Agora não passam de palavras sem defesa, vulneráveis, mas, ao mesmo tempo, tão seguras pela intrínseca aceitação de cada um.
É, no entanto, um pouco perturbador que os meus gostos convirjam numa lista de óbitos, cuidadosamente seleccionada e uniformemente ilustre, tendo até, alguns deles, ganho o prémio Nobel da literatura. Valha-nos isso.
Onde estará aquele cliente que reservou o "Nenhum Olhar", do Peixoto, via telefone. Disse-me que viria depois do almoço, na abertura da loja, mas ainda não apareceu. É o último exemplar disponível e ele não aparece.
O único que destoa um pouco na lista, tornando-a até menos ilustre, é o homem que me desprezou. Porque está ele no meio dos meus livros?
Considerando os prémios que o Peixoto já ganhou, não seria difícil vender este mas, o homem do telefonema, pediu que o reservasse, tão educadamente, vou mantê-lo aqui na minha secretária.
Sento-me e o meu corpo assume uma forma rígida e levemente curvada, obedecendo às formas impostas pela única cadeira que tenho na loja. Tem braços, o que já não é mau. Servem para apoiar os cotovelos enquanto dou uma leitura casual por um dos meus óbitos favoritos. Esta lista é divinal e nunca a palavra me soou tão perfeita neste contexto. Quando me reclino, ouço um ranger ligeiro que acusa a idade desta antiguidade que me deixaram aqui para evitar as varizes e, apesar de ligeiro, deixa-me bastante nervosa. Interfere na minha leitura.
São 15:06h e o homem do telefonema não aparece. Disse que vinha à hora da abertura. Continuo a ler mais um pouco mas torna-se difícil neste estado. Ansiedade e leitura não combinam. Levanto-me, mais um ranger de madeira, e dou uma volta pelas prateleiras. Reparo num livro mais saído que os outros. Corrijo a situação rapidamente.
Podia ir tomar um sumo de laranja mas, se ele aparecer enquanto estou no café, vindo do outro lado da rua, não o vejo e ele vai ver a loja fechada. Não vejo solução e não vou. Não consigo evitar olhar para o relógio novamente, 15:23h. Penso em ligar-lhe mas vai parecer que estou a forçar a venda do livro do Peixoto e o Peixoto não precisa que forcem nada. E o pior é que, quando estivesse a ligar-lhe, ele poderia ligar-me para dizer-me que chegaria mais tarde e ouviria o sinal de impedido e eu ficaria sem saber que viria mais tarde. Em simultâneo, eu também ouviria o sinal de impedido e não conseguiria falar com ele.
Volto a sentar-me, mais um ranger perfeitamente ensurdecedor, e bato a ponta dos dedos, sequencialmente, na secretária por uns instantes. Depois faço o mesmo no livro do meu desprezante, aproveitando que a foto da contra-capa está virada para cima. O som é mais abafado mas sinto uma ligeira satisfação em bater-lhe na cara triste, mas risonha, que olha fixamente para mim. Sacana. Tinhas tudo para ser feliz e não quiseste.
Subitamente o som do telefone! Antes que pudesse tocar a segunda vez, atendo para perceber que não é o homem do telefonema. Fico desiludida por ser, apenas, a minha melhor amiga Sofia que quer saber de mim e se estou bem. Digo-lhe que sim e despacho-a num instante. E se o homem do telefonema liga? Vai ouvir o sinal de impedido e provavelmente não ligará novamente. Nunca vou saber se ele queria dizer-me que já não vem ou que já comprou o livro em outra livraria ou que vai chegar um pouco mais tarde. Preciso desligar Sofia, desculpa! E num som de plástico contra plástico, misturado com campainhas de cobre, termino o telefonema com a minha amiga seguido de um ranger de madeira velha que já merecia uma lareira bem ateada. Devagar, recosto-me novamente mas, desta vez, conto o número de rangeres que a cadeira emite persistentemente. Consigo distinguir seis estalidos, o que denota uma racha já antiga. Quando os estalidos são apenas três ou quatro a estrutura ainda está medianamente envelhecida mas, depois dos cinco, é realmente preocupante continuar a sentar-me nesta velharia rachada. O tipo continua a sorrir para mim em cima da secretária. Viro o livro ao contrário apenas para perceber que a capa não é melhor. Onde está o homem do telefonema? São 15:41h.
Vou ranger a cadeira apenas em três estalidos. É como um jogo de paciência em que tenho de parar de exercer o meu peso no momento do terceiro estalido para me sentir vitoriosa sobre um pedaço de madeira inerte que não é melhor que eu. Recosto-me, Tlec, Tlec, Tlec... Tlec! Merda! Já tento daqui a pouco quando ele aparecer. Assim que vender o livro fico mais tranquila e hei-de conseguir. E se colocar um pedaço de papel dobrado na racha? Poderia evitar o quarto estalido. Pego num post-it amarelo e dobro-o, e volto a dobrar, e depois debruço-me de cócoras à procura da infame racha. São três pés curvos, unidos num eixo vertical, que suporta o centro do assento. Não consigo ver a racha e faço força num dos braços para que o som denuncie a falha estrutural que procuro. Joelhos assentes no chão, mão esquerda levantada e ouvidos atentos ao mínimo ruído. Os olhos não são necessários quando a escuridão do nível mais raso que existe está a dois centímetros da minha cara e só vejo sombras. Tenho de usar os dedos assim que o tlec tlec soar para apalpar a madeira e descobrir a maldita racha. Tlec! Apresso-me a passar os dedos pelo eixo vertical e sinto uma reentrância que pode muito bem ser a sacana da racha que provoca e provoca e provoca impunemente. Deixo o dedo a marcar o alvo, pego no post-it dobrado em quatro com a outra mão mas... Não acredito! Está grosso demais para caber na racha. Onde estará aquele homem do telefonema que não aparece. Já são 15:58h.
Preciso de outro post-it. Este não cabe na racha. Levanto-me apenas para sentir a dor nos joelhos provocada pela inusitada situação. Já antes estive nesta posição, e adorei, mas tinha um colchão ortopédico debaixo de mim e ele segurava-me firmemente pela cintura não me deixando escapar às investidas fortes e certeiras. Que saudades. Dobro o post-it em dois. Apesar de não conseguir medir a espessura de um post-it dobrado em dois sei que é, de certeza, metade do post-it dobrado em quatro e o outro parecia ter o dobro da espessura necessária para caber na malvada racha. Perfeito! Entrou como se tivesse sido feito por medida. Volto a sentar-me lentamente com aquele medo da dúvida na missão bem cumprida, ou não. Tlec, tlec... Tlec... Tlec! Porra! Já passa uma hora e meia da hora que o homem do telefonema disse que vinha e nada!
Já estou stressada! Um dia tenho de controlar esta ansiedade. Será que os homens desistem porque sou demasiado ansiosa?
16:34h. De-za-sseis-ho-ras-e-trin-ta-e-qua-tro-mi-nu-tos. Daqui a pouco são sete da tarde!
Preciso ir à casa-de-banho. Porque tinham de fazer a casa-de-banho na mezzanine, num canto tão longe da porta. Se o homem do telefonema chegar não o vejo, talvez o ouça mas não vejo. Vou aguentar um pouco, pode ser que ele chegue entretanto. Sento-me na cadeira e começo a pensar nos óbitos da minha lista ilustre e relaciono-os com a minha vontade de fazer xixi, a somar com a racha que continua a provocar-me... Não se deve conter a vontade da natureza. Pode fazer mal. E começo a imaginar bexigas que explodem e inundam o interior do corpo com líquido tóxico que se espalha pela corrente sanguínea e provocam a morte em minutos. E nem fiz nada, ainda, na minha vida para entrar numa ilustre lista de óbitos a não ser enfiar um post-it, dobrado em dois, numa racha perversa que me mói o juízo constantemente. Pego num post-it e escrevo "Por favor, espere um momento. Estou no WC" e colo-o na porta da loja, mesmo antes de olhar para o relógio (16:59h), subir as escadas que, noto agora, fazem um ranger bastante vigoroso a cada passada enquanto subo a correr para ir à casa-de-banho. Nhec, nhec, nhec, tlec, nhec, tlec, rachas e mais rachas à minha volta!
Deixo a porta aberta para ouvir melhor se alguém entrar na loja. Quando começo a aliviar-me, contraio um pouco os músculos para que o barulho seja menor e não se sobreponha ao mínimo som proveniente do andar de baixo. Malvadas rachas, não me saem da cabeça.
Um barulho na porta. Grande merda... Será o homem do telefonema? Liberto os músculos e apresso-me a terminar o meu serviço fisiológico, nem me importando com a percepção de que alguém poderia estar no andar de baixo a ouvir-me a fazer xixi na casa-de-banho. Desço as escadas a correr, nhec, nhec, nhec, tlec, nhec, tlec. Rachas com fartura mas, mais ninguém. Que estranho. Ouvi um barulho na entrada. Dirijo-me à porta para retirar o post-it para me aperceber que continha mais duas palavras e um ponto de exclamação, escritas à frente da minha mensagem com uma caneta de feltro, bem diferente da Bic que eu usei, para escrever a mensagem inicial. "Por favor, espere um momento. Estou no WC a cagar!". O humor satírico dos portugueses nunca deixa de me surpreender e, apesar de nem terem acertado, apesar de já passar das dezassete horas e do homem do telefonema não ter vindo ainda, esboço um sorriso enquanto amarroto o post-it e o deito no lixo.
(continua...)