesse uma máquina do tempo.
Acendi o cigarro e aspirei o fumo calmamente sentindo a nicotina a percorrer o meu corpo e a chegar ao cérebro. Depois de algumas horas sem fumar é o que sentimos. É uma sensação de calma a apoderar-se de nós e o sangue aquece nas veias. Acende-me um calor interno que me faz despir a camisa de noite.
Olho para o meu corpo nu e, no meio da escuridão, vejo umas faixas de luz que me contornam com um abraço divinal. Na rua, aquele candeeiro ama-me mais do que o homem que me desprezou. O brilho amarelo entra pelas cortinas, sem pedir permissão, e acaricia-me. Não quero que pare.
Passo as mãos pelo peito, descendo e dispersando o calor do tacto. Sinto-me sensual.

Lembro-me do meu primeiro namorado. Foi carinhoso. Namorámos algum tempo e, uma noite, visitou-me na casa onde eu morava. Estava mais nervoso do que eu. Já tinha decidido que seria naquela noite que iria entregar-me a ele. Fizemos amor.
Foi tudo muito novo mas intenso. No final chorei mas não daquelas lágrimas que cansam os demónios. Foram lágrimas de alegria por ter tido uma primeira vez tão carinhosa, com um homem que soube tratar-me como eu sempre desejei.
Desci mais um pouco. Toquei levemente o suave interior das coxas e senti um arrepio. Apertei-as, deixando as mãos no seu interior. O meu corpo acedeu e descobri um prazer novo... O meu toque.
Foi o despertar para um novo lugar na minha vida. O meu lugar. A minha intimidade que só a mim pertencia. Ali estava eu, comigo própria a desejar-me.

O cigarro, no cinzeiro, já tinha ardido até metade e eu continuava. Sentia-me viva. Tenho um corpo lindo e sensual. Adorei-me naquele momento.
Inclinei-me para trás, no sofá, e os braços acompanharam o movimento. Senti-me molhada...
Lentamente abri as pernas e continuei a tocar-me. Não pensei em nenhum homem em particular. Para dizer a verdade, não pensei em nenhum homem. Apenas em mim. Fui egoísta e adorei-me.  Por fim o meu corpo estremeceu no meio de um suspiro... Respirei fundo e, por alguns segundos, revivi cada detalhe da onda de prazer que percorreu o meu corpo, prolongando-a o mais possível até que se desvaneceu por completo.
Nunca tinha sentido este prazer em estar comigo própria e, afinal, só fiz sexo com alguém que amo!
O cigarro apagou-se deixando um rasto de cinza. Acendi outro.

Passou um carro na rua. Não lhe ouvi o som mas as luzes varreram a sala dando-me uma visão câmara lenta do que me rodeia. Embora tenha durado um segundo, na minha consciência durou uma eternidade. A cada pequeno espaço iluminado, vi uma relação com a minha vida. Depois voltou o escuro trespassado pelo brilho amarelo e ténue do candeeiro lá fora. Mais um abraço quente.
Aquela visão varrida trouxe-me muitas memórias mas havia sempre uma que se sobrepunha. Chorei em silêncio. Senti uma pequena lágrima a acariciar-me a cara enquanto descia ao encontro dos meus lábios húmidos pela última passagem da língua. Tinha um sabor salgado que se espalhou pela minha boca enquanto respirava fundo. Misturei-o com o sabor agridoce do cigarro.

Apetece-me ligar-lhe e pego no telemóvel. Vasculho rapidamente a lista de contactos até que reencontro um sorriso familiar. Pergunto-me porque será que as pessoas guardam sempre imagens de caras sorridentes. Será o desejo do subconsciente em fazer os outros felizes? Não gosto de expressões falsas. Aquele sorriso já teve outro significado. Agora não passa de uma boca esticada que mostra os dentes. A minha lista de contactos é composta de cabeças e corpos. Alguns, poucos, significam pessoas. Outros não.
Selecciono este sorriso e vejo os detalhes. O número destaca-se do amontoado de informação. Coleccionamos informação de todos os tipos sobre os corpos que, em algum momento da nossa vida, representaram uma pessoa. Quanto mais informação, mais essa pessoa nos pertence. Até ao dia que deixa de pertencer. No entanto deixamos o corpo na lista. Com o passar do tempo passa a ser mentira e nem o sabemos porque já não usamos a informação para nada. Apesar disso, fica lá, eternamente, porque satisfaz o nosso desejo de posse. E a lista vai crescendo...

Queria partilhar este momento único e está apenas à distância de uma leve pressão sobre um pedaço de vidro. Mas não pressiono. Falta-me a coragem.
Olho para o relógio. Cinco horas. Apago o cigarro.
Inclino a cabeça para trás, num último expirar, ao encontro do sofá e fico a olhar o tecto até que os meus olhos cerram e adormeço.
Dormir é uma coisa maravilhosa. Permite-nos sonhar. Liberta-nos a consciência das leis da física e da moralidade.
Faço-lhe uma visita no quarto enquanto dorme. Roupa espalhada pelo chão, como sempre esteve, sem que alguma vez me importasse. Na verdade, a maioria das vezes não tínhamos tempo de a arrumar.
Deito-me ao seu lado e ele abraça-me. Olho-o por uns momentos e penso como seria bom nunca mais acordar. Coloca a perna por cima das minhas e aconchega-me a cabeça contra o peito. Sinto-me leve, despreocupada e a sua pele tem o toque da seda.

Existem lugares onde não queremos estar mas de onde não queremos sair.

Finalmente o Sol irrompe pela janela e as cortinas deixam de ter importância, tal como o sonho, quando acordo, nua, no sofá. Foi a despedida, sinto-o.
Passei uma noite maravilhosa, que durou uma eternidade, e renasci para viver outro dia. Não me arrependo.
Quando sonhamos, o tempo não corre em paralelo com a realidade. Cinco minutos de sonho podem fazer-nos viver várias horas, vários dias. É como ler um livro. A história demora dez horas a ler mas pode relatar uma vida inteira de acontecimentos. Ler é sonhar acordada.
Finalmente, apercebo-me que o problema não está em pensar que nunca mais vou encontrar alguém que preencha aquele lugar mas, sim, em permitir que alguém ouse preenchê-lo.
Levanto-me do sofá e dirijo-me ao quarto mas, ao sair da sala, agarro-me à porta e olho para o espaço vazio, onde ele não dormiu, e digo-lhe...
Adoro a expressividade do teu silêncio!


(continua...)