29 junho, 2012

RDP Internacional - Hugo Ramos e António Granado em entrevista (promo)



Já está online o promo da minha entrevista na RDP Internacional que vai para o ar no próximo dia 04 de Julho às 10:00h da manhã com repetição às 20:00h do mesmo dia.
Falámos do meu livro Desequilíbrio e da Internet em geral.Não percam!! ;)

Aproveito para informar os meus amigos internacionais que a RDP Internacional pode ser ser ouvida em todo o mundo via satélite e Internet. Basta que tenham em conta a diferença horária para o vosso país e entrem no endereço web que vou publicar aqui brevemente! :)


28 junho, 2012

O Poder da Vulnerabilidade

"Eles só falaram da necessidade de dizer 'amo-te' primeiro.
...Só falaram da necessidade de fazer alguma coisa sem garantias.
...Falaram da necessidade de investir numa relação que pode, ou não, resultar.

Deixarmo-nos ser vistos, profundamente vistos, na nossa vulnerabilidade e amar com todo o nosso coração, mesmo sem garantias. Acreditar que somos o suficiente.

Eles acreditam que o que os faz vulneráveis é o que os torna lindos!"

Que palestra fantástica!

(Doutora Brené Brown, Ph.D.)

20 junho, 2012

Encontros Anónimos (4ª parte)

Deixo a porta entreaberta e volto ao meu assento rangedor que não perdeu ainda as suas qualidades sonoras mesmo depois do meu exacerbado empenho.

O silêncio é ensurdecedor. A rua é calma e, no interior da loja, não há um único som que se sobreponha ao tic tac do relógio de parede que, foi-me dito, é mais velho que eu e foi oferecido pela avó do proprietário, ainda em vida da primeira aquando da aquisição do espaço pelo segundo.

Aproveito o momento para observar melhor o relógio. Feito em madeira de castanho, tem formato de campanário mais ou menos com cinquenta centímetros de altura por trinta de largura. Ao centro, uma porta de vidro permite ver um painel metálico dourado com numeração romana nas posições dos pontos cardeais. Por baixo um pequeno pêndulo, redondo, também ele dourado, seguro por uma haste metálica, também ela dourada, passeia-se da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda num movimento contínuo e quase infinito emitindo o famoso tic tac que se sobrepõe ao silêncio ensurdecedor que enche este espaço.
Atentando melhor no tic tac, reparo que é, na realidade, um tic tic tac, o que denota o movimento de, pelo menos, três peças dentadas que realizam uma preparação, um movimento e um retorno. A velharia diz-me que são 17:10h o que entra em contradição com as 17:11h do meu relógio. Acredito mais no meu que no outro e apresso-me a corrigir a hora na parede. Dois relógios em contradição é como ter um relacionamento por mais de dois anos, simplesmente não acontece no meu universo.
O homem do telefonema ainda não veio e eu começo a pensar no que poderá andar a fazer para não ter cumprido a promessa. Estará perdido algures aqui perto? Perdoamos sempre a quem nos deixa em ansiedade. Mas ele disse que trabalhava aqui perto. Será que foi atropelado por um autocarro enquanto atravessava a passadeira? Caiu na linha do metro?
Está um insecto no topo do campanário. Vejo-lhe bem as antenas a tactear o ar em busca de alguma coisa pouco clara para mim.
Mesmo ao lado do campanário, uma janela de montra cheia de luz amarela. A iluminação assume uma forma bastante idade média, com projecções aleatórias sobre o campanário, o que traz à minha mente lembranças de tempos nunca vividos. Devem ser remanências de algum filme épico que vi recentemente mas, ligo os pontos e construo um desenho bastante nítido. A cada pessoa que passa na rua, a projecção escurece e volta como num dia ventoso de nuvens claras. E a cena acontece toda na minha imaginação enquanto o insecto no topo do campanário continua a cortar o ar com as suas antenas em posições acrobáticas. Segundo o meu relógio, toda esta cena medieval dura quinze minutos apesar do relógio do campanário ter percorrido vários pontos cardeais. O insecto do campanário desapareceu no buraco da parede, largo pelo tempo, que acolhe o respectivo suporte. 17:28h. Passaram três mil duzentos e quarenta tic tic tacs!
A porta abre-se! Um cliente! A luz amarela da janela já ilumina a segunda fila de livros na estante mais próxima da rua. Diz-me boa tarde. Respondo-lhe quando já está de costas e vagueia por entre as estantes dispostas paralelamente entre si e perpendicularmente à porta. Não é o homem do telefonema. Espero que não se demore. O homem do telefonema viria ter comigo e pedir o livro que reservou. Entrar numa loja, onde temos um artigo reservado, desperta um senso de responsabilidade que nos impele a falar com a pessoa que atende. Por outro lado poderia apenas ser uma brincadeira. Imagino um homem perturbado que reserva livros em todas as livrarias de Lisboa para gozar com as suas atendentes e provavelmente até está a escrever um livro sobre os telefonemas e no livro dele eu estou aqui ansiosa a passar a tarde em sobressalto cheia de nada para fazer e a ver os minutos em dois relógios ficarem dessincronizados apenas para os corrigir novamente e não poder ir ao café tomar um sumo de laranja porque o homem do telefonema pode aparecer da direcção contrária e eu não o vejo bater com a cara na porta e ele vai embora e eu fico sem saber se ele veio ou não depois de quase três horas de espera.
Será este que entrou e anda a passear e a deixar livros propositadamente desalinhados dos restantes, uns para fora outros para dentro. Os que ficam para dentro são mais difíceis de realinhar pois temos de segurar os que estão ao lado quando os puxamos para fora para que esses não saiam também mais do que os restantes e cruzem a linha que diferencia o meu descanso do meu sobressalto. Os que estão para fora da linha são mais fáceis. Basta uma pancada com o impulso certo e voltam para dentro no alinhamento correcto. Se a pancada não for suficiente volto a dar outra, mais pequena, e geralmente, à segunda tentativa, não falho. Tenho vindo a aperfeiçoar esta técnica ao longo dos anos, o que me permite ser mais eficiente nas arrumações. Ao início falhava muito e os que entravam mais do que deviam ficavam na categoria dos difíceis, aquela em que precisava segurar os do lado para que ao puxá-lo para fora não fizesse os vizinhos cruzar a linha. Existe toda uma técnica associada à arrumação de livros que necessita de treino e paciência para ser desenvolvida e este cliente, que não me parece o homem do telefonema, está a testar a minha paciência e já são 17:51h. Nunca poderia ter uma relação com um homem que não deixa os livros alinhados! Em pouco tempo estrangulava-o. Deve ser por isso que a relação mais duradoura que tive foi com o meu carro... Já dura há 10 anos! 17:52h.
Veio falar comigo para perguntar-me por um livro que não encontra nas prateleiras. Como é isso possível se estão todos por ordem alfabética divididos por autor? O insecto do campanário voltou. Vejo-lhe as antenas por cima do ombro do cliente que, estático, me olha fixamente em busca de uma resposta. Também o insecto do campanário está estático. Ambos parecem esperar algo.
O cliente perde a paciência mais depressa que o insecto do campanário e sai a resmungar. Uma das antenas treme um pouco mais que a outra. Dir-se-ia um tique nervoso. Agora, entra e sai do buraco continuamente. É preto e tem um invólucro reluzente. De tempo a tempo desaparece dentro do buraco na parede. Quando cá fora não fazia nada de especial e tenho quase a certeza que também não fazia nada lá dentro. Sinto-me um pouco como aquele insecto do campanário sem nada para fazer enquanto espero o homem do telefonema que disse que vinha logo depois do almoço na abertura da loja levantar a encomenda do livro do Peixoto e ainda não apareceu. E já só falta uma hora para fechar a loja! Encho-me de coragem e decido ligar ao homem do telefonema. Levanto o auscultador e marco o número que ele deixou comigo quando fez a encomenda do livro do Peixoto. Em resposta, ouço vários sinais de toque, sobrepostos a uma música ligeiramente pop, ligeiramente rock, e começo a preocupar-me com o tempo que estou a ocupar o telefone quando o atendedor automático responde à minha chamada e me pede, com uma voz masculina, de tom grave, que deixe uma mensagem que mais tarde será retornada. A música e a mensagem definem o homem do telefonema perto dos quarenta mas ainda não chegado lá, um pouco solitário, um tanto desiludido com a vida mas que procura refazer-se aos poucos. Não deixo mensagem porque não quero que a minha ansiedade seja detectada. Podia ter inventado uma história qualquer sobre um cliente que estaria ali a querer comprar o livro do Peixoto mas, nesta ansiedade, só me lembro das possíveis mil histórias que poderia ter relatado ao gravador depois de desligar a chamada. O insecto do campanário não está agora visível.
Tenho fome. Preciso ir ao anexo buscar as bolachas que comprei e não sei como deixar a loja vazia. Não posso fechar a porta e possivelmente perder a visita do homem do telefonema.
Subitamente o telefone toca e desta vez nem o deixo terminar o primeiro toque. Atendo, realmente esperançada, mas não passa de um engano. Desligo rapidamente sem responder mas apercebo-me da utilidade daquele telefonema que me deu uma ideia. Pego no pequeno sino que tenho na secretária e dou por mim a imaginar dezenas de maneiras de o colocar no topo da porta de entrada de modo a que me avise do mínimo movimento perpetrado por alguém que decida entrar. Consigo ver agora as antenas do insecto do campanário com a pontinha de fora do buraco na parede. Resisto à tentação de aproximar-me. Poderia ter um instinto do qual iria arrepender-me imediatamente.
Com o sino na mão, olho para as possibilidades existentes de chegar à ombreira da porta e não vejo melhor solução do que usar a minha velha amiga rangedora que ainda apresenta o post-it na racha. Às 18:30 horas em ponto empurro a cadeira com algum esforço, contorno a mesa que me serve de secretária, posiciono-a junto da porta e, devagar, coloco o salto direito no assento testando a sua solidez de modo a impulsionar-me com o outro salto para cima dela. Parece-me estável. Apoio-me nas costas de madeira e, com um impulso, salto para cima do assento posicionando os dois saltos, um pouco afastados, de modo a equilibrar-me o melhor possível. Ouço uns nhec nhecs mas não me movo e os sons param. Estico-me, com o sino na mão, e vou pensando no melhor local para o deixar quando ouço um sonoro partir de madeira e sinto o assento desaparecer debaixo de mim ao mesmo tempo que penso em cinco ou seis maneiras de cair o mais suavemente possível!

(...)

Sou totalmente contra a morte mas Deus parece ser pró-morte. Ainda não consegui desvendar como Ele e eu poderemos, algum dia, chegar a acordo neste tema. Continuo assim a brincar com a morte sabendo que, um dia, com o encobrimento d'Ele, a sacana levará a melhor. Mas, até lá, vou gozando com ela... Somos tudo o que somos até ao dia que deixamos de ser.


(continua...)

17 junho, 2012

O Declínio Da Monarquia

Eu tive dezasseis sem ler "Os Maias"! Foi o que ouvi, ainda mal sentado no café, de uma jovem, bonita, unhas bem arranjadas e cabelo perfeitamente pintado de louro, que aparenta não ter mais de quinze ou dezasseis anos, enquanto chupa avidamente o seu cigarro, branco e fino, que não deve ter custado menos de vinte cêntimos aos pais, ignorantes, que pagam o seu vício sem saber.
Quero acreditar que não sabem porque, se sabem, ainda são mais culpados do desinteresse da jovem que, orgulhosamente, não leu "Os Maias" mas teve um dezasseis.
Pensando bem, o que poderia prender alguém a um medíocre romance que reflecte o declínio da monarquia em Portugal nos finais do século XIX? Portugal já nem tem reis e penso que o último se chamava Carlos, se a memória não me falha, quando foi morto na Praça do Comércio.

Afinal as aventuras e desventuras de três gerações de uma família nobre, mas pobre, que vive em Lisboa na segunda metade do século XIX não tem nada de interessante. Os personagens são apenas fruto da imaginação fértil de um escritor que nem morava em Portugal, o sacana, e, ainda por cima, são perversos e conscientemente incestuosos. Que malvadez intragável a dos nossos governantes que querem, à força, dar a conhecer a estas mentes, virgens de pecado, acontecimentos socialmente reprováveis e comportamentos sexualmente inaceitáveis, ainda por cima ficcionados na imaginação perturbada e conspurcada de um tal Eça. Só o nome é, por si, estranho.

Gostaria de saber quem foi a alma iluminada que deu um dezasseis a esta jovem, bonita, unhas bem arranjadas e cabelo perfeitamente pintado de louro, que aparenta não ter mais de quinze ou dezasseis anos, enquanto chupa o seu cigarro branco e fino, pago pelos pais, ignorantes, produzindo as caretas mais estranhas que a alguma vez a nicotina obrigou, para agradecer-lhe o excelente trabalho que desenvolve e a sua contribuição para a média altíssima que os nossos jovens apresentam em casa, para orgulho dos ignorantes que lhes pagam os cigarros brancos e finos e, ainda assim, compram telemóveis super inteligentes para recompensar o dezasseis, arduamente atingido nas últimas férias da Páscoa.

Mas este é o retrato da sociedade portuguesa do início do século XXI, na ascensão da república, o qual, não tenho dúvidas, seria genialmente retratado por Eça de Queirós caso este génio perturbado, de mente conspurcada, fosse ainda vivo.

15 junho, 2012

Encontros Anónimos (3ª parte)

Só leio autores mortos! Apenas hoje, tomei consciência deste estranho facto e, no entanto, sorrio perante a constatação dos autores mortos. Estão todos mortos. Na realidade, há um que está legalmente vivo mas, para mim, já morreu, ontem à noite, quando me despedi dele.

Agora não passam de palavras sem defesa, vulneráveis, mas, ao mesmo tempo, tão seguras pela intrínseca aceitação de cada um.
É, no entanto, um pouco perturbador que os meus gostos convirjam numa lista de óbitos, cuidadosamente seleccionada e uniformemente ilustre, tendo até, alguns deles, ganho o prémio Nobel da literatura. Valha-nos isso.
Onde estará aquele cliente que reservou o "Nenhum Olhar", do Peixoto, via telefone. Disse-me que viria depois do almoço, na abertura da loja, mas ainda não apareceu. É o último exemplar disponível e ele não aparece.
O único que destoa um pouco na lista, tornando-a até menos ilustre, é o homem que me desprezou. Porque está ele no meio dos meus livros?
Considerando os prémios que o Peixoto já ganhou, não seria difícil vender este mas, o homem do telefonema, pediu que o reservasse, tão educadamente, vou mantê-lo aqui na minha secretária.
Sento-me e o meu corpo assume uma forma rígida e levemente curvada, obedecendo às formas impostas pela única cadeira que tenho na loja. Tem braços, o que já não é mau. Servem para apoiar os cotovelos enquanto dou uma leitura casual por um dos meus óbitos favoritos. Esta lista é divinal e nunca a palavra me soou tão perfeita neste contexto. Quando me reclino, ouço um ranger ligeiro que acusa a idade desta antiguidade que me deixaram aqui para evitar as varizes e, apesar de ligeiro, deixa-me bastante nervosa. Interfere na minha leitura.
São 15:06h e o homem do telefonema não aparece. Disse que vinha à hora da abertura. Continuo a ler mais um pouco mas torna-se difícil neste estado. Ansiedade e leitura não combinam. Levanto-me, mais um ranger de madeira, e dou uma volta pelas prateleiras. Reparo num livro mais saído que os outros. Corrijo a situação rapidamente.
Podia ir tomar um sumo de laranja mas, se ele aparecer enquanto estou no café, vindo do outro lado da rua, não o vejo e ele vai ver a loja fechada. Não vejo solução e não vou. Não consigo evitar olhar para o relógio novamente, 15:23h. Penso em ligar-lhe mas vai parecer que estou a forçar a venda do livro do Peixoto e o Peixoto não precisa que forcem nada. E o pior é que, quando estivesse a ligar-lhe, ele poderia ligar-me para dizer-me que chegaria mais tarde e ouviria o sinal de impedido e eu ficaria sem saber que viria mais tarde. Em simultâneo, eu também ouviria o sinal de impedido e não conseguiria falar com ele.
Volto a sentar-me, mais um ranger perfeitamente ensurdecedor, e bato a ponta dos dedos, sequencialmente, na secretária por uns instantes. Depois faço o mesmo no livro do meu desprezante, aproveitando que a foto da contra-capa está virada para cima. O som é mais abafado mas sinto uma ligeira satisfação em bater-lhe na cara triste, mas risonha, que olha fixamente para mim. Sacana. Tinhas tudo para ser feliz e não quiseste.
Subitamente o som do telefone! Antes que pudesse tocar a segunda vez, atendo para perceber que não é o homem do telefonema. Fico desiludida por ser, apenas, a minha melhor amiga Sofia que quer saber de mim e se estou bem. Digo-lhe que sim e despacho-a num instante. E se o homem do telefonema liga? Vai ouvir o sinal de impedido e provavelmente não ligará novamente. Nunca vou saber se ele queria dizer-me que já não vem ou que já comprou o livro em outra livraria ou que vai chegar um pouco mais tarde. Preciso desligar Sofia, desculpa! E num som de plástico contra plástico, misturado com campainhas de cobre, termino o telefonema com a minha amiga seguido de um ranger de madeira velha que já merecia uma lareira bem ateada. Devagar, recosto-me novamente mas, desta vez, conto o número de rangeres que a cadeira emite persistentemente. Consigo distinguir seis estalidos, o que denota uma racha já antiga. Quando os estalidos são apenas três ou quatro a estrutura ainda está medianamente envelhecida mas, depois dos cinco, é realmente preocupante continuar a sentar-me nesta velharia rachada. O tipo continua a sorrir para mim em cima da secretária. Viro o livro ao contrário apenas para perceber que a capa não é melhor. Onde está o homem do telefonema? São 15:41h.
Vou ranger a cadeira apenas em três estalidos. É como um jogo de paciência em que tenho de parar de exercer o meu peso no momento do terceiro estalido para me sentir vitoriosa sobre um pedaço de madeira inerte que não é melhor que eu. Recosto-me, Tlec, Tlec, Tlec... Tlec! Merda! Já tento daqui a pouco quando ele aparecer. Assim que vender o livro fico mais tranquila e hei-de conseguir. E se colocar um pedaço de papel dobrado na racha? Poderia evitar o quarto estalido. Pego num post-it amarelo e dobro-o, e volto a dobrar, e depois debruço-me de cócoras à procura da infame racha. São três pés curvos, unidos num eixo vertical, que suporta o centro do assento. Não consigo ver a racha e faço força num dos braços para que o som denuncie a falha estrutural que procuro. Joelhos assentes no chão, mão esquerda levantada e ouvidos atentos ao mínimo ruído. Os olhos não são necessários quando a escuridão do nível mais raso que existe está a dois centímetros da minha cara e só vejo sombras. Tenho de usar os dedos assim que o tlec tlec soar para apalpar a madeira e descobrir a maldita racha. Tlec! Apresso-me a passar os dedos pelo eixo vertical e sinto uma reentrância que pode muito bem ser a sacana da racha que provoca e provoca e provoca impunemente. Deixo o dedo a marcar o alvo, pego no post-it dobrado em quatro com a outra mão mas... Não acredito! Está grosso demais para caber na racha. Onde estará aquele homem do telefonema que não aparece. Já são 15:58h.
Preciso de outro post-it. Este não cabe na racha. Levanto-me apenas para sentir a dor nos joelhos provocada pela inusitada situação. Já antes estive nesta posição, e adorei, mas tinha um colchão ortopédico debaixo de mim e ele segurava-me firmemente pela cintura não me deixando escapar às investidas fortes e certeiras. Que saudades. Dobro o post-it em dois. Apesar de não conseguir medir a espessura de um post-it dobrado em dois sei que é, de certeza, metade do post-it dobrado em quatro e o outro parecia ter o dobro da espessura necessária para caber na malvada racha. Perfeito! Entrou como se tivesse sido feito por medida. Volto a sentar-me lentamente com aquele medo da dúvida na missão bem cumprida, ou não. Tlec, tlec... Tlec... Tlec! Porra! Já passa uma hora e meia da hora que o homem do telefonema disse que vinha e nada!
Já estou stressada! Um dia tenho de controlar esta ansiedade. Será que os homens desistem porque sou demasiado ansiosa?
16:34h. De-za-sseis-ho-ras-e-trin-ta-e-qua-tro-mi-nu-tos. Daqui a pouco são sete da tarde!
Preciso ir à casa-de-banho. Porque tinham de fazer a casa-de-banho na mezzanine, num canto tão longe da porta. Se o homem do telefonema chegar não o vejo, talvez o ouça mas não vejo. Vou aguentar um pouco, pode ser que ele chegue entretanto. Sento-me na cadeira e começo a pensar nos óbitos da minha lista ilustre e relaciono-os com a minha vontade de fazer xixi, a somar com a racha que continua a provocar-me... Não se deve conter a vontade da natureza. Pode fazer mal. E começo a imaginar bexigas que explodem e inundam o interior do corpo com líquido tóxico que se espalha pela corrente sanguínea e provocam a morte em minutos. E nem fiz nada, ainda, na minha vida para entrar numa ilustre lista de óbitos a não ser enfiar um post-it, dobrado em dois, numa racha perversa que me mói o juízo constantemente. Pego num post-it e escrevo "Por favor, espere um momento. Estou no WC" e colo-o na porta da loja, mesmo antes de olhar para o relógio (16:59h), subir as escadas que, noto agora, fazem um ranger bastante vigoroso a cada passada enquanto subo a correr para ir à casa-de-banho. Nhec, nhec, nhec, tlec, nhec, tlec, rachas e mais rachas à minha volta!
Deixo a porta aberta para ouvir melhor se alguém entrar na loja. Quando começo a aliviar-me, contraio um pouco os músculos para que o barulho seja menor e não se sobreponha ao mínimo som proveniente do andar de baixo. Malvadas rachas, não me saem da cabeça.
Um barulho na porta. Grande merda... Será o homem do telefonema? Liberto os músculos e apresso-me a terminar o meu serviço fisiológico, nem me importando com a percepção de que alguém poderia estar no andar de baixo a ouvir-me a fazer xixi na casa-de-banho. Desço as escadas a correr, nhec, nhec, nhec, tlec, nhec, tlec. Rachas com fartura mas, mais ninguém. Que estranho. Ouvi um barulho na entrada. Dirijo-me à porta para retirar o post-it para me aperceber que continha mais duas palavras e um ponto de exclamação, escritas à frente da minha mensagem com uma caneta de feltro, bem diferente da Bic que eu usei, para escrever a mensagem inicial. "Por favor, espere um momento. Estou no WC a cagar!". O humor satírico dos portugueses nunca deixa de me surpreender e, apesar de nem terem acertado, apesar de já passar das dezassete horas e do homem do telefonema não ter vindo ainda, esboço um sorriso enquanto amarroto o post-it e o deito no lixo.


(continua...)

11 junho, 2012

Diálogos Improváveis

Normalmente, as conversas laterais não passam de murmúrios. Descartamo-las à esquerda, com a facilidade da falta de interesse, e à direita, com o desprezo que merecem. Há, no entanto, narrativas perfeitas de tão cruas.
Olhando de longe, um casal parece manter uma conversa improvável. Os gestos podem assumir muitos significados. Existe um leque de possibilidades que não se verifica quando estamos na pele de um deles.
Uma narrativa crua abre-nos um número infinito de caminhos e nenhuma é mais crua do que aquela que não ouvimos. O fascínio de observar uma conversa entre surdos (mudos?) é um livro com páginas brancas e o romance é aquele que quisermos. É fazer uso dos restantes sentidos, que nos atraiçoam.

As pessoas preocupam-se em afastar o olhar. São ofensivamente discretas. Não gostam de romances mudos. Estão perante a mais bela forma literária e não querem ver.
É ali, na mesa do café, que o amor acontece. Corpos que falam e se entendem numa dança de movimentos e expressões, de comum acordo, num código próprio de quem fala a mesma língua.
Eu sou intrusivo. Leio, observo e observo... Na esperança de uma pequena linha, de uma palavra que me leve a acreditar que o romance chegará a um final feliz. Cada gesto promove uma ideia de sucesso e, intimamente, deseja-se a felicidade alheia, mesmo que a nossa esteja adormecida.
Um romance lido é bem diferente de um romance visto. Ver um romance é bem melhor que ler um. É assistir a criação em directo! É teatro sem guião e, no final, sem palmas. Os actores retiram-se em silêncio absoluto, como em qualquer final que se preze, deixando apenas as emoções dentro de quem viu.

Os gestos são universais, não têm fronteiras nem credos. São maiores que as barreiras culturais.
Quando se tem esta oportunidade, qualquer desculpa serve para não voltar a casa. Pior ainda, quando a casa espera, vazia de romance, sem gestos, em silêncio. Peço mais um café. Observo e observo, sedento de argumento. Imagino um romance sem ruído, sem gritos, numa paz perturbadora. Um assobio que ecoa, perfeito, pela imaginação.
Ter de olhar os olhos de alguém para comunicar é um descanso para a alma. É a impossibilidade de mentir e a inevitabilidade de ouvir a verdade de quem vê através do outro. Essa ausência de nervosismo poderia potenciar importantes diálogos. Poderia, mesmo, criar confiança inabalável entre amantes.

O bailado continua e continua, capaz de fazer inveja a qualquer cisne branco, ou negro. Os gestos são graciosos e calmos, sem qualquer movimento brusco. Parecem flutuar no ar, como notas musicais, que atravessam espaços para encontrar alojamento em cada um de nós. Podiam ser acompanhados de música mas não faria sentido ouvir duas músicas em simultâneo e, no entanto, nunca páginas em branco fizeram tanto sentido.
Não existem, nestes diálogos improváveis, expressões ofensivas. O amor acontece ali. É imediato.

Comunicar com o corpo é fazer amor com a narrativa!

São momentos como este, indescritíveis, que me fazem entender quão primitivo sou na minha linguagem.
É neste contexto que entendo o que perdemos por falar, o que deixamos de saber por ouvir e o que ganhamos por ver.

07 junho, 2012

Encontros Anónimos (2ª parte)

Acordo a meio da noite, não em sobressalto mas calma, cheia de vontade de fumar um cigarro. O corpo não me pedia descanso e acedi ao desejo. Lembrei-me de algumas cenas da minha vida e retrocedi na memória como se tivesse uma máquina do tempo.
Acendi o cigarro e aspirei o fumo calmamente sentindo a nicotina a percorrer o meu corpo e a chegar ao cérebro. Depois de algumas horas sem fumar é o que sentimos. É uma sensação de calma a apoderar-se de nós e o sangue aquece nas veias. Acende-me um calor interno que me faz despir a camisa de noite.
Olho para o meu corpo nu e, no meio da escuridão, vejo umas faixas de luz que me contornam com um abraço divinal. Na rua, aquele candeeiro ama-me mais do que o homem que me desprezou. O brilho amarelo entra pelas cortinas, sem pedir permissão, e acaricia-me. Não quero que pare.
Passo as mãos pelo peito, descendo e dispersando o calor do tacto. Sinto-me sensual.

Lembro-me do meu primeiro namorado. Foi carinhoso. Namorámos algum tempo e, uma noite, visitou-me na casa onde eu morava. Estava mais nervoso do que eu. Já tinha decidido que seria naquela noite que iria entregar-me a ele. Fizemos amor.
Foi tudo muito novo mas intenso. No final chorei mas não daquelas lágrimas que cansam os demónios. Foram lágrimas de alegria por ter tido uma primeira vez tão carinhosa, com um homem que soube tratar-me como eu sempre desejei.
Desci mais um pouco. Toquei levemente o suave interior das coxas e senti um arrepio. Apertei-as, deixando as mãos no seu interior. O meu corpo acedeu e descobri um prazer novo... O meu toque.
Foi o despertar para um novo lugar na minha vida. O meu lugar. A minha intimidade que só a mim pertencia. Ali estava eu, comigo própria a desejar-me.

O cigarro, no cinzeiro, já tinha ardido até metade e eu continuava. Sentia-me viva. Tenho um corpo lindo e sensual. Adorei-me naquele momento.
Inclinei-me para trás, no sofá, e os braços acompanharam o movimento. Senti-me molhada...
Lentamente abri as pernas e continuei a tocar-me. Não pensei em nenhum homem em particular. Para dizer a verdade, não pensei em nenhum homem. Apenas em mim. Fui egoísta e adorei-me.  Por fim o meu corpo estremeceu no meio de um suspiro... Respirei fundo e, por alguns segundos, revivi cada detalhe da onda de prazer que percorreu o meu corpo, prolongando-a o mais possível até que se desvaneceu por completo.
Nunca tinha sentido este prazer em estar comigo própria e, afinal, só fiz sexo com alguém que amo!
O cigarro apagou-se deixando um rasto de cinza. Acendi outro.

Passou um carro na rua. Não lhe ouvi o som mas as luzes varreram a sala dando-me uma visão câmara lenta do que me rodeia. Embora tenha durado um segundo, na minha consciência durou uma eternidade. A cada pequeno espaço iluminado, vi uma relação com a minha vida. Depois voltou o escuro trespassado pelo brilho amarelo e ténue do candeeiro lá fora. Mais um abraço quente.
Aquela visão varrida trouxe-me muitas memórias mas havia sempre uma que se sobrepunha. Chorei em silêncio. Senti uma pequena lágrima a acariciar-me a cara enquanto descia ao encontro dos meus lábios húmidos pela última passagem da língua. Tinha um sabor salgado que se espalhou pela minha boca enquanto respirava fundo. Misturei-o com o sabor agridoce do cigarro.

Apetece-me ligar-lhe e pego no telemóvel. Vasculho rapidamente a lista de contactos até que reencontro um sorriso familiar. Pergunto-me porque será que as pessoas guardam sempre imagens de caras sorridentes. Será o desejo do subconsciente em fazer os outros felizes? Não gosto de expressões falsas. Aquele sorriso já teve outro significado. Agora não passa de uma boca esticada que mostra os dentes. A minha lista de contactos é composta de cabeças e corpos. Alguns, poucos, significam pessoas. Outros não.
Selecciono este sorriso e vejo os detalhes. O número destaca-se do amontoado de informação. Coleccionamos informação de todos os tipos sobre os corpos que, em algum momento da nossa vida, representaram uma pessoa. Quanto mais informação, mais essa pessoa nos pertence. Até ao dia que deixa de pertencer. No entanto deixamos o corpo na lista. Com o passar do tempo passa a ser mentira e nem o sabemos porque já não usamos a informação para nada. Apesar disso, fica lá, eternamente, porque satisfaz o nosso desejo de posse. E a lista vai crescendo...

Queria partilhar este momento único e está apenas à distância de uma leve pressão sobre um pedaço de vidro. Mas não pressiono. Falta-me a coragem.
Olho para o relógio. Cinco horas. Apago o cigarro.
Inclino a cabeça para trás, num último expirar, ao encontro do sofá e fico a olhar o tecto até que os meus olhos cerram e adormeço.
Dormir é uma coisa maravilhosa. Permite-nos sonhar. Liberta-nos a consciência das leis da física e da moralidade.
Faço-lhe uma visita no quarto enquanto dorme. Roupa espalhada pelo chão, como sempre esteve, sem que alguma vez me importasse. Na verdade, a maioria das vezes não tínhamos tempo de a arrumar.
Deito-me ao seu lado e ele abraça-me. Olho-o por uns momentos e penso como seria bom nunca mais acordar. Coloca a perna por cima das minhas e aconchega-me a cabeça contra o peito. Sinto-me leve, despreocupada e a sua pele tem o toque da seda.

Existem lugares onde não queremos estar mas de onde não queremos sair.

Finalmente o Sol irrompe pela janela e as cortinas deixam de ter importância, tal como o sonho, quando acordo, nua, no sofá. Foi a despedida, sinto-o.
Passei uma noite maravilhosa, que durou uma eternidade, e renasci para viver outro dia. Não me arrependo.
Quando sonhamos, o tempo não corre em paralelo com a realidade. Cinco minutos de sonho podem fazer-nos viver várias horas, vários dias. É como ler um livro. A história demora dez horas a ler mas pode relatar uma vida inteira de acontecimentos. Ler é sonhar acordada.
Finalmente, apercebo-me que o problema não está em pensar que nunca mais vou encontrar alguém que preencha aquele lugar mas, sim, em permitir que alguém ouse preenchê-lo.
Levanto-me do sofá e dirijo-me ao quarto mas, ao sair da sala, agarro-me à porta e olho para o espaço vazio, onde ele não dormiu, e digo-lhe...
Adoro a expressividade do teu silêncio!


(continua...)

05 junho, 2012

O Amor...

A incompreensível satisfação em sentir-me fraco traduz-se em pouco mais do que isto.
O amor é sairmos de nós e vermo-nos em outro, cuja parte, completa um todo quando nos toca... A mão, a alma...
Amor é ser cego e ver todo o meu eu, à minha frente, a desejar voltar a mim sem nunca ter-me pertencido. O amor é ser surdo e ouvir o chamamento de quem nos deseja e viola a alma com carinho. É ser mudo e atingir o mundo com o mais alto grito de alegria e dor, cantando a todos os outros a minha insignificante presença...
Amor é um sofrer prazeroso e um prazer sofrido e perdoar tudo e ter medo... E nunca mais querer morrer.



The incomprehensible satisfaction in feeling weak translates into little more than this.
Love is to leave our inner self and see ourselves in the other, whose part, completes the whole when she touches us... The hand, the soul ...
Love is to be blind and see the whole of my self, in front of me, wanting to return to me without ever having belonged to me. Love is to be deaf and hear the call of those who fondly desire and violate our soul. It's being mute and reach the world with the loudest scream of joy and pain, singing to all my insignificant presence ...
Love is a pleasurable suffering and a suffered pleasure and to forgive everything and to be afraid... And never more wanting to die.

04 junho, 2012

Encontros Anónimos (1ª parte)

Adoro fazer uma pessoa chorar! Adoro o significado daquele acto libertador. Quando uma pessoa chora genuinamente, o seu castelo está completamente desprotegido, de porta aberta para quem ali passar.
Quando oferecemos um carinho, por mais pequeno que seja, a uma pessoa que chora, esse acto jamais será esquecido. Esse pequeno gesto assume um valor de proporções épicas que dificilmente não será traduzido numa troca.
Adoro fazer uma pessoa chorar... Não há nada de mal em chorar. Chorar cansa-nos os demónios da dor.

Nos últimos tempos já não choro. Não me sinto cansada e no entanto não tenho sono. Quando temos insónias o mundo parece estranho. Tudo fica mais lento. As pessoas afastam-se e ficam mais pequenas. Deixamos o nosso corpo e observamos tudo, incluindo nós próprios. Consigo ver-me de um modo que nunca vi antes e reparo em pequenos detalhes que nem sabia que existiam.
Depois vêm os pesadelos. Ficamos num estado de hipnose sonolenta que está naquela fronteira entre o dormir e o estar acordado. No entanto sonhamos, e não é nada bonito. Acordamos aos gritos!
Quando isso me acontece, vou para a sala e fumo um cigarro no escuro da noite. Aprecio o silêncio absoluto que me rodeia e vejo o fumo subir na vertical. Não há uma única corrente de ar.
Consigo ouvir as pequenas folhas de tabaco que ardem com mais vigor a cada aspiração... Amanhã é outro dia.

Olhei os anúncios no painel à entrada do centro comunitário de Lisboa vasculhando, na diagonal, os papéis pendurados aleatoriamente, à procura de uma mancha familiar que me deixasse tranquila.
Finalmente, algo descansa a minha mente. "Reunião dos Neuróticos Anónimos". Observei melhor o anúncio e procurei, na minha desmembrada agenda de 2006, uma compatibilidade com o único dia que permanecia um buraco na minha vida. "Todas as sextas às 21:00 horas". Perfeito!

Passei por muito na vida. Momentos de felicidade, como toda a gente, mas também muitos momentos de infelicidade. Não era uma mulher normal, ou pensava que não era. A minha mente era frágil e emotiva.
Recentemente tinha sido levada a acreditar que era amada e amei muito. Amei demais. No dia do choque perdi os sentidos e senti um vazio tão grande que me fez permanecer inanimada na frente do computador algumas horas até que uma amiga decidiu que aquilo era demais e veio dar-me o ombro. Na realidade deu-me um ombro, depois o outro, os braços e, quando me deu o peito, já pouco tinha para dar que conseguisse amparar tanta dor.

Passado algum tempo, já conseguia sorrir. Tinha um sorriso doce mas notava-se a mágoa recente que se tinha apoderado de mim e que me fez procurar, por todos os meios, não estar sozinha.
Às segundas frequentava os narcóticos anónimos e, nas terças, inventava histórias de sucesso para os alcoólicos, antes de passar pelo Bairro Alto e beber um alentejano de Reguengos com a minha amiga de longa data que me deu todas as partes do corpo mas que, nas últimas semanas, já as tinha recuperado.
Durante esses encontros partilhava as histórias que inventava nos grupos de apoio e também as que ouvia. Sofia espantava-se com o estado em que a sociedade se encontra.

Caroço (nome de guerra que usou anos a fio quando vagueava pelas ruas do Casal Ventoso), um frequentador antigo dos narcóticos anónimos, tinha problemas hormonais. As doses cavalares de heroína, ingeridas desde a sua juventude, alteraram-lhe o desenvolvimento do corpo e os seus peitos apresentavam uma voluptuosidade extra que, se era bastante fora do comum numa mulher, era de muito mau gosto num homem de mais ou menos trinta anos mas que aparentava quarenta e muitos.

Em contraste, Aníbal era um engatatão nato convertido ao álcool. A vida correu-lhe mal quando a mulher arranjou melhor, o que não foi difícil, e o abandonou na sua triste vida levando com ela os dois filhos e o dinheiro da conta bancária. Quando caiu na realidade, dedicou-se a engatar mulheres de meia, e também completa, idade que lhe pagavam jantares e copos em troca de alguns favores mais íntimos, o que lhe permitia, por acréscimo, umas noites mal passadas em colchões dignos do nome.

Passando para o sexo oposto, e de muito sexo se tratava, havia ainda Olga, uma ninfomaníaca de trinta e poucos que frequentava o grupo das quartas. Olga descobriu que era uma predadora sexual quando o homem que levou para casa naquela noite não aguentou a conjugação de Viagra com o extremo exercício físico a que foi submetido e teve um ataque cardíaco enquanto a agarrava pela cintura, caindo nas suas costas mais duro que o membro incapaz de saciar a pobre mulher em necessidade.
Durante algumas semanas, nas reuniões, mostrou, com orgulho, as marcas que restaram da fatídica noite. Eram perfeitamente visíveis os dedos na cintura e os dentes nas costas, devido à queda da cabeça inanimada daquele desgraçado. Quando começaram a desaparecer, tatuou-as, qual caçador que regista o momento glorioso da vitória sobre a presa.

As histórias eram muitas e Sofia achava-as divertidas. Vera permanecia mais séria, chegando a sentir a dor dos personagens que preenchiam as noites das duas amigas.
Às quintas, assumindo um perfil de psicóloga, assistia incrédula aos discursos dos veteranos de guerra que, por sorte ou astúcia, não tinham o nome inscrito no Monumento aos Combatentes do Ultramar.
Um deles, o Vassoura, como o chamavam naqueles tempos, tinha uma função muito peculiar. Sempre que havia uma deslocação de tropas, seguia uns trezentos metros à frente, sozinho, matando tudo o que se mexesse na passagem que seria usada pelo batalhão. Um dia foi alvejado. A bala acertou-lhe de raspão na cabeça, levando-lhe um bom pedaço do osso craniano que mais tarde foi substituído por uma prótese em platina.
Há uns anos atrás, o veterano divertia-se com velhos amigos batendo objectos de metal contra a testa. As batidas produziam uns sons bastante engraçados. Foi neste preciso momento que ele teve uma epifania. Fundar um grupo musical. Esta experiência resultou no Grupo Ferrinhos Unidos de À-Dos-Paus, terra natal do Vassoura. O conjunto tinha bastante sucesso, sendo a atracção principal a música "Testa de Ferro", em que o Vassoura acompanhava os restantes membros do grupo batendo freneticamente na testa com um dos ferrinhos.

No dia seguinte será o meu primeiro encontro com os neuróticos anónimos e preciso estar completamente desequilibrada. Não será difícil... Afinal quão neurótica precisa uma pessoa ser para frequentar todos os grupos anónimos de Lisboa, e arredores, só para não estar sozinha?
Sou uma turista. É isso que sou. Assumo o meu papel na cultura dos locais que frequento. Visito as mentes dos nativos e guardo fotografias mentais do que vejo. Sinto que não mais voltarei ao local visitado mas esse local acompanha-me interiormente. Os lugares que visito são os meus lugares.
Contudo uma coisa mudou na minha vida. Passei a dormir.
Os bebés não dormem assim!


(continua...)

Imaginário


Hoje estou sem grandes ideias para escrever, assim, decidi vir tomar um café e... Escrever!
Os mesmos vultos de sempre à minha volta. O jogador, o usurpador, alguns dissimulados, dois lutadores, vários calados, um falador e montes de outros que passam no lado contrário do vidro.
Posso entrar no detalhe de cada um deles e traçar-lhes um perfil. Poder posso, mas não o farei.
Existem milhares de motivos para uma pessoa viver um determinado perfil. Eu próprio já vivi demasiados perfis e já tentei milhares de vezes voltar a ser eu. Não julgarei.

Está um pouco frio mas tenho as mãos quentes. Deve ser de teclar desenfreadamente. Por vezes, penso que assumi este perfil de escritor para fugir da realidade. É mais fácil escrever sobre ela do que vivê-la. Sinto-me um observador que tudo vê. Uma espécie de senhor do imaginário alheio. É isso. Um narrador.


O jogador saiu... Fechou o portátil, enfiou-o na mala e saiu. Será que ganhou o jogo? Usava calções, meias brancas e ténis. Ele só saiu porque eu assim o escrevi. Eu comando a vida dele no teu imaginário porque, se agora eu escrever que ele usava meias pretas, tu vais ficar na dúvida. Seriam pretas ou brancas? Mas desconfias de mim. Deixo de ter o perfil do controlo. Desconfiança por quem está a escrever a história é o pior medo de quem narra. Perde a credibilidade. É despromovido a um mero personagem.


Posso usar muitos subterfúgios e referir, até, que o jogador nunca aqui esteve. Foi tudo produto da minha imaginação emocionalmente instável e debilitada. Eu apenas quis vê-lo aqui sentado na minha frente e, na realidade, ele nem usava meias, estava descalço. Provavelmente não resultará. São precisos anos de construção para estabelecer uma relação de confiança mas basta um pequeno e insignificante erro para destruí-la.


O usurpador, por outro lado, está cá. Sinto-lhe a presença como se de um parasita se tratasse. Sinto-o a sugar os bits que passam pela rede sem fios e penso, até, se não estará a ler o que eu escrevo. Tenho medo deste! Não falarei mais sobre ele.


Entraram mais dois que conversam alegremente desconhecendo, por completo, que são agora personagens de uma história. Tenho o poder da criação. Criar personagens.
Não querem? Paciência. Quem manda aqui sou eu e, agora, são mais dois personagens. Dá-me jeito aumentar mais um ou dois parágrafos e a história até fica mais composta.

Estes dois conversadores nem dão pela minha presença. Espera... Um deles olhou-me. Desviei o olhar. Grande merda... Será que ele percebeu?
De repente entra um tipo completamente descontrolado pela porta, olha à sua volta, agarra no pescoço do conversador e aponta-lhe uma faca ao pescoço. O agressor está desvairado, encosta-se a um pilar no meio da sala com o seu refém pela frente e olha à sua volta em pânico. Sinto-lhe a respiração ofegante mesmo ao meu lado.
De repente vê uma porta do outro lado da sala e, levando o seu refém, escapa-se sem mais interferências. Passam dois polícias a correr pela primeira porta.
Pronto, livrei-me deste. Espero que nada lhe aconteça.

O café está a encher-se de gente. Demasiadas personagens para controlar. Acho que nem consigo escrever tão depressa quanto o incremento do número de seres que entram. Posso no entanto livrar-me de uns quantos mais.
O narrador controla a vida e a morte sem medo do julgamento bárbaro das mentes humanas.
Mas como livrar-me de pessoas que estão realmente aqui? Não preciso. Só preciso de livrar-me delas no teu imaginário. A tua realidade é aquela que eu quiser.

Na verdade eu preciso de todos os personagens. Todos são importantes para a minha história e a minha história é importante para mim. É a minha vida.
Podemos tentar anular capítulos mas eles escrevem-se por si.

A fila para pagar aumenta. Os dois lutadores não conseguem agir tão depressa quanto esperado por tantos personagens. Exactamente como eu não consigo escrever tão rápido quanto deveria para acompanhar o teu desejo de imaginário.
O falador desapareceu! Que raio... Um personagem com vontade própria? Como deixei este escapar sem ser eu a traçar-lhe o destino?
Ah! Está a voltar da casa de banho. Pensavas que escapavas assim sem dar cavaco? Vá, vai lá pagar e pira-te. Não preciso mais de ti hoje.

Fiz bem em mandar este embora. Deve ter um compromisso, do qual se esqueceu até ao último minuto, mas deixou a sua sensual companhia na mesa. Olho-a nos olhos. Gosto deste personagem. Ela também me olha nos olhos. Este é o chamado momento cinema, aquele em que os olhares se cruzam e chegamos a um ponto de não retorno. Ou é para a vida ou é para este segundo apenas.
Foi apenas para este segundo.
Que estou eu a fazer? A cruzar olhares com personagens? Absurdo. A minha posição é outra... É solitária. Não me misturo com personagens.

Esqueci-me da gordinha dos óculos. Coitada. Já deve ter dores musculares de tão parada, sem acção. Olhava-me desesperadamente como se me pedisse uma linha de argumento para executar. Deixo-a descruzar as pernas e mudar de posição. O acompanhante aproveita para olhar-lhe o peito. Eu faria o mesmo, se fosse um personagem, mas não gostei da maneira como ele olhou. Eu tê-lo-ia feito de outro modo.


O som ambiente não me agrada. Não passam boa música aqui. Preciso mudar isso. Preciso mudar muita coisa. Aqui, na minha vida, em mim.
Preciso estabelecer um contacto real com os personagens e esquecer a posição solitária de quem está no controlo. Preciso abandonar a narração e encarnar a acção!
Preciso parar com as vontades e desejos que são acedidos por todos. Preciso...

De repente, ao meu lado, um dos lutadores...


- Deseja mais alguma coisa?