Nua e sozinha na varanda, sob a luz escaldante do sol, onde os seus 'humms hums' não desconcentrarão o trabalho em progresso, Laura observa Amaro e os companheiros enquanto estes reviram o quarto.
Caroço dorme o sono mais profundo que alguma vez dormiu na vida, sem perspectivas de acordar. Laura percebe que não adianta continuar a tentar falar com os ladrões e a gastar energia essencial para manter-se viva o mais possível e, assim, ter uma hipótese de ser salva por alguém que, miraculosamente, apareça em sua casa. O seu marido poderia decidir voltar mais cedo, o que não seria uma situação agradável mas, entre a morte lenta e dolorosa da exposição ao sol e consequente e gradual asfixia, limitando a entrada de ar para os pulmões já de si dificultada pelo dispositivo que albergava na boca, e a vergonha de ser encontrada pela família, naquele estado, com um homem de aspecto rude na sua cama, a dormir tranquilamente, e o consequente divórcio, preferiria a vergonha e o divórcio. Tudo é melhor que a morte, especialmente quando esta chega já anunciada e lentamente vai tratando do processo de transporte para local desconhecido. Laura não queria morrer. Tinha assuntos inacabados que, de um momento para o outro, iam chegando à sua mente como fotografias que passam rápido demais numa apresentação projectada na parede branca da sala de reuniões. O desespero tomou conta da sua existência, impotente para se libertar das amarras que a faziam assumir uma forma rígida, qual peça de Tetris em 'S' perfeitamente encaixada noutra peça por baixo dela. Mas não faria linha e a peça debaixo dela não desapareceria num piscar de olhos estrelado juntamente com a soma de um bónus.
Sentia uma pinga de suor que se formara no couro cabeludo, junto às raízes do cabelo quente, a entrar na área da testa e ligeiramente escorrer na direcção do olho direito curvando e contra-curvando, em clara obediência às linhas de rosto, que a atiravam para o canto mais perto do cimo do nariz, onde entraria sem problemas na cavidade ocular. Um ardor que, sabia, salgado mas não poderia provar. Pelo menos, esta gota.
Teria de manter-se calma e respirar lenta e profundamente de modo a oxigenar o cérebro em intervalos regulares[1] que lhe permitissem não sentir falta de oxigénio e sofrer um desmaio que seria bem mais dramático naquela situação delicada.
A pele mais directamente exposta ao sol adquiria, ao estilo de Seurat, um pontilhado vermelho ao mesmo tempo que começava a sentir um pouco de dificuldade em respirar. O objecto fálico na sua boca, quase até à epiglote, deixava um angustiante espaço, reduzido demais, para que o ar passasse fluidamente para os pulmões mas o dispositivo de mudez forçada não permitia a visualização da expressão assustada, qual Grito de Munch, que provavelmente teria naquela hora.
Laura sempre pensou que o seu fim seria mais tarde, honroso, em família, longínquo da devassa praticada a intervalos quinzenais, regulares, e a notícia da sua morte seria capa da mesma revista onde trabalhava arduamente com um cabeçalho digno de registo. Neste momento já se contentava com um cabeçalho vergonhoso que pudesse apreciar, viva, em qualquer outro país.
Subitamente é invadida por um sentimento de remorsos. O marido ter-lhe-ia feito o convite para o acompanhar na viagem mas preferiu ficar em casa e passar uma horas agradáveis com um novo exaustor.
Os minutos passavam e o Sol estava cada vez mais abrasador na pele nua de Laura que, agora, parecia mais a Impressão, de Monet, do que uma pele branca e cuidada. Uma segunda gota de suor iniciava o seu percurso descendo da testa, passando pelo nariz, detendo-se na ponta deste para lentamente acumular mais líquido e cair nos lábios secos. Rapidamente é absorvida e, o sabor salgado, espalha-se, finalmente, pelas papilas gustativas de Laura aliviando um pouco os pensamentos. O calor lembrava-a da sua juventude e das férias que passava junto à praia com os pais e os amores de Verão, que vinham à vez e passavam rapidamente dando lugar aos seguintes. Tudo estaria igual não fosse o facto de agora ser uma importante directora editorial, reconhecida no mundo social, que estava amarrada, a escaldar, sabendo que em pouco tempo estaria numa situação respiratória muito séria.
Da varanda não se via ninguém que pudesse ajudar ou chamar a polícia. O local é ermo e distante de qualquer outra casa.
Um pardal pousa na mesa e olha, curioso, para Laura revirando a cabeça em pequenos, mas rápidos, movimentos. A respiração estava cada vez mais difícil obrigando-a a um auto-controle ainda maior. Olhando aquele pássaro em cima da mesa, apercebe-se que a liberdade não se nota até que não a temos. Pessoas felizes são todas iguais... Pessoas miseráveis, são-no, cada uma à sua maneira[2].
Dentro do quarto a azáfama era grande e parecia não terminar tão cedo quanto a necessidade faria crer que, no final, iriam libertá-la. O grupo roubava tudo o que poderia ter algum valor e não escondia a satisfação enquanto o fazia.
Naquele momento a entrada de ar era já insuficiente para qualquer tipo de pensamento racional e o desespero aumentava. A cabeça de Laura já não tinha forças para aguentar na vertical, balanceando de um lado para o outro com o enfraquecimento do esternocleidomastoideo e dos vários escalenos.
O grupo já não se encontrava no quarto e a possibilidade de a libertarem no final do assalto era agora uma miragem. Nesta fase aceita-se o facto de que a morte é a melhor solução. Os pensamentos dirigiam-se para os filhos e para a oportunidade que desejaria ter de despedir-se e de dizer-lhes que os ama com todo o coração. Nestes momentos de desespero, o amor, é tudo o que ocupa os últimos resquícios de pensamento sóbrio.
O Sol fazia já uma pequena sombra na varanda quando começava a passar por cima do telhado da casa. Num último desespero, Laura tenta saltitar a cadeira para aproximar-se da sombra apenas para aperceber-se que já não tinha forças em qualquer dos músculos do corpo. A sua postura era imóvel, estática e sólida, e as amarras já nem faziam sentido pois, mesmo que removidas, continuaria certamente naquela posição.
Em agonia e dor, ouvindo a pulsação do coração nos ouvidos, tal era o silêncio em que a vida a deixava, vendo a visão periférica a estreitar e uma mancha negra, circular, a fechar-se à volta dos últimos raios de luz que as retinas iriam processar, conseguiu ainda pensar que modo era este, mais estúpido e surreal, de encontrar a morte depois de tanto tempo numa vida cheia e com significado.
Com a aproximação do rigor mortis, Laura parecia agora uma forma grotesca e inchada não devendo nada à beleza anterior que a distinguia entre as suas amigas, todas colegas de ginásio e confidentes das infidelidades quinzenais, e que iriam certamente fazer algumas piadas com a sua morte.
A pele tinha agora um aspecto de levedura, seca e endurecida pelo Sol, inchando e deformando à mercê do calor. A cabeça pendia para a frente numa última reverência, não se sabe bem a quem ou quê.
Um final inusitado para alguém que pretendia apenas um fim-de-semana igual a todos os outros que, quinzenalmente, já tinha passado em perfeita descompressão.
Quando os agentes da autoridade são finalmente chamados, depois da chegada da família e óbvio trauma psicológico para a vida por parte dos filhos, e a retiram da fria cadeira de varanda, tiveram de a carregar na mesma posição em que esteve por largas horas, qual peça de Tetris inanimada que não mais estava encaixada em qualquer outra do mesmo formato. Os músculos rígidos e a coluna vertebral solidificada assim iriam permanecer até que um dia depois, antes da passagem ao estado seguinte[3], o seu corpo ficasse completamente inerte e flexível.
Coitado daquele ingénuo marido que encontrou a sua amada esposa numa situação daquelas e que terá agora de gastar uma fortuna em psico-terapia para os filhos de oito e onze, e talvez até para o próprio, pelos menos nos próximos dez anos, até que estes consigam lidar com a cena visualizada naquele domingo de tarde, queria acreditar que os assaltantes teriam invadido a sua casa, prendido a esposa na varanda e se esqueceram dela quando fugiram, deixando para trás um dos seus colegas que adormeceu na cama luxuosa onde se deitou para descansar um pouco e que, agora, se encontrava sob custódia policial. E assim iria permanecer a sua crença, enquanto o lugar de Laura não fosse preenchido por outra, disposta a uma vida de pouca excitação e fraco estímulo intelectual[4].
[1] Pelo menos de trinta em trinta segundos para que a correcta oxigenação do cérebro seja feita em condições de manter a vida.
[2] Adaptação pretensiosa de uma frase de Лев Николаевич Толстой (Liev Tolstoi).
[3] Livor mortis.
[4] Uma prequela é, por definição, uma marcha em direcção ao inevitável.
(continua...)